O relógio sem pilhas.

Lucas estava lendo um livro, de maneira gostosa, preguiçosa, corpo todo esparramado no sofá da sala. A cachorra dormia perto dos pés dele, e tirando os roncos dela, ali, naquele local, não havia mais barulho algum, além do barulho da troca de páginas. Páginas virando, cachorro roncando, páginas virando, cachorro roncando…Era uma sinfonia agradável. Ele esfregava os pés na barriguinha preta da cachorra tão pequena, uma bola de pelos preta que roncava, passeou e correu o dia inteiro, e agora estava ali em seu momento de paz, suspirando baixinho com o seu dono fazendo um carinho gostoso com os pés. Lucas ficou dessa forma, perdido nas páginas de um livro, até dar-se conta que precisava dormir, pois amanhã terá que acordar cedo para ir trabalhar. O ônibus da empresa parava em um ônibus perto da sua casa, bastava andar alguns poucos metros.

Verificou quantas páginas precisava ler para encerrar o capítulo, pois tinha uma mania de sempre ler um capítulo até o fim, para que no outro dia não pegue o assunto pela metade, aquela coisa de pegar o bonde andando, pra ele, uma espécie de sensação ruim, para digerir o que foi lido, ele precisa juntar peça por peça, começar um capítulo pela metade, é o mesmo que pegar um jogo de xadrez em andamento. Perde-se a estratégia, aí é necessário recomeçar. Logo, um tempo perdido. Leu até o final do capítulo, fechou o livro, não havia mais o barulho do “virar de páginas”, apenas a cachorra roncando. E sentiu falta, de um barulho: o tic-tac do relógio de parede da sala…

Olhou para o relógio, aquele som que o atormentava não estava mais ali. O som congelou-se nas sete horas da noite. Seu celular marcava duas horas da manhã. Queria ele que as coisas continuassem paradas nas sete horas da noite. Queria ele levar uma vida mais calma, muitas vezes queria enganar o Tempo, congelando-o, como aquele relógio sem pilhas. Ele sabia que tinha de pegar o banco da cozinha, abrir a gaveta, procurar pilhas, subir no banco, pegar o relógio, tirar as pilhas, separar as pilhas velhas para serem jogadas em lixos específicos, colocar as pilhas novas, arrumar os ponteiros, pendurar o relógio na parede novamente, guardar o banco. Ele sabia de tudo isso, mas ficou lá, no sofá, contemplando o Tempo com seu ponteiro congelado. A cachorra deu um suspiro, e assim como a vida, ela lambia seus pés…Vida úmida, movida com pilhas alcalinas.

Era o relógio de meu avô, e quando o ganhei de meu pai ele disse Estou lhe dando o mausoléu de toda a esperança e todo desejo; é extremamente provável que você o use para lograr o reducto absurdum de toda a experiência humana, que será tão pouco adaptado às suas necessidades individuais quanto foi às dele e às do pai dele. Dou-lhe este relógio não para que você se lembre do tempo, mas para que você possa esquecê-lo por um momento de vez em quando e não gaste todo seu fôlego tentando conquistá-lo. Porque jamais se ganha batalha alguma, ele disse. Nenhum batalha sequer é lutada. O campo revela ao homem apenas sua própria loucura e desespero, e a vitória é uma ilusão dos filósofos e néscios.

Willian Faulkner

Tempo-Livres-de-todo-Mal

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3 comentários sobre “O relógio sem pilhas.

  1. Sim… finalmente surgiram com um termo para esses seres terríveis que destroem o orgulho de dez críticas positivas com uma crítica negativa que nem sequer se explica… “Trolls da internet”! Embora isso seja tido como alguém tirador de sarro, na verdade se originou para designar pessoas que saem por aí dizendo coisas horríveis sobre o trabalho/aparência/perfil etc. das pessoas, como um bullying virtual.
    Muitas pessoas se sentem ameaçadas quando se deparam com um trabalho maravilhoso que não é de autoria delas, se sentem diminuídas e incapazes, e gostam de tentar extravasar isso ridicularizando o autor e criticando-o de graça. Sempre existe um motivo por trás da amargura, e, neste caso, em sua maioria é o medo e o vexame por se sentirem ‘superados’. Eu diria que um comentário do tipo “Escritora é aquela que escreve livros” vem de uma pessoa que já teve uma obra publicada e achou que isso seria a chave para o sucesso, porém não teve mais de duas vendas e detesta a ideia de um blog com mais seguidores do que ela já teve, e textos mais saborosos, apaixonados e ousados do que alguma história insegura que ela escreveu ‘especialmente para publicar’… Ou é simplesmente alguém incomodado com o fato de você se intitular uma escritora quando não publicou, porque acha que é ser representada por uma editora que a torna isso…
    Mas enfim… Nada como nascer uma criança que já imaginava demais, para crescer e se descobrir alguém que prefere viver dentro das páginas do que fora delas – não apenas nas de outra pessoa, mas sim em um mundo próprio cada vez mais rico e populado de pessoas que nunca existirão, mas que se tornam tão queridas quanto próprios familiares. Conheço inúmeras pessoas que dizem que ‘gostariam de escrever um livro um dia’, apenas pela graça de ter escrito um. Digo-lhe que é um privilégio muito maior ser apaixonada pelo que faz, fazendo-o de graça até atingir o botão do sucesso, do que alguém que escreveu a trancos e barrancos, de forma forçada e sem interesse, algum romance insípido e sóbrio o suficiente para chegar às grandes impressoras – vide, como já mencionado, crepúsculo, tons de cinza e o diabo à quatro.
    O triste é que o que é mais esclarecido atinge as massas com maior facilidade, pois já está mastigado e não precisa ser compreendido por meio do uso de sinapses.

    Isso torna as coisas mais difíceis, mas o mérito no final também será muito maior, sentir-se escritora para um publico inteligente e artístico =) e eu também vou querer minha cópia autografada e dedicada!

    …No português mais claro do mundo… Fodam-se os Trolls! Você escreve com uma naturalidade genial que ainda vai assustar muita gente pelo caminho!

  2. Estou emocionada com suas palavras!E que lindo poema da Emily!Entrou para os meus favoritos!Sabe, hoje eu estava desabafando no facebook, que recebi um e-mail anônimo de uma criatura que estava escrito assim: “Escritora é aquela que publica livros”. Apenas isso. Sabe, à principio eu cogitei uma ironia como forma de elogio, do tipo, “tu és escritora e deverias publicar um livro”. Mas depois eu pensei, por que uma pessoa teceria um elogio no anonimato? Até então, todos os que me leem chegam diretamente a mim, seja para criticar, elogiar, corrigir algum erro, coisa que eu aceito numa boa. A minha revolta foi essa, a pessoa criticar algo com um argumento tão infeliz. E hoje ao ver teu comentário e o apoio de meus amigos e leitores (inclusive do homem que eu amo… ❤ ), dizendo para eu não desanimar frente a tal argumento besta, eu digo-lhe que é como se o meu dia tivesse nascido de novo. Obrigada por comentar, e seja bem-vinda!Critique, elogie, sinta-se à vontade, e bem vinda ao meu universo!Estou lendo teu blog, e estou gostando do que estou vendo lá!Abraços!

    PS: Obrigada pelo elogio dos olhos! 😀

  3. Uns três textos depois, e já a considero uma artista daquelas que não se vê por aí escrevendo de graça! “Intenso” foi, realmente, o primeiro adjetivo que me veio à cabeça. Tem olhos lindos, à propósito, com todo o devido respeito =) Mais lindos ainda por verem coisas que não estão lá, ou por transformarem as que estão!
    Me lembra um poema muito idolatrado por mim, de Emily Bronte:
    Frequentemente repreendida, porém sempre retornando
    àqueles primordiais sentimentos que nasceram comigo
    e abandonando a atarefada perseguição de riquezas e conhecimento
    por preferir sonhos indolentes de coisas que não são
    […]
    Andarei, porém não nos velhos traçados heroicos
    E não nos caminhos de alta moralidade.
    e não entre as faces meio indistinguíveis,[…]
    Vou caminhar onde minha própria natureza me leve
    (Often rebuked, yet always back returning)

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