Brilho eterno de uma mente de criança

Eram duas crianças, totalmente isentas de conhecimento que atordoa. Crianças apenas. No vai e vem de balanços, sorrindo uma pra outra. Não precisavam do empurre de outra criança ou de um adulto. Lá no alto, indo e voltando, crianças completamente alheias e dispersas nesse nosso mundinho tão perdido. E eu sentada em um banco de praça, observando o movimento, trazendo à tona minhas lembranças de infância. Lembro-me que eu ia à praça comer algodão doce, e quando eu me sentava no banco de concreto, vários pombos se reuniam em volta, pedindo com seus olhos esbugalhados e vermelhos, um pedaço do açúcar em fios cor de rosa que manchavam meus dedos. Eu gosto de algodão doce até hoje, e de lamber meus dedos como uma criança. Mas faz tanto tempo… Tanto tempo que eu não me sinto mais como uma criança. Sinto saudades, muitas vezes, dos tempos em que não éramos atingidos pela malícia, e que pensávamos que a solidão de fato é algo apenas como ficar sem os pais, por exemplo, de acreditar que o brilho das estrelas são pessoas mortas queridas. Hoje sei que as estrelas que estão ali são talvez uma luz que nem exista mais. Mas eu vejo uma linda poesia nessa coisa toda. Eu adoro astronomia. Queria poder ficar num gramado ou um local aberto, longe da civilização e estudar as constelações. Ter uma luneta ou um telescópio. Queria poder viver das estrelas, estudá-las… Mas, eu queria muitas coisas. Ser humano sempre querendo mais e mais, sempre descontente com algo ou, mesmo feliz, tem aquele ingrediente perdido no meio da receita. Entendem? É como ser um bolo de fubá, mas sem erva-doce. Ahhh, minhas abstrações, mas enfim. Minha vida é gostosa como uma bolo de fubá, mas falta algo como erva-doce ou queijo minas frescal.

E a praça, cheia de coisas curiosas, um brinde aos meus pensamentos sobre a vida, o universo e tudo mais. E tinha a inveja infantil… A criançada brincando num canto de areia, construindo castelinhos. E um menino dos olhos claros teve seu castelo destruído pela guriazinha chorona. E ela gritava: ” Seu castelo é mais bonito que o meu.” Num tempo de castelos sem princesas, a inveja e o ego começa a reinar desde cedo. Quando eu estava no jardim, lá na escolinha Sete Anões, em Limeira, eu me lembro dessas intrigas infantis. Tinham os “vendedores” de areia molhada. Eles traziam de casa as garrafas plásticas de refrigerante. Enchiam de água e areia, e passeavam pelo parquinho vendendo suas garrafas para as crianças escultoras ou crianças cozinheiras. Eu fazia dos dois. Bolos de barro e montanhas que eu colocava meus bonequinhos, que eu costumava dizer que eram moradores da “minha montanha”. E o escambo era geral. Nós costumávamos ir para o campo de areia, depois do recreio. E os que estavam interessados em areia molhada trocavam a garrafa com o barro pronto, por balas, chicletes, frutas, chocolate. Tudo dependia do que você tinha a oferecer. Tinha aqueles “Depois eu pago”… E ficavam sempre no depois. E então vinham as brigas, criançada correndo e gritando pelo pátio da escola BRIGAAAAAA!!!!! Os vendedores de areia molhada versus os caloteiros. E a briga corria solta, e as inspetoras vinham correndo. E dá-lhe diretoria! E no dia seguinte, a venda de barro continuava rolando solta, sob olhos atentos das “tias”.

E eu disse que no começo do texto não existia a malícia. Bem tinha um pouco sim. Tinham os beijinhos atrás da moitinha, as flores que os meninos entregavam para as guriazinhas tidas como as mais bonitas. E eu me lembro, hoje, lembrança ao qual eu dou risada. Havia um guri que gostava de mim, e me dava flores todos os dias. Mas ele era bagunceiro e mal criado. Roubava os lanches alheios, batia nos meus amiguinhos e gostava de mim. Um dia, teve o primeiro ensaio da quadrilha da festa junina da escola. A professora, que se chamava Ana, colocou ele como meu par. Eu o odiava, mas ele vibrou e me chamou de “Meu Amor”. E então eu fiz um escândalo. Comecei à chorar. Quiseram me obrigar a dançar com ele, mas eu fiquei muito tristinha e me recusei a ir na escola. Minha mãe, foi à escola e então eu fui a única aluna que não dançou quadrilha. E eu digo, até hoje, não gosto de dançar quadrilha. Tem certas coisas que ficam enraizadas, não digo que seja um trauma de infância, ou seria? Mas foi a primeira vez que eu fui forçada a fazer algo que eu não queria. Eu não queria tomar injeção, mas eu de alguma forma sabia que aquilo era para o meu bem. Aquele menino tentava me beijar a toda hora e dizia que se casaria comigo. E não, aquilo não era agradável, de forma alguma.

Quando eu entrei na minha primeira série, eu tinha seis anos. Entrei mais nova, não fiz o pré, pois já sabia ler e escrever. Lembro-me que meu primeiro amor ( bem, não era amor, mas vamos deixar por assim “amor”) foi um japonês. Ele se chamava ( lembro-me até hoje), Caio Muriel Tanaka. Tudo que ele tinha era do Japão, inclusive a mochila, era uma preta, meio quadradona. Ele tinha o cabelo de tigelinha. Era um linda criança, não sei como, mas lembro-me do rosto dele até hoje. Era o melhor aluno da sala, de longe. Éramos amiguinhos, mas apenas isso. Eu tinha vergonha que ele soubesse que eu “gostava” dele, e naquela época eu seguia o conceito de amor platônico sem nem ao menos saber quem era Platão. Eu gostava do japonês, mas eu tinha um admirador, de seis anos, que me mandava cartas de amor. Chamava-se André Luís, e era loiro dos olhos verdes. Tenho um episódio único de minha infância com esse garotinho…

Um belo dia, estava eu e André Luís voltando da escola. Tínhamos comprado aquelas balas quadradas de doce de leite. No meio do caminho tinha uma pomba, aparentemente “deitada” tal como aves fazem, no meio da calçada. Eu como criança deslumbrada em um mundo de pássaros entre outros bichinhos, me agachei enquanto André Luís permanecia de pé, chupando uma bala atrás da outra. A pomba permanecia quieta, e eu achava que ela estava dormindo. André pegou um graveto e me deu. E quando viramos ela, tinham vermes devorando suas entranhas. Foi o meu primeiro contato com a morte. Aquela coisa efêmera ali na minha frente, trouxe-me uma série de questionamentos, e eu nunca me esqueço, do local, das pedras na calçada, de André Luís e o cheiro de balas quadradas de doce de leite. E até hoje, quando sinto cheiro de doce de leite, lembro do menino André tentando me acalmar, mesmo sendo uma criança. Ele me viu chorar, e me deu a mão até eu chegar em casa. Se despediu com um beijinho no rosto, e me mandava cartas coloridas com letras tortas. Ahhh a infância… Brilho eterno de uma mente… Com lembranças.

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6 comentários sobre “Brilho eterno de uma mente de criança

  1. Muito bonito. Gosto muito do teu estilo, independente do assunto. O ritmo agradável demonstra tua habilidade.
    A saudade que sentimos do passado, e não apenas o passado, é nossa maior herança.
    A sensibilidade e a formação metafórica do texto são tocantes.
    Um beijo na tua face.

  2. Não me lembro bem da minha infância (embora eu seja um pouco grato por isso), mas fico fascinado com esse tipo de história. Isso me faz pensar no como-poderia-ser da vida. (também me ganhou pela referência Douglas Adams: “a vida, o universo e tudo mais” :))

  3. Enquanto lia sobre sua infância, fazia imediatamente imagens mentais sobre a minha. Eu estava do lado oposto: eu era o cara que arrumava encrenca – e gostava muito de uma garota -, eu era o cara que mandava cartas de amor sem ser correspondido, eu era o cara que, também, gostava de se mostrar sabido, eu era o cara que, de repente, agradava uma garota sem querer… eu era um cara em uma infância feliz. Tá certo que também existiam as adversidades, mas acho melhor contar isso em outra história.

    Legal conhecer seu blog e maneira como escreve, pensa e sente.

    1. Sabe o importante de tudo isso? Você era o cara em uma infância feliz! E não importa como éramos. Eu acho que eu era uma criança meio cricri. Eu arrumava encrencas também… Várias… Ainda vou contar o meu lado encrenqueiro. Eu acho legal isso, essa coisa de você estar num lugar e se lembrar de coisas remotas. Quando eu vi as crianças brincando nas caixas de areia, eu lembrei de minha infância, voltando toda imunda pra casa, nossos campeonatos de castelinhos e construções na areia, os pequenos amores. É tão bom isso! E fico feliz que gostou do blog! Seja bem vindo, sinta-se em casa! 😀

      1. Valew, Ana!

        Sei bem como é isso de ver algo ou alguém que nos remete a um passado, seja qual for, e nos faz refletir sobre algo ou sentir aquilo de novo.

        Pode ter certeza, já estou em casa. 😀

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