Pássaro.

“Essa é a última canção que você irá cantar…
Segurei-o de cabeça pra baixo, quebrei seu pescoço
Ensinei-lhe uma lição que ele jamais esqueceria”

Queria sair por aí, com uma mochila nas costas, andar sem rumo, sem sentir o peso da saudade. Talvez nunca mais voltar. É um grito que escorre por aí nas ruínas do alter ego. Como um cão sem dono, vagando pelas ruas, sem rumo, talvez esperando alguém para acolher. Queria também ser como uma andorinha, sair por aí, voando, mas com o risco de ser um pássaro devorado por gato faminto ou por pura brincadeira de extinto, apenas um novelo de lã que sente dor. Gatos brincam com a comida, mas sem necessariamente querer devorá-la. Já vi um gato matar uma andorinha por puro prazer, era um lindo gato siamês de olhos azuis. Ele brincava com a andorinha já morta pelas mordidas e arranhões. Carregava o pobre pássaro pra lá e pra cá como um troféu. Quando se cansou deixou a andorinha morta com tripas expostas no gramado do condomínio. Eu não pude fazer nada, apenas lamentar, e na minha curiosidade de criança observar o gato com sua brincadeira sádica. E o sadismo também existe com os homens. Nas guerras matavam por pura diversão. Homens, mulheres e crianças, enfileirados de frente pra uma vala a céu aberto. Mãos nas costas e gritos de misericórdia. Olhavam para baixo e apenas o tiro e pedaços de miolos espalhados. Os soldados apenas os chutavam dentro das valas. Se não fossem executados, morreriam de fome, não havia ali meio termo, não havia tempo, não existia nada ali, apenas o ceifeiro invisível esperando recolher as almas que muitas vezes devem ter fugido, vagando até hoje por memoriais tristes e hipócritas. Se eu fosse um pássaro, eu não queria ser um da época de guerras, eu não sobreviveria ao som estridente de tiros e bombardeios. Teria minha alma de pássaro fraturada, dizem por aí que animais são mais puros e “humanos”, mas eu me lembro do gato sádico, e havia um brilho cruel e inquietante naqueles olhos azuis de felino. Eu poderia ser o seu jantar, se eu fosse uma andorinha.

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Um comentário sobre “Pássaro.

  1. Texto bonito, íntimo, na primeira pessoa, denota nosso espanto ante o inevitável destino, ora trágico e muitas vezes cruel. Vivamos com certa dignidade porque a morte é sempre miserável. A ilusão se faz absolutamente necessária. E transformar a vida em arte é só o que nos resta.

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