Lena.

A embriaguez batendo, rodopiando, batendo palmas. O cheiro etílico dela se aproximando devagar, com traços aromáticos de chacota. Lena deitou e rolou no chão, no meio do bar, e o blues melancólico em notas de Eric Clapton e B.B King. Na multidão cheia de rostos e risos de escárnio, rostos pintados, partindo para uma guerra de quadro impressionista. Foi embora pra casa, caminhando bêbada pela rua Augusta. Sabia que sua casa ficava em algum ponto da Avenida Paulista. Talvez ligasse para seu vizinho abrir a porta, caso ela não conseguisse. Acontecia…Várias e várias vezes.

Ligou para Ramires, seu vizinho barbudo tresloucado comunista. Ele abriu a porta e lhe fez companhia. Deu um banho em Lena, banho gelado: “Ahhh Lena!!! Se eu for embora algum dia, quem vai cuidar de você hein cupcake?”. Ela entendia apenas os risos tímidos de vergonha alheia, mas Ramires sempre esteve ali quando precisava, nas horas bêbadas e cuidava da gata persa cinzenta, que vomitava bolas de pelo no apartamento inteiro. Fez-lhe uma bebida quente, e quando ela melhorou, despediu-se dela com um beijo na testa. “Descansa Lena, amanhã venha jantar em casa, terá pizza, aquela que você gosta, e depois vamos jogar mahjong!Ahhh, dei banho na Mary, ela estava precisando, “tava” de “enrosque-enrosque” com o gatão vira-lata do 151. Até sua gata tem um bofe minha linda…E você aí, triste e bêbada ”. Fechou a porta, deixou apenas a luz do abajur acesa, herança de família, brilho antigo que desde criança ilumina sua penumbra, que conta histórias, acompanha os sonos insones em que ela caminha sozinha entre vales e bosques, fugindo do medo que não adormece. Mary ronronava nos seus pés deitava e lambia as patinhas. Queria ela ser como gato, se caísse, cairia sempre de pé, e teria, reza a lenda, seis vidas para desperdiçar. Daria valor apenas na última vida, consertando as besteiras que cometeu nas outras seis.

Quando criança, Lena ajudava a avó a fazer bolo. E o cheiro doce de cobertura de chocolate impregnava a casa, e ela amava aquilo, se envolvia, era uma fúria infantil, brigava com os irmãos pela lambeção do tacho. Hoje ela bebe sua fúria em copos de licor de chocolate com conhaque de procedência duvidosa… Alcoólatra atingida, mas tingida de todas as cores. Enxergava-se como uma caixa cheia delas, mas fechada hermeticamente. Queria alguém sádico o suficiente que se envolve-se em seus fios coloridos, e com sinestesia suficiente para ver notas musicais, um samba no amarelo, tango no preto, salsa no verde. Estava bêbada, nada mais aceitável do que ter ideias de bêbada. Sentiu saudades do bolo da vovó… Começou a passar mal…

O enjoo foi em passos de loucura até o lixo ao lado da escrivaninha. Não foi Lena, foi o enjoo. Lena foi movida por aquilo que sentia, ela não estava mais ali, apenas náusea, enxaqueca e a vontade de não estar. O banheiro estava longe, ela chapada demais para se arriscar, podia bater a cabeça e morrer. E ela pensou, que seria a coisa mais poética ser encontrada morta no próprio vômito, com traumatismo craniano. Seu piso branco de banheiro tingido de sangue com pedaços de morango. Sakê, whisky com energético, conhaque, vodka com soda e batatas fritas. Cheiro etílico, fritura, uma fruta silvestre em pedaços e sangue semi-oxidado. Seria legal, poderia sair naqueles sites sensacionalistas de tragédias, fotos circulando nas redes sociais, povo adora tragédia. Seria mais legal ainda se ao invés de batatas fritas e pedaços aleatórios de morangos regados ao cheiro de pandemônio boêmio, fosse sopa de ervilha apenas. Poderia cair de forma batesse na pia e seu pescoço torcesse de tal forma como a personagem do filme “O exorcista”. Mas eram apenas pensamentos de uma mulher embriagada.

No dia seguinte, arrumou a casa, fez um almoço para os amigos. Tinha bolo de sobremesa, com cobertura de chocolate. Jogaram Mahjong a tarde inteira. No final da noite foram para a casa de Ramires, o Comunista, e pediram pizza, ela não quis comer pizza, disse que estava de regime, pois estava gorda e queria um namorado. Foram todos embora antes da noite chegar, cheios de elogios e chamando a atenção dela para sua percepção errônea sobre o corpo, “você é linda” de um lado, “você não é gorda” do outro. Agradeceu os comentários e tentativas fracassadas e falsas. Fechou a porta, deu um sorriso pra gata, que a esperava na beira da janela.

Foi no armário, tirou cinco pacotinhos de sopa de caneca e preparou. Era sopa de ervilha. Enquanto a água esquentava, tirou todas as roupas, passou seu perfume favorito, penteou os cabelos. Sentou-se no sofá, comendo sopa, tomando wisky no gargalo e assistindo canais adultos.

“I can feel your body
When I’m lying in bed
There’s too much confusion
Going around through my head”
Eric Clapton cantava na sua mente enquanto assistia aquelas baboseiras eróticas. Atiçou-se, fez um amor solitário, depois atirou-se nua, crua e úmida da janela do décimo quinto altar. Não pareceu uma cena do filme o exorcista, o corpo espatifado no chão era uma massa de carne e ossos quebrados, misturados nos cacos escoceses do velho Johnnie. Ao menos não morreu sozinha, velho Johnnie sempre a acompanhava. Mary, sentada na janela, lambia as patinhas…
Woman – Karien Deroo
Anúncios

5 comentários sobre “Lena.

  1. Incrível. Adorei mesmo. Fiz ate algo que não costumo, ler um texto longo no celular. Mas não consegui parar de ler. Amei as referencias, a forma do texto, o ritmo dele. Isso sem falar da história. Coitada da lena, mas ao menos não estava sozinha. O companheiro dela, velho johnnie, me lembrou um dos meus livros favoritos, kafca a beira mar de haruki murakami.
    Parabéns pelo texto. Bjss

    1. Fiquei muito feliz que gostou, e extremamente emocionada quando disse que leu um texto inteiro no celular. Me senti honrada pois eu sei que é um saco ler textos longos no celular. Eu mesmo deixo pra ler em casa, no meu notebook. Teu comentário fez o meu dia ficar lindo!Muito obrigada!

      1. Geralmente eu digo… Não agradeça, Sorria. Mas neste caso eu digo… Não agradeça… foi seu talento que prendeu minha atenção. Eu que agradeço por proporcionar tão boa leitura.

Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s