As travessuras de Mario Vargas Llosa.

Eu adoro literatura, sou uma devoradora de livros que dentro dos conceitos de uma religião budista posso ter sido um traça no passado. Numa de minhas aventuras pelo mundo fascinante da literatura está o contato com autores da América Latina, e um deles, ao qual me encantei, é o vencedor do Prêmio Nobel, o escritor peruano Mario Vargas Llosa.

Conheci essa joia literária em minhas aventuras pelo mundo dos blogs. Foi lendo uma coisa aqui e ali, que me senti numa força adorável de sair da minha toca de escritora e ir para uma livraria, o que convenhamos, não é lá muito difícil, tendo em vista nosso perfil. Isso é fenomenal, e sabe por quê? Por que mostra que uma leitura em poucas linhas pode nos influenciar a querer algo, isso é uma arte, falam tanto da tal “lábia”, e isso é fato, ela está aí para comprovar.

Cheguei à livraria, dei o título ao vendedor e pronto! Lá estava eu, alegre e saltitante, com meu primeiro contato com a “coisinha à toa”, apelido carinhoso da Menina Má para o protagonista Ricardo Somocurcio, peruano, que trabalha como tradutor da Unesco. Dizem que o livro tem fundos autobiográficos do autor, mas vamos pensar qual autor que não tem palavras impressas do seu eu, aquele tom íntimo, que apesar de estar lá escrito aos olhos dos leitores, só ele realmente sabe dizer qual o limite da realidade daquilo? Costumo dizer que escrever exige apenas uma musa inspiradora, tem gente que têm várias, mas digo que a musa de todo escritor ou escritora, é a Vida. Costumamos usar nossos Amores como “musos” ou “musas”, mas nossos amores fazem parte da vida, logo penso que não somos imorais, tal como Lord Henry de Oscar Wilde dizia em “O retrato de Dorian Gray”:

 “Toda inspiração é Imoral (…)”.

Tão logo, o questionamento se “Travessuras de uma Menina Má” é ou não autobiográfico, não nos traz a questão. Quem sabe um dia, isso venha à tona? Bom, vamos voltar ao enredo do livro… Ricardo Somocurcio conheceu a Menina Má no bairro de Miraflores, na capital do Peru. E começa então a desenvolver a trama, que passa em vários locais do mundo: Peru, Paris, Inglaterra, Japão e por fim, Madri.  Ahhh e por que a personagem chama-se Menina Má?

Ela ganhou esse nome, pois desde que ela instalou-se no mundinho do personagem Ricardo, ela o virou das avessas. A estória do livro, sobretudo,vai além das faces do Amor.  São viagens pelos lugares onde os protagonistas vivem intensamente suas idas e vindas, todas as idealizações políticas-culturais dos anos 60,70 e 80. Temos o Peru na época da ditadura e guerrilhas, Paris e os anos 60, com seus revolucionários planejando as lutas armadas enquanto comem “croissant” nos cafés parisienses, pessoas lendo Hemingway nas mesmas cafeterias e visitando o museu do Louvre e o palácio de Versailles. Depois do universo romântico e idealista da Paris de Hemingway, o leitor passa a viajar no amor livre e lisérgico dos anos setenta. Os personagens que aparecem nessa época são extremamente cativantes, e certamente uma lágrima rolará até dos olhos do mais ogro leitor. Depois de toda a revolução amorosa vivida em Londres, Ricardito, o “bom menino” vai para o Japão, cultura oriental efervescente com o cenário da máfia japonesa, sob uma esfera de medo e muito ciúme. Depois da viagem ao oriente, vamos para a terra granada, dos touros ensanguentados, na intensa capital da Espanha, Madri. Nessa época, temos todo o contexto histórico dos anos 80: os conflitos políticos da Espanha totalitarista de Franco, e os primeiros filmes de Almodóvar.

Lily, a “Menina má”, que já vão conhecer logo nas primeiras páginas, é uma mulher de várias faces. Suas nuances se misturam nos personagens que ela cria, em cada país, todos eles com nomes diferentes. Neste romance, vivemos as múltiplas facetas de Lily, sentimos raiva, comoção e Amor pela personagem. Ricardo Somocurcio viveu anos apaixonado por Lily, mesmo com suas constantes idas e vindas e muito jogo sujo por parte de Lily, malvada, sedutora e misteriosa. É um livro que me fez pensar nos grandes encontros e desencontros da vida, e que o Amor pode ultrapassar barreiras, mesmo ele sendo tão “não-convencional”, fugindo de todo padrão. Sobretudo, vimos ali em tons dignos de Woody Allen e Pedro Almodóvar, que creio eu diretores perfeitos para um filme inspirado nesta obra de Llosa. Um livro intenso, que nos faz sentir e vivenciar em trezentas e duas páginas, todo o furor e intensidade de três décadas, e sim, nos faz ver a verdadeira face do Amor, pintadas em linhas sobre as personalidades múltiplas de Lily e toda a paciência, compreensão e esperança do “coisinha à toa” Ricardo, que como tradutor e intérprete, nutre pela Menina Má e travessa,  um Amor tão intenso digno de um romance. Eis aí o presente de Vargas Llosa para nós, leitores. Mario foi Vencedor do Prêmio Nobel, Prêmio Cervantes (grande prêmio da literatura em língua espanhola) e laureado como Príncipe das Astúrias, ao lado de outros gênios da arte e cultura, tal como Oscar Niemeyer, Woody Allen, Pedro Almodóvar, Paco de Lucía e Bob Dylan.

Mario Vargas Llosa pode ser muito do seu personagem Ricardito, mas temos certeza que ele não é um “coisinha à toa”, mas certamente, um bom menino, que muito enalteceu as letras latino-americanas.

“Uma tarde, sentados no jardim, ao crepúsculo, ela me disse que se algum dia eu pensasse em escrever a nossa história de amor, não a deixasse muito mal, senão o seu fantasma viria me puxar os pés todas as noites.

– E por que pensou isso?

– Porque você sempre quis ser escritor e nunca teve coragem. Agora que vai ficar sozinho, pode aproveitar, assim esquece a saudade. Pelo menos, confesse que lhe dei um bom material para escrever um romance. Não foi, bom menino?”

 

 

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