A menina má.

Acordou numa manhã preguiçosa qualquer. Foi na geladeira, pegou um abacate grande, cortou ao meio, tirou a semente, cortou um limão, fez uma pasta verde e mole, espremeu o limão e depois, duas colheres de açúcar na mistura. Estava lá, a mistura verde quase alienígena. Levou ao quarto, comeu na cama enquanto lia o jornal que foi jogado no quintal às cinco horas da manhã.

Depois de corpo e alma alimentados, tomou um banho para expulsar aquele resto de sono que ainda habitava o corpo. De alma então renovada, saiu enfim ao trabalho, de salto alto, “meia fina” e vestido meia estação. Pegou seu livro de MarioVargas Llosa em cima da cabeceira e foi em direção ao ponto de ônibus. Como sempre, esqueceu-se de alguma coisa. Voltou correndo para sua casa buscar o carregador do celular… Correndo de salto alto, cabelo balançando de um lado para outro. Pegou o celular, fechou o portão e escutou o ônibus aproximando-se, correu de novo. O motorista da linha 325 a conhecia, pois habitualmente ela sempre pegava o mesmo ônibus. Ele parou a cem metros depois do ponto de ônibus, e então ela subiu esbaforida, suada, cabelo em desalinho. “Bom dia”, disse o motorista, rindo do desespero do medo de se atrasar e a graça dos cabelos bagunçadas da passageira habitual.

Ela passou pela catraca e sentou-se no primeiro banco desocupado que viu. Abriu o livro “Travessuras de uma menina má”. Começou a ler as primeiras linhas do capítulo em que havia parado. Viajou, ela não estava mais ali, estava fora de si mesma, enquanto isso, as paisagens urbanas passavam pela janela, e o vento entrava pela janela. Em seu mundinho de encontros e desencontros, esqueceu-se de arrumar os cabelos em desalinho, e nem percebeu a linha que se soltava da manga de seu vestido ¾, vestido meia estação. “Moça, moça, chegamos!”. Era o motorista do ônibus gritando de forma simpática e risonha, avisando que havia chegado ao terminal. Ela olhou ao redor, todos os demais passageiros haviam descido. Era o chamado para a vida. Deixou de ser menina má.

Estou lendo este livro. É maravilhoso!
Estou lendo este livro. É maravilhoso!
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2 comentários sobre “A menina má.

    1. Que bom isso né? É uma sensação maravilhosa, eu costumo dizer que quando lemos, nos transportamos para outro lugar, é uma viagem. Permitir-se a isso é ter sensibilidade suficiente para deixar-se emudecido pelo som das palavras. 😀

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