Garotinha.

Ninguém sente mais nada. Doses de morfina tomaram conta da madrugada. Ninguém sabe de mais nada, está tarde agora querido, gatos namoram nos muros, a coruja de mau agouro e olhos grandes amarelados pia lá fora e eu sou apenas uma mulherzinha, uma garotinha pintando aquarelas na madrugada. Não sinto sono, mas sinto fome, tenho preguiça de ligar no delivery. Mentira, na verdade não tenho crédito no celular. Ele está jogado no chão. Eu dormi e ele caiu no chão, abrindo e a bateria saiu fora. Não tenho ligações importantes pra fazer e nem receber. Detesto falar ao celular, prefiro pessoalmente. Perdemos todo o contato, queria me comunicar por sinais de fumaça, mas eu não ando com isqueiros, nem fósforo. Não sei cortar lenha, sou magrela, frágil… E levemente folgada. Prefiro sair por aí catando gravetos, do que cortar lenha. Sou meio confusa, complexa, mas sou apenas uma garotinha, em cima de um salto alto, camisa de mulher, meia calça fina, saia executiva. Apenas uma mulher, incendiária… Gosto de incendiar meu Amor, em fogueiras de fagulhas coloridas, só sei escrever sobre a vida, e tudo o que ela compreende, desde a decadência até breguices de amor. Sou brega, romântica incorrigível e muitas vezes, ogra… Nesse caso sou garotinha mal criada, escarrada. Levo o demônio montado em minhas costas. Mas quando eu vejo um anjo, entro no dilema de não ser tão ordinária. Palavras afáveis funcionam, mas não sempre. Sou uma chata, me cobro demais, mas muitas vezes deixo coisas para trás, sendo relaxada dentro de minha própria mania de perfeccionismo, que é tão imperfeito. Eu escrevo, sou um poço de linhas tortas e insones, verdades e falsas mentiras num balde de verbos… Passo lendo e relendo, mas sempre deixo escapar aforismos, pleonasmos, entre outras coisas. Meu caos não permite a perfeição e eu quero, sinceramente, fugir dela. Gosto de palavras lançadas, sem medo, sem preparo, apenas um fluxo sincero, sádico…

Nesta noite, eu gostaria que chovesse, eu queria ficar parada, no portão, vendo a enxurrada descer na ladeira de casa. É óbvio, se é ladeira, não poderia subir. Tu viste? Eu sou um fracasso! Queria rasgar roupas novas, fazer camas para cachorros de rua. Hoje eu vi um lindo tomba latas dormindo embaixo de um caminhão. Eu pensei se ele passava frio, quando eu era pequena, minha cadelinha morria de frio. Dei um cobertor pra ela. Queria colocar fitinhas na orelhinha dela, mas ela era uma cachorra idosa. Quando soube que iria morrer, saiu pra rua. Encontrei-a morta, na sarjeta, teve uma morte natural. Parecia que ela sabia que seu fim estava chegando, e que ficaríamos todos tristes. Foi meu segundo encontro com a morte, depois de ver um pássaro morto com os vermes a comer as entranhas. Achei que a pomba dormia… Mas não…

Eu tenho uma amiga, que toma anfetaminas. Ela diz que nunca seria abençoada, pois ela considera-se que é um grande pedaço de merda. Queria ser coberta de pérolas, ter flores nos cachos do cabelo, ela queria fugir, num vagão de trem, sem ninguém descobrir, viver a vida sem rumo, no anonimato. Ela amaldiçoa toda falta de sorte que carrega nos ombros. Enquanto isso, eu queria ficar parada, no meio de um temporal… Magoada… Pobre garotinha. Eu tenho fome. Já disse… Escrevo porque sinto saudades. Deixa pra lá…

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Um comentário sobre “Garotinha.

  1. Nostálgica, romântica e insatisfeita. Espreita o mundo. Intui como ele é, e se assusta com a sua própria fragilidade. Sua prosa poética busca a catarse, para tentar viver algo mais real. O talento, no entanto, está presente. Ele prenuncia um talvez promissor.

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