Conhaque, comprimidos e lapsos de razão.

Marlene preparava a comida favorita de Carlinhos, ovos com bacon e linguiça. Sabia ela que aquilo que enojava seu estômago era melhor que o conhaque e comprimidos de falsa felicidade que substituía sua alimentação. Ela olhava para Carlinhos, que brincava com seu carrinho na mesa, enquanto esperava a comida. Ele era lindo, puxou a beleza do pai. Ela queria segurar a mão dele e não largar nunca mais. Ficou ali, parada, com a frigideira antiaderente nas mãos delicadas, com unhas pintadas de vermelho. Colocou a comida no prato do filho, que a retribuiu com um sorriso banguela de criança. Ficou estarrecida, emocionada, mais do que o normal, se é que existe uma concepção para a sensação “normal” de sentir-se feliz. Segurou a mão de Carlinhos, “Segure a mão de mamãe, e não solte nunca mais”. Carlinhos comia os ovos mexidos, com a outra mão segurava as mãos da mãe, que chorava numa tristeza sem limites para as lágrimas que escorriam de seus olhos verdes. “Vá brincar lá fora querido, e saiba que eu te amo”. Chovia lá fora, e Carlinhos pegou a sua capa de chuva azul, seu barquinho de poliestireno amarelo com listras vermelhas. Pegou seus bonequinhos marinheiros, foi brincar no oceano imaginário feito de poças do quintal. Ela ficou olhando o filho, linda criança tão inocente em seu mundo imaginário, sentada numa cadeira velha que era de seu avô, madeira de lei, almofadas artesanais. Tinha saudades do marido, mas ele enlouqueceu, ele guardava as salsichas cozidas dentro dos bolsos da calça, e não comia. A mãe dele, vienense, forçava-o a comer toda a comida no prato. Ele não queria. Ela abria a goela e forçava dentro. Ele vomitava, e depois apanhava. Cresceu revoltado e aos poucos a loucura tomou conta. Com medo de não chatear a esposa que tanto amava, escondia a comida nos bolsos e em outros locais. Um dia, ela encontrou vários pães mofados embaixo do colchão. “Mamãe dizia que se eu não comesse eu era estúpido feito meu pai, eu não quero ser estúpido”, e ele emagrecia, cada vez mais. Paranoico e anoréxico passa seus dias no hospital psiquiátrico em ala solitária. Não reconhece nem a esposa e o filho. Ela sentia saudades lúcidas do marido, e toda vez que o via através da janela da solitária, algo a dizia que em seus olhos de homem louco, ele a reconhecia. Na última vez que viu seu amado lúcido, ele estava recebendo uma injeção em casa, comendo alimentos via sonda. Tomava sedativos frequentemente e ela se recorda que na última noite ao ser levado pela ambulância, ele segurava as mãos dela e dizia: “Segure minha mão, até que eu durma”. E foi assim, ele adormeceu e agora talvez apenas seus sonhos de homem esquizofrênico mantenham uma lembrança lúcida da imagem dela.

Carlinhos voltou no fim da tarde, a mãe lia um livro na varanda. Ele estava cansado e sujo de lama. Ela lhe deu um banho quente, preparou um lanche. “Mamãe, quero dormir contigo hoje!”. Ela o levou pra cama, deitou-se ao lado dele, junto com o Julinho, seu boneco que era o homem das estrelas. Carlinhos segurou as mãos da mãe, deu-lhe um beijo no rosto, disse que a amava… ”Mamãe, segure a minha mão até que eu durma”. E ela viu ali, uma reconstrução infantil do homem que tanta amava, e ela sabia que Carlinhos, ao acordar, reconheceria seu rosto ao acordá-lo e levar café com bolachas. Parou com o conhaque e psicotrópicos, a sua vontade de viver dormia ao lado.

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