Epifania: Clarabella.

Clarabella acordou numa manhã disposta a arrumar a casa. Na verdade, ela fazia isso quando se sentia magoada, o ato de se reorganizar era uma forma de colocar sua alma tão aturdida em uma paz teleguiada. Era como se ao limpar o chão, varreria do porão da memória toda a angústia que a atormenta. Começou pelo quarto, arrumando a cama, com os lençóis cheios de vincos, lembrança de uma noite que tentou sem sucesso ter algum pingo de amor do marido. Ele chegou tarde e cansado, ela preparou-lhe um jantar e o aguardava apenas de lingerie. Passou o fim de tarde toda preparando um assado, ele olhou, comeu um pouco apenas para não vê-la triste. Dizia-se cansado, o trabalho estava massacrando-o e ele se sentia estilhaçado. Tomou um banho, deitou na cama, dormiu. E ela então colocou seu velho pijama confortável para dormir, mas havia perdido o sono, e quando ela ficava magoada, sentia fome. Fez um prato de comida, e foi para o sofá, carregando todo o peso dos estilhaços, uma tristeza vítrea. Se ao menos, ela pudesse ter alguém para reconstruir-lhe sua alma já tão minimizada, talvez um artista conseguisse enxergar a beleza dela, e faria um vitral com o Amor que ela tão esperançosa acreditava. Ali, naquele sofá da sala, assistindo filme romântico de fim de noite, estava uma mulher adormeceu com o controle remoto em cima do peito, subindo e descendo conforme respirava, e nos sonhos , ela vivia em um mundo menos mesquinho e cheio de noites de Amor. Não culpava o marido, apenas não sentia aquele amor todo que sempre almejava. Tentava amar aquele que sempre lhe ofereceu a mão, que esteve ao lado dela nas dores da vida, mas faltava algo.

Na limpeza do quarto, encontrou um velho baú ao qual guardava suas memórias. Fazia um tempo que ela não o abria, pois quando ela fazia isso, uma saudade da época em que não tinhas tantas obrigações, invasões de tal forma que ela passava a relembrar o passado com olhos perdidos, e uma espécie de torpor causado pela saudade, fazia desligar-se do mundinho real, inserido naquele contexto ao qual ela não almejou.

Dentro do baú ela encontrou a doçura e a inocência de seus tempos de criança. Havia uma boneca que ela carregava para todos os cantos. Ela dizia que era sua filha. E ali, naquele momento, Clarabella, já adulta, experiente e de olhos ainda desacostumados com as provas que a vida escancarava na sua janela,  sabia que o mundo é egoísta e destruidor de sonhos, mas ela não desistia, era uma Dom Quixote de saias, sempre lutando com seus moinhos de ventos transmutados em dragões. Naquele momento, com a boneca nos braços, começou a balançá-la enquanto murmurava uma canção de ninar:

“Dorme, dorme menininha…Eu estou aqui…

Vá sonhar, ainda é tempo, menininha

Vá, vá dormir…Sonha sonhos cor de rosa

Passeia no céu e no mar

Apanha o mundo no teu sonho, menininha

E não deixa ninguém roubar…

Olha, não reparta com ninguém os teus sonhos de menina

Dorme, dorme…Dorme e sonha menininha

Sonha, é tempo ainda…”

 

Naqueles braços, a boneca lhe trouxe as memórias do sonho de ter uma filha. O nome da boneca era Sophia, e ali, agarrada, sentada ao chão em frente de seu baú de memórias, olhou para o relógio e viu que as horas estavam paradas, ignorou o fato de ser apenas um relógio com pilhas mortas, e em um esconderijo de fundo falso no guarda-roupa, as roupas de recém-nascido que compra todo mês, um sonho antigo, eterno. Era ali seu segredo, ela queria uma criança, mas o marido não. Ela queria um pedaço dela nos braços, mesmo que não tenha ali, o DNA de seu amor verdadeiro, um homem que conheceu há anos, e nas idas e vindas de um amor já antigo, a vida lhe deu soco no estômago que lhe impossibilita de viver aquele Amor.

Olhando para a boneca Sophia, apaixonada pelo gesto de ternura, pelo sonho de ser mãe, ficou preocupada, achando que seria daquelas mulheres presas dentro de um hospício, falando sozinha, no canto de uma cela, com uma boneca no colo e injeções diárias de antidepressivos. Passaria o dia dormindo, sonhando com uma criança correndo entre os irrigadores do jardim. Então, rapidamente guardou a boneca, e as roupas de bebê no fundo falso perfumado com sachê de rosas. Sentou na beira da cama, e com o rosto entre mãos, derrubou lágrimas tristes e convictas de que nunca conseguiria ser mãe.

Foi numa tarde de domingo, que numa caminhada para aliviar a tensão, encontrou uma linda cadelinha numa feira de adoção. Levou-a pra casa, colocou uma fita vermelha no pescoço, e presilhinhas nas orelhas. A cadelinha agradeceu o carinho lambendo-lhe o rosto e adormecendo nos braços de Clarabella. E ali teve uma epifania, e o mundo não parecia mais tão egoísta.

“Se alguém disser pra você não cantar
Deixar teu sonho ali pr’uma outra hora
Que a segurança exige medo
Que quem tem medo Deus adora

Se alguém disser pra você não dançar
Que nessa festa você tá de fora
Que você volte pro rebanho.
Não acredite, grite, sem demora…

Eu quero ser feliz Agora

Se alguém vier com papo perigoso de dizer que é preciso paciência pra viver.
Que andando ali quieto
Comportado, limitado
Só coitado, você não vai se perder
Que manso imitando uma boiada, você vai boca fechada pro curral sem merecer
Que Deus só manda ajuda a quem se ferra, e quando o guarda-chuva emperra certamente vai chover.
Se joga na primeira ousadia, que tá pra nascer o dia do futuro que te adora.
E bota o microfone na lapela, olha pra vida e diz pra ela…

Eu quero ser feliz agora

Se alguém disser pra você não cantar
Deixar teu sonho ali pr’uma outra hora
Que a segurança exige medo
E que quem tem medo deus adora

Se alguém disser pra você não dançar
E que nessa festa você tá de fora
Que volte pro rebanho.

Não acredite, grite, sem demora…

Eu quero ser feliz Agora”

PS: Os trechos em aspas são músicas do Oswaldo Montenegro. 😀

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