Entranhas

Na cafeteria de uma livraria estava eu sentada e perdida entre leituras e manuscritos. Entre páginas de Hemingway e Virgínia Woolf, e um lindo brinde que é o “Diário de Mrs Dalloway”, com páginas coloridas, trechos do livro e espaço para escrever. Amei aquilo, achei algo único, uma forma de ligar-me à personagem criada por Virgínia,escritora inglesa, mulher forte, intensa, com entranhas expostas, porém, que se enfraqueceu. Perdeu toda a esperança de viver. Lotou de pedras os bolsos do vestido e se afogou no rio. Isso me lembra um pouco a frase de Margareth Atwood:

 

É preciso ter uma quantidade considerável de coragem para ser escritora, uma coragem quase física, do tipo que se precisa para atravessar um rio sobre troncos flutuando. (…)

 

Virgínia era corajosa, mulher à frente de seu tempo, só que ela levou muito à sério a história de atravessar o rio. Não havia nenhum tronco flutuando, para que olhasse e pudesse mudar de ideia, ver que a vida, como um rio, tem águas profundas, e por isso temos que nos agarrar em troncos flutuantes para não nos afogarmos..

Minhas entranhas também estão do lado de fora, igual as de Virginia. Toda escritora possui órgãos expostos, coragem de sobra. Dão a cara para bater, ao mesmo tempo que entregam a mesma face para ser beijada. Não temos medo de bofetadas, de sublimar nossos amores, imortalizá-los em linhas talvez jamais lidas. Não nos preocupamos com a falta de atenção que muitas vezes nos é dada. Não esperamos com afinco e convicção que nos leiam e compreendam cada palavra escrita. Não esperamos que apenas nos amem, esperamos também o ódio, a inveja e o ciúme.

Muitas vezes eu queria pegar minhas entranhas, e colocá-las para dentro, sujar minhas mãos de sangue, sangue meu…Queria empurrar minhas tripas, estômago, fígado, rins, pulmões, empurrar tudo pra dentro e costurar meu ventre com a mesma linha que as Parcas da mitologia grega costuram nossas malhas do destino. Algo que não possa ser desfeito.

Queria eu que meu Amor imortalizado nessas linhas tão insones, devorasse minhas entranhas. Que me amasse, mas pra isso ele teria de ser um Hanibbal Lecter. Hannibal gostava de entranhas, fritava cérebros em frigideiras antiaderentes. Meu Amor é um homem que enxergou minhas entranhas, com os olhos desacostumados, mas como eu já escrevi aqui e em outros lugares, não se pode ter tudo nesta vida, vamos seguindo nossas vidas amando os ponteiros de um velho relógio. Eu faço Amor com o Tempo Futuro, mas vejo-me entrelaçando as pernas em passados remotos, porque as doces lembranças de uma noite de vento frio, faz-me querer que o tempo parasse ali.

Eu brindo minhas emoções em goles de extrema lucidez, o vinho que eu bebo transborda, passa pelas minhas entranhas, e cai direto ao chão, escorrendo como um rio, misturado ao meu sangue. Eu queria ter um cão, para ele lamber todo o meu vinho derramado em meio ao sangue. Depois ele sentaria ao meu lado, olharia em meus olhos tão perdidos no horizonte, e lamberia meu rosto, como uma tentativa de me dizer que a Vida, apesar de seus tropeços e saudades, existirá alguém neste mundo que lamberá minhas emoções que escorrem pelo corpo, que vazam pela minha alma tão mal compreendida, mesmo que seja um cão, e não uma pessoa. E a saudade dos olhos azuis desacostumados, que me enxergaram sem julgar minha emoções, talvez esteja me olhando ao longe, mas eu nunca sei, talvez nunca saberei. A vida é cheio de seus mistérios, e isso nunca acaba, nunca acaba!Eu daria todas as minhas entranhas fritas em manteiga, alho e cebola, por um beijo em teus ombros, um carinho e um afago. Mas a única coisa que eu tenho, são o ser ir e vir dentro de meus sonhos, um sorriso e um olhar, e você dormindo serenamente. Por isso que eu escrevo, embalada em uma taça de vinho Cabernet Suavignon.

O mundo inteiro é uma obra de arte. Hamler ou um quarteto de Beethoven é a verdade sobre esta vasta massa que chamamos "o mundo". Mas não existe nenhum Shakespeare, não existe nenhum Beethoven; certamente e enfaticamente não existe nenhum Deus; nós somos as palavras; nós somos a música, nós somos a própria coisa. Virgínia Woolf
O mundo inteiro é uma obra de arte. Hamlet ou um quarteto de Beethoven é a verdade sobre esta vasta massa que chamamos “o mundo”. Mas não existe nenhum Shakespeare, não existe nenhum Beethoven; certamente e enfaticamente não existe nenhum Deus; nós somos as palavras; nós somos a música, nós somos a própria coisa.
Virgínia Woolf
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