O espelho dell’ Arte

Cansou o Pierrot a sorrir.  Na verdade ele nunca sorriu, era uma pessoa triste, aos cantos, nas praças, nas praias, onde quer que fosse. Era completamente mergulhado no estigma de seu personagem da Commedia Dell’ Arte. Alegre antes com sua Colombina cheia de amores, a tristeza do desdém amargo em canto de boca. Cálidos beijos silenciosos, pintura desbotada. Sentado em uma cadeira na coxia de um teatro escuro, com um lenço nas mãos borrado de maquiagem improvisada. Amou a Colombina, mas ela nunca viu teu verdadeiro rosto. Sonhou com ela lambendo-lhe a face como um cão sem dono, e a sua língua era áspera com pontas afiadas, machucava a pele como uma navalha . Não havia nada de angelical, era tudo trágico, com pequenos demônios atentando-o em partes baixas. O seu amor era como os dramas do teatro. Desejou-a como as estrelas, mas elas nunca caem no céu, apenas perdem o combustível até morrer. O Pierrot perdia sua identidade, já não tinha mais no rosto toda a alegria pintada, era tristeza, parcialmente borrada. Ao lavar o rosto na pia cheia de tinta e cabelos, viu a água branca como cal. Com uma velha toalha retirou o que restou do personagem. Na frente daquele espelho já velho e embusteado, estava um homem inteiro, mas quebrado em milhões de cacos. Nunca vira o rosto de sua amada. Ela era apenas uma personagem embaixo de tantas cores, e ela nunca mostrou além daquilo. As cortinas se fechavam, o espetáculo acabava ali, ao final da apresentação.

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