As horas nuas.

“O amor deveria perdoar todos os pecados, menos um pecado contra o amor. O amor verdadeiro deveria ter perdão para todas as vidas, menos para as vidas sem amor.” Oscar Wilde.

Eu passei tanto tempo encantada com a suposição de que a eternidade exista apenas para aqueles que caem aturdidos diante o fracasso, lamentando os pecados. Eu pensei tanto no conceito de pecado, divagando em linhas tortas as minhas próprias convicções sobre os sete pecados capitais. Eu pensei na luxúria de um homem e uma mulher errante, na avareza de um mercador de flores, ao tentar reconstruir tulipas pintando-as com formol, como se elas fossem eternas e ele nunca perdesse o que cultivou. Pensei na preguiça que me acolhe aos domingos, mesmo com o sol me sorrindo lá fora, faz tempo que meu dia não nasce duas vezes, e então eu padeço numa preguiça levada em galopes de saudade, eu tenho minha saudade quando nas manhãs preguiçosas. Eu sinto a gula tecendo meus sonhos de cama manchados de desejo. A gula, metaforicamente um desejo de carne, aquela que desce languidamente da nuca até o torço, gula que se enlaça, olhando as veias e tendões aparentes de meu amor com braços ao volante. E o que falar da inveja? Eu não sei bem dizer o que é inveja. Talvez uma inveja daqueles casais que sentam juntos em mesas de cafeterias, inveja daqueles que podem ir à Paris apenas para escrever, inveja daqueles que podem contemplar a beleza de seus olhos de dilúvio ao longo do dia.  Eu sinto a Ira da tempestade que cai lá fora, e quando eu saio lá fora querendo me encharcar, eu queria a vaidade daqueles que se molham por puro orgulho. Queria que me visse de roupas molhadas, com frio, mas com um sorriso no rosto como uma criança que fugiu de casa apenas para brincar na chuva. E depois um banho quente e acolhedor, usar meus utensílios de vaidade, passar um traçado negro em meus olhos, deixar algum trecho de minha pele nua, apenas para lhe provocar, um orgulho bobo de te ver na rua ao longe e guardar em segredo, por pura vaidade passar ao teu lado e apenas esboçar um sorriso maroto, de passar próximo a sua casa e nem lhe fazer uma visita, olhar o horizonte de ruas cheias de folhas de outono caídas ao chão, e pintar uma saudade carregada de sete pecados. Avareza em querer tomar uma garrafa de vinho sozinha, gula ao querer devorar e ser devorada, preguiça ao querer dormir ao teu lado e de lá não sair mais, inveja do vento ao entardecer que lhe toca a face, ira daqueles dias que te estressam e lhe sufocam a alma, estrangulando teu tempo já tão escasso, luxúria ao te desejar nas minhas madrugadas úmidas de insônia, orgulho de poder escrever isso assim, nas horas nuas da madrugada…

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Um comentário sobre “As horas nuas.

  1. Muito bom. Caminhe na direção dos seus sonhos, ame sempre, mas nunca dependa dos outros para ser feliz. O grande amor é subjetivo e independente em todos os sentidos. Não é uma prisão, é livre, mesmo dentro dela.

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