O pão no prato.

Letícia escrevia sua monografia numa vontade que a aniquilava. Mais dispersava do que escrevia. Odiava escrever com prazos. Escrevia durante a madrugada, pois era o tempo que ela tinha. Curava o sonho com doses de cafeína. Não tinha mais vida, não tinha mais nada. Perdeu as contas de tanto tempo que não vê mais os amigos, perdeu as contas de quantas latas de cerveja já tomou nesse tempo…Sozinha. O cartão de crédito bem sabe suas idas ao mercado para comprar um fardo de energético. Ela não sabia contar os pigmentos das suas olheiras. Traços escuros embaixo dos olhos. Se houvesse alguma forma de contar, seria mais um método para dispersar sua obrigação. Tirou todos os livros legais da estante, colocou-os numa caixa no porão. Sem dispersões…sem dispersões. Nem o gato estava mais lá, ela poderia dispersar ao olhar pra ele, e dar risada ao lembrar do amigo que quando criança atirou o gato da janela do segundo andar: “Queria saber se ele cairia em pé”, e então ela divagava e ria, pois num restaurante em dia chuvoso os dois divagavam sobre teorias malucas. “Talvez, se você amarrasse um pão com manteiga nas costas do gato, ele não cairia de pé…Porque o pão com manteiga sempre, mas SEMPRE, cai no chão com a manteiga para baixo”. E lá estava ela, dispersando. Queria ficar longe, de coisas legais, aquelas que lhe tirassem o foco, a concentração que tanto precisava. E queria colocar fogo em tudo. Em um mundo de cobranças, o sacrifício que por horas era tão digno e necessário, parece decantar em potes de preguiça. Queria jogar-se nos braços do sono, e em sonhos de uma eternidade, sonhar com um mundo menos besta e mais sensato.

Sua mãe fez um lanche para ela, antes de ir dormir, deitar sozinha com toda a vida de viúva estampada na cara. Preocupava-se com a filha, muitas vezes ela só ficava no café com bolachas. Todos os dias, a mãe preparava-lhe um sanduíche, batia na porta do quarto, colocava o lanche e o copo de leite em cima da mesa, lhe dava um abraço, um beijo e um “Boa noite minha querida, vá dormir cedo”. O leite sempre acabava nos beiços do gato. Cerveja e leite não davam certo.

“Mamãe deveria namorar”, pensou Letícia, fugindo novamente…Mas sabia que sua mãe estava desiludida demais para querer ter outro relacionamento. Chega uma hora, pensou ela, que as ilusões vão embora e sobram-nos apenas momentos de extrema lucidez, que tantas horas são mais venenosas do uma vida de sonhos e crenças que o ser humano pode ter compaixão e ser isento de crueldade. Letícia acreditava na possibilidade de existirem dias melhores, talvez uma grande tragédia mudasse a visão das pessoas, e que talvez fizesse o mundo melhor. Tem gente que só aprende quando apanha na vida, quando perde. Ela acreditava nisso, nas boas ações. O pão que sua mãe preparou, continuou em cima da mesa durante duas horas, ali, descansando no prato. O gato por perto, pois sentia o cheiro do patê de atum. Sua mãe preocupou-se com ela, mas o pão continuava no prato, como se ele não existisse.

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