Memórias de Café com livros: A mulher no balcão.

No meu dia nublado de abril, eu escritora insone não remunerada, analista de sistemas estressada, porém em férias, estava a escrever na mesa de uma cafeteria de livraria. Naquela mesa, com  papéis espalhados, canetas, água com gás e uma xícara de expresso duplo, pensando na minha meta literária do dia, pensamentos misturados em meio a sonhos e também em Amor, aquele Amor que chamamos de Amor Próprio, junto daquele que envenena os apaixonados. Não sou de ferro, queria ser um ser assexuado e desprovido de sentimentos, eu poderia tal como um ciborgue, emular sentimentos. Sentimento fingido as pessoas dão mais valor, aquele sem sinceridade, sem a típica bofetada, cheia de palavras afáveis a todo momento, o sapo que virou príncipe e outras mitificações. Diante de uma pessoa que vê a realidade das coisas, sem precisar ser moldada, o encanto cai, as coisas ficam difíceis, pois sabe-se, sempre queremos alguém a quem possamos moldar ao nosso jeito, é mais fácil de aceitar, engolir e menos perturbador. No meio de uma sociedade como a nossa, aquele que não questiona, concorda com tudo, vai na moda, é muito é mais fácil de se conviver, pois sendo assim, normal, os problemas ficam mais fáceis de serem contornados. Gostamos de coisas afáveis. Verdade dói, mentiras são mais confortáveis.

Comprei o volume um de contos do Hemingway, e um pocket do Charles Bukowski, “Pedaços de um caderno manchado de vinho”. Apaixonei-me por estes dois escritores, intensos, nus, crus, estética brutal. Não gosto de escrita mimimi. Gosto da realidade, aprecio ler e sentir bofetadas no rosto e isso não é sadismo, é apreciar ler aqueles que não vivem em um mundo de fantasias.

Na minha frente, estava sentada uma mulher com uma camisa listrada branca e verde-água. Ela carregava duas bolsas grandes, uma preta e uma marrom. Mulher bonita, deveria ter uns trinta e poucos anos. Era loira, cabelo na altura do pescoço, olhos azuis. Pediu chocolate quente no balcão da cafeteria. Já tomei daquele chocolate quente, aliás, creio eu que já tenha tomado todos os drinks que eles servem lá. Como viciada na arte de elaboração de bebidas com cafeína, passar o dia regado a doses de cafés bem elaborados é um certo luxo ao qual me permito. Café, assim como o vinho, expande meus horizontes.

Foi neste mesmo lugar que eu tive meu primeiro contato com Hemingway, através do livro “O Velho e o Mar”. E desde então esse livro e muitos trechos dele moram em minha memória. Perdi as contas de quantas vezes eu já o li, dentro de uma tarde solitária, e em todas as vezes, eu acho mais formidável, impossível não se encantar cada vez vez mais, e ir colhendo, aqui e ali, impressões que nos deixou passar batido. Eu só tenho a agradecer a quem me apresentou tal obra de arte, tem de ter uma sensibilidade grande, para compreender a beleza do que está escrito aí, e isso não encontramos em qualquer um. Pessoas assim são raras, um diamante quase lapidado, digo quase pois não somos perfeitos, muito pelo contrário, muitas vezes temos mais defeitos do que qualidades propriamente ditas, mas nossas qualidades nos deixa ignorar os defeitos, ou simplesmente aceitá-los. Não sei lidar com o silêncio, já disse aqui, mas aos poucos, eu vou aprendendo. Preciso do silêncio para completar o pedaço que falta em mim. Sempre gostei das pessoas silenciosas, vejo um equilíbrio ao qual não tenho, essas pessoas falam com os olhos, precisam de poucas palavras para se expressarem. Muitas vezes eu não consigo fazer isso sem verbalizar no mínimo umas cem palavras. Saudades daqueles olhos silenciosos, mas tão expressivos, que fazem meus olhos, tão grandes, baixarem desajeitados, pois é, acreditem, eu sou tímida diante daquilo que me desconcerta. Em questões de Amor, eu muitas vezes me protejo por trás de meus muros do ego. É aquele medo de se machucar, mas eu sempre acabo pegando uma marreta, e mostrando o que há por trás do muro, mesmo que na sutileza, eu posso não ver mais aquele que me tirou da toca, eu posso fingir que não estou mais nem aí, mas isso é uma maldição aparente, eu me preocupo, não nego, mas tem horas que deixo meu amor próprio falar mais alto, mas aqui dentro, bate um coração já tão estilhaçado, mas que mantem a beleza e a sinceridade de um vitral.

Em tantos anos de leituras, noite a dentro, dia a fora, como que eu nunca li nada do Hemingway? Creio eu que tudo acontece na hora certa, talvez eu não tinha na época maturidade para entender o que estava escrito ali. Existem certos livros que aparecem nos momentos certos, não estou dizendo que Hemingway é leitura para a partir dos 25 anos, iguais aqueles cremes anti-rugas, mas certas leituras dependem de um nível de amadurecimento mental, de novas ideias, conceitos, perda de preconceitos. Talvez, se eu tivesse lido “O Velho e o Mar” com quinze anos, eu não teria a eloquência necessária para entender ao certo o que está escrito ali. Aliás, eu estou desviando o assunto dessa memória, vamos voltar ao tema, para a mulher no balcão.

Como eu havia escrito, linhas acima, ela estava tomando um chocolate quente, e se eu dizer que era uma mulher de olhos tristes? Uma mulher que em seus olhos carregava uma angústia que me sensibilizou a ponto de interromper meu texto sobre a fonte da juventude, e pegar um outro papel para escrever o que agora, vocês estão lendo. Comecei a escrever em uma folha sulfite cor de laranja. “Ana você é uma invasora”, não, eu não sou. Se me olhassem escrevendo, veriam uma mulher com olhos grandes e perdidos, mas que vê tudo ao redor, sem se deixar ser percebida, por isso não sou uma invasora, eu não encaro, eu apenas observo, na calma, na paz. O ato de encarar é chegar sem pedir permissão e criar uma zona de desconforto. Observar não, você vê, mas finge que não percebe, toma seu café, na boa, na paz, olha para outros lados, concentra-se, folheia, rabisca. É o simples ato de sentir-se vivo. Eu sou uma pessoa que desligada, viajo na maionese, penso na morte da bezerra quase que o tempo todo, mas isso não me impede de estar atenta ao meu redor. Nem sempre fui assim é uma questão de prática.  Comecei a escrever memórias há pouco tempo, e não fiz isso com mais frequência para não ser interpretada como um ser invasor e/ou imoral. Gosto de escrever sobre a vida, sobre momentos, assim, como estes, perdidos nas observações da vida transbordando incógnitas numa cafeteria, cuja mesa ocupada por uma mulher de tristes olhos azuis, que de repente tirou um bloco de anotações da bolsa, que mexia o chocolate quente com uma colher bonita, mas o olhar dela, distante, aflito. Posso enganar-me com as minhas observações, minhas convicções podem estar erradas, pois estamos fadados a ter ou sermos vítimas de falsos julgamentos, mas veja bem, eu não cheguei nela e perguntei por que ela tinha os olhos tão tristes, guardei minha opinião pra mim, e agora compartilho com vocês,  que apesar dos olhos tristes, a beleza daquela mulher ao tomar goles curtos daquela bebida quente, não poderia passar por despercebido. Eu não perco os instantes, e quando eu perco, eu jogo uma maldição em mim mesma.  Não perco a beleza de meus breves minutos, se a tristeza ou a beleza me atrai, eu me entrego a ela. A beleza dos olhos nus anda comigo, e por mais que essa minha característica possa jogar contra eu mesma, eu não sou uma pessoa imoral, pois meus instantes não são o meu eco, o tempo todo. Permito-me amar aquilo que me desconcerta, e escrever meus sentimentos perante a sinfonia de vida ao meu redor, se você fez ou faz parte da minha vida, e de alguma forma me encantou, serás imortalizado aqui, em linhas insones, e tais como os olhos azuis daquela mulher, em meio a goles de quem sabe um conforto, eu canto aqui minha composição perante o encanto que teus olhos me trouxeram, e eu sinto em meu peito a saudade me apertando. Escrevo porque sinto saudades…Saudades de teus olhos azuis, aqui, sentada neste mesmo local que eu roubei a bolacha que acompanhava teu café.

“três dias depois partimos, a menina má e eu, de trem, para a sua casinha nos arredores de sète, no alto de uma colina, de onde se via o formoso mar cantado por valery em “o cemitério marinho”. era uma casinha pequena, austera, bonita, bem-ajeitada, com um jardinzinho. durante duas semanas ela passou tão bem, parecia tão contente que, contrariando toda a lógica, pensei que podia se recuperar. uma tarde, sentados no jardim, ao crepúsculo, ela me disse que se algum dia eu pensasse em escrever a nossa história de amor, não a deixasse muito mal, senão o seu fantasma viria me puxar os pés todas as noites.
– e por que pensou isso?
– porque você sempre quis ser escritor e nunca teve coragem. agora que vai ficar sozinho, pode aproveitar, assim esquece a saudade. pelo menos, confesse que lhe dei um bom material para escrever um romance. não foi, bom menino?”  Trecho de travessuras de uma menina má, de Vargas Llosa.
 
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