Os olhos nus

“Ana Clara contou que tinha um namorado que endoidava quando ela tirava os cílios postiços, a cena do biquíni não tinha a menor importância, mas assim que começava a tirar os cílios, era a glória. Os olhos nus. Em verdade vos digo que chegará o dia em que a nudez dos olhos será mais excitante do que a do sexo. Pura convenção achar o sexo obsceno. E a boca? Inquietante a boca mordendo, mastigando, mordendo. Mordendo um pêssego, lembra? Se eu escrevesse, começaria uma história com esse nome, ‘O Homem do Pêssego’. Assisti de uma esquina enquanto tomava um copo de leite: um homem completamente banal com um pêssego na mão. Fiquei olhando o pêssego maduro que ele rodava e apalpava entre os dedos, fechando um pouco os olhos como se quisesse decorar-lhe o contorno. Tinha traços duros e a barba por fazer acentuava seus vincos como riscos de carvão, mas toda a dureza se diluía quando cheirava o pêssego. Fiquei fascinada. Alisou a penugem da casca com os lábios e com os lábios ainda foi percorrendo toda sua superfície como fizera com as pontas dos dedos. As narinas dilatadas, os olhos estrábicos. Eu queria que tudo acabasse de uma vez mas ele parecia não ter nenhuma pressa: com raiva quase, esfregou o pêssego no queixo enquanto com a ponta da língua, rodando-o nos dedos, procurou o bico. Achou? Eu estava encarapitada no balcão do café mas via como num telescópio: achou o bico rosado e começou a acariciá-lo com a ponta da língua num movimento circular, intenso. Pude ver que a ponta da língua era do mesmo rosado do bico do pêssego, pude ver que passou a lambê-lo com uma expressão que já era sofrimento. Quando abriu o bocão e deu o bote, que fez espirrar longe o sumo, quase engasguei no meu leite. Ainda me contraio inteira quando lembro, oh, Lorena Vaz Leme, não tem vergonha?”

Nunca me esqueço, desse trecho do livro da escritora Lygia Fagundes Telles, lido aos meus dezesseis anos, dentro de um ônibus enquanto ia pra escola. Era um tempo em que estava questionando-me sobre muitas coisas ao meu redor, pois claro, a mente de uma adolescente está sempre em crise, em questionamentos, a não ser que este, o adolescente seja um completo idiota onde em sua mente exista apenas uma zona de vácuo. Sim, eles existem, são aqueles que ficam parados no corredor, ou sentados na beirada de uma calçada em frente da escola, de boca aberta.

 Em tempos de culto de bunda, peitos e troncos malhados, ficamos desacostumados frente à beleza de coisas simples. Desde o contato com esse livro, eu que me encontrava por muitas vezes sozinha na minha convicção de que apenas a beleza física não era um elemento único determinante de uma atração. Encontrei ali, naquele livro emprestado de biblioteca, a definição para aquilo que eu acreditava, mas que não tinha tal maestria para escrever. É algo como os olhos de Capitu, oblíquos e dissimulados, cuja beleza, ou seja, a visão daquele olhar já justificava em poucas “palavras” ou observações toda a composição de fascinação do personagem. Eu acredito que poderíamos ser mais Bentinho, ou mais Lorena Vaz Leme, a personagem da Lygia, que descreve a beleza de um homem com um pêssego nas mãos, isso porque “era um homem banal”.

 Eu afirmo, com toda a certeza do mundo, como mulher, que existe uma poesia incontestável nos olhos das pessoas que tem o sorriso estampado no olhar. É uma poesia tão complexa, que diante de tal beleza, baixamos os olhos, talvez para esconder tal fascínio que a pessoa exerce, ficamos desajeitados, é como se dançássemos com um exímio bailarino ou bailarina, e nós lá, com nossos passos tortos, mas completamente guiados pela segurança daquele que nos estende a mão. Numa conversa com um amigo escritor ele me contou que há um ditado que na Idade Média, os únicos que olhavam diretamente nos olhos do soberano, sem medo, eram os gatos. Quando você está diante de uma pessoa que fala com um olhar, você está diante de um gato, porque ele sempre terá a coragem de olhar nos teus olhos, não importando se você é um súdito ou um soberano, pessoas que falam com o olhar não possuem distinções. Tem os olhos sem véu. Os olhos nus…

 A personagem de Lygia ficou fascinada com um homem banal que devorava um pêssego vamos falar disso então:

 As veias e tendões sutilmente aparentes, e a tênue linha de pescoço, aquela que vai da nuca e desce até o peito, ou como um amigo meu me confessou um dia, “os tornozelos de minha namorada escapando pelo lençol”… Entendem? Os braços de um homem ao volante? Observe… Veja os braços, fazendo força para carregar uma sacola, é uma trilha pecaminosa, azul esverdeada, nervuras “tendenciosas” sutis. Já viu sua amada espreguiçar-se, ou encantou-se com a forma de como ela corre esbaforida quando está perdendo hora, equilibrada num salto alto, correndo desajeitada, ou quando corre para se proteger da chuva. Sentir um desconforto bom em ver os braços ao volante, e de como os raios de sol iluminavam os pelos acastanhados do braço. Barba por fazer? Trilha pecaminosa de linhas de pescoço. Pararia estarrecida, eu olharia para um homem com uma bela linha de pescoço como um gato olha o soberano, com a diferença que olharia o pescoço e além dos olhos desconcertantes ( adoro essa coisa de olhar, olhos são o espelho da alma). Pode haver o desconforto e dizeres de certo incomodo, pois toda observação pode gerar uma opinião que não se justifica, um julgamento errôneo. Haverá sorrisos desajeitados, assim, com os olhos, num ato tão singelo… E viva a nudez dos olhos e a beleza singela das coisas “banais”. “Oh, Ana Paula Idris da Silva, não tem vergonha?”

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2 comentários sobre “Os olhos nus

  1. Mais do que os olhos, o olhar sempre me fascina, aquele que vê e, por isso, julga. É só por isso que leio: pra descobrir um novo olhar; é só por isso que escrevo: pra agregar o meu olhar, mudo a desnudar o mundo.

    🙂

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