Bordeaux

Entre um gole e outro vou cavocando lembranças madrugada adentro. O barulho do ar-condicionado não me tira a concentração. Entre um gole e outro vou digerindo como um doce pecado as páginas de um livro. Encosto-me a parede de maneira não anatomicamente correta. Eu detesto coisas politicamente corretas. Eu gosto do caos. Aquele caos indecente dentro da minha organização. Daqui a pouco sei que vou dormir provavelmente com o livro em cima do peito, ou simplesmente vou beber o último gole que decanta indecentemente no final da garrafa. EU olho pela janela, vejo as casinhas de luzes amareladas no horizonte, e estou perto do mar, mas não escuto as marolas, escuto a molecada insone conversando na rua, e um calor que me aflige, de todas as formas. Pode ser o vinho, carregado de calor das emoções tingidas de lembranças. Ou seria o contrário?Estou tomando um vinho Bordeaux, se fosse um Merlot, já estaria em meu quarto, e não em um mesa de tampo de vidro. Entre um gole e outro, bebo minhas tórridas lembranças em goles de uma certa melancolia. Talvez seja o calor, aqui em Salvador é extremamente quente.

 

Hoje eu passei na beira da praia. Foi a primeira orla que eu vi em meus vinte e cinco anos que possuí cactos. Adoro cactos sabia? Mas não tanto quanto girassóis. Tive um momento de epifania, assim que encontramos o primeiro posto depois de uma viagem de avião Teco-Teco da Trip. Chegamos ao aeroporto e subimos no carro. Tínhamos pela frente cerca de duas horas e meia de viagem. Paramos em um posto de conveniência, era de madrugada, bateu uma fome. Logo na entrada da loja, tinha uma escadaria e um jardim de girassóis. Alguns estavam despedaçados, mas mesmo os girassóis incompletos me encantam de tal forma, que seria um poema de muitas estrofes se eu fosse escrever meu amor diante os girassóis. Quando eu era jovem, eu amava, aliás, eu ainda amo, aquela música do “Ira!”, “O Girassol”, mas não sou fã da música “Girassol” do Cidade Negra. Acho enjoativa e repetitiva.

 

“Um Girassol sem sol, um navio sem direção…” (algo assim. É tarde da noite e estou com doses de tanino na cabeça).

 

Mas a música mais linda que se aproxima da beleza de um Girassol, é “Sunshine”, do John Denver. Eu amo essa música, se eu soubesse cantar, eu cantaria essa música numa serenata, mas enfim, escrever é uma das certezas que eu tenho que de alguma forma eu sei fazer, mesmo que algumas vezes eu tropeço em pedras no meio do caminho. Como escritora insone, quando o dia ameaça amanhecer, fico cansada demais para revisões minuciosas. Este escrito aleatório, além de ser escrito madrugada adentro, tem o fato “Tanino” com notas de saudades, aroma de lembrança com poesia e um pouco de breguice incontida e imensurável. Às vezes a saudade é tanta, que eu poderia construir vários prédios azuis, com tijolos velhos, apenas para matar o tempo. Muitas vezes tenho vontade de cometer um crime contra o tempo. Poderia sacanear os ponteiros, convidá-los para dançar na beira de um abismo. Iria rodopiá-los, até os ponteiros ficarem tontos e se atirarem sem querer no abismo. Assim ficaria somente o agora. Não teríamos que ficar pensando nos dias de amanhã, remoendo a desconstrução os sonhos, embriagando-se na falta de perspectiva de tudo o que nos cerca, aquelas coisas aos quais deitamos a cabeça no travesseiro e perdemos noites de pesadelos cheios de medo do fracasso. Queremos algo como o poema “Lídia”… Seria bom se pudéssemos ficar na beira do rio, como pagãos tristes, com flores no colo, mas a vida seria monótoma… Ou não, posso estar delirando à toa. Gosto de fazer isso, divagar… Divagar, principalmente com taninos na cabeça…

Imagem
Girassóis baianos de uma escadaria de um posto de meia estrada… Epifania.

 

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2 comentários sobre “Bordeaux

    1. Quando eu era criança, divagava com ovomaltine (bem…eu ainda faço isso!Adoro! Hoje, adulta, teço minha saudade, minha paixão, meus sentimentos em taças bojudas de vinho. Estou longe de ser uma alcoólatra incorrigível, mas o vinho faz meus devaneios ficarem mais sem amarras. Seria os taninos?O álcool em si?Não sei!Fico assim com chá, com café, leite…Sou um poço de viagens na maionese. A morte da bezerra é um velório eterno… :D.

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