Trilogia do Vento – Vaidade, Cólera e Desejo – Parte 1: A Vaidade

Vaidade de vaidades! Tudo é vaidade.
Eclesiastes 1:2

Georgia penteava os cabelos com uma escova de cerdas macias. Sentada na cama, ao acordar, a primeira coisa que ela fazia depois de colocar os dois pés no chão, era dirigir-se até a penteadeira e escovar os cabelos. Era um carinho, uma espécie de ritual, um carinho diário de todas as manhãs, enquanto seus olhos se mantinham pequenos e inchados de uma noite de sono. Vários fios de cabelo ficavam presos na escova, e ela tinha medo que o número de fios de cabelo perdidos ultrapassem os cem fios diários. Leu numa revista de beleza, que toda mulher perde em cerca, 100 fios de cabelo todos os dias, sendo eles repostos por novos fios. Ela não contava os fios perdidos, tinha medo de enlouquecer.

Sua tia Berenice tinha câncer, e os seus cabelos antes tão bonitos, não existiam mais. Eram pretos, ondulados, e volumosos, Os cabelos de Tia Berenice ganhavam vida conforme o vento os balançava. Tia Berenice era o sonho e desejo de muitos homens, e continua sendo, mesmo ela não tendo mais a esperança de que a Beleza e o vigor de sua juventude possam voltar como que um milagre bíblico ela sentia-se como um Sansão de saias. O câncer chegou e arrancou toda a sua força. Sua doença era como uma metáfora bíblica, ela era agnóstica, e não acreditava em milagres. Já passou-se o tempo em que seus cabelos eram afagados pelas mãos dos homens que tanto amou na vida.

Tia Berenice usava um lenço colorido na cabeça, e eles sempre combinavam com seus olhos azuis. Apesar do rosto envelhecido e cheio de rugas, marcas de experiência e sabedoria de vida, Tia Berenice nunca perdeu a beleza que fazia o trânsito parar na glória de sua juventude. Ela gostava de ler, e ela era teimosa feito uma mula, recusava em usar óculos, recusava qualquer forma que provasse à sua consciência que o tempo chegou pra ela. Ela comprava livros num velho sebo cujo dono era seu namorado, e eles transavam no chão ao lado de prateleiras cheias de livros, alguns cheirando a mofo e com traças famintas. Hebert, o dono do sebo, adorava os cabelos negros e ondulados de Berenice, e quando Georgia passava em frente à loja, uma vez por semana ele lhe entregava um livro para ela levar à tia. Hebert sabia todos os livros que Tia Berenice já havia lido. Ele era apaixonado por ela, mas Berenice sempre foi uma alma livre, consistente no espírito idealista e livre da década de setenta. Tia Berenice envelheceu, perdeu os cabelos, mas nunca deixou de devanear sentada em sua poltrona velha da sala. Seus olhos vagavam longe nas páginas de um livro. Seu corpo era coberto pelas suas antigas vestimentas hippies, e ela mesmo doente, continuava fumando um cigarro atrás do outro. Cigarros mentolados, que ela acreditava que fazia-lhe menos mal que cigarros “convencionais”. O seu médico proibiu os cigarros, mas sua alma era orgulhosa demais para abandonar aquilo que ela gostava. Já havia perdido os cabelos, e tal como Sansão, sua Força foi embora, só que ralo abaixo… Desde então, tornara-se uma pessoa amargurada. As águas de suas emoções não passam mais pelo seu coração, já adoecido com três pontes de safena. Seu coração estava entupido pelos fios de cabelo que caiam aos montes no ralo do box do chuveiro. Georgia nunca esquecia a cena em que sua Tia Berenice gritava e chorava desesperada, nua, com metade de um seio extirpado  e com os fios de cabelos que lhe restaram, todos ao chão, sendo varridos pela água morna do chuveiro. Desde aquele outono, Berenice quebrou-se em centenas de cacos. Georgia tentava o tempo todo recolher os cacos e tentar trazer de volta o vitral da beleza e força de viver de sua tia, mas por mais que juntasse os cacos, o vitral nunca se completaria. Tia Berenice era incompleta.

Um dia, numa manhã de outono, três anos após o acontecimento trágico que ocorreu à sua Tia Berenice, embaixo de águas mornas, Tia Berenice apareceu-lhe ao pé da cama, sem o lenço cobrindo a cabeça. Ela tinha um sorriso no rosto, algo que Georgia não via há tempos, mas o velho e aromático cigarro mentolado descansava no canto dos lábios.

Bom dia Georgia…,

Tia Berenice era uma mulher de poucas palavras. Quando ela, nas raras vezes conversava, acontecimento em festas de família em que ela bebia escondida, Tia Berenice sempre falava do saudosismo da década de setenta, onde seus cabelos eram longos, pretos, brilhantes e ondulados. E o quão bonitos e selvagens ficavam quando o vento batia neles. Ela foi até a penteadeira de Georgia, e uma voz doce com cheiro de cigarro mentolado invadiu o quarto:

Este móvel era onde eu e sua mãe escovávamos os cabelos todas as manhãs. Eu brigava com tua mãe, pois neste espelho, como pode ver, há espaço para apenas uma imagem. Eu sempre fui difícil e quase invencível, e não nego, egoísta. Logo, sua mãe não perdia o tempo dela discutindo comigo.

Ela riu, Georgia viu seus dentes amarelados pela nicotina do tabaco de todos os dias. Fazia tempo que não via sua Tia Berenice soltar uma gargalhada tão gostosa. Tia Berenice puxou a cadeira em frente à penteadeira, num gesto batendo as mãos no assento da cadeira, chamou Georgia para sentar,

Sente-se aqui querida, vou-lhe contar uma história

Georgia saiu da cama, com os cabelos longos e negros, desgrenhados, como se ela tivesse saído de uma tempestade de vento, sentou-se na cadeira e sua Tia Berenice pegou sua escova de cerdas macias e um spray de colônia perfumada para cabelos.

Quando eu era jovem como tu, meus cabelos eram longos e bonitos quanto os teus

Soltou uma fumaça mentolada no ar, e penteava suavemente os cabelos de Georgia, num carinho saudosista, alegre, porém com um “q” de tristeza que talvez somente ela poderia compreender.

Eu era muito parecida contigo. Os homens me desejavam como uma tempestade que deseja fazer amor com o vento. Já fiz muitas coisas nessa vida, muitas coisas erradas, inclusive. Nos dias de chuva, eu trançava meu cabelo, em dias de praia, eu os deixava soltos, enquanto eu caminhava pela areia próxima onde as ondas quebravam, Quando eu me abaixava para colher conchas, a água das marolas molhavam as pontas dos meus cabelos. Você já amou alguém Georgia? Já sentiu o afago das mãos de um homem, por entre os cabelos?Não há nada mais divino, minha querida, que as mãos de um homem no meio de nossos cabelos, enquanto nos beija na boca. Mãos que percorrem gostosamente perto daqueles fiozinhos tímidos e finos que terminam na nuca, dedos que afastam nosso cabelo para perto do lóbulo da orelha. Sinto falta de meus cabelos minha querida, e quando eu lhe vejo, na flor de sua juventude, eu permito-me dar um sorriso por dentro…Sinto muita falta…Muita falta…

Os cabelos de Georgia estavam impecavelmente escovados, e com cheiro de água de colônia.

Agora Georgia, minha querida, coloque isto, sua beleza ficará indiscutível e terá todos os olhares dirigidos à você

Tia Berenice entregou-lhe um pacote, com um vestido azul, da mesma cor de seus olhos. Georgia e Tia Berenice tinham os mesmos olhos azuis, era herança de família. Era um vestido de viscose indiana, e aquilo foi a coisa mais bonita que cobriu o corpo de Georgia até então. Georgia pegou os livros da faculdade, tirou o celular do carregador, e desceu as escadas. Tia Berenice esperava na varanda, fumando como sempre, seus cigarros mentolados Lucky Strike.

Está linda querida!

Tia Berenice chorava, abraçou Georgia e lhe deu um beijo demorado na testa.

Vá com Deus minha querida…

Georgia foi para a faculdade, e percebeu que atraiu olhos que nunca haviam lhe dado atenção. Parecia que naquele momento a sua vida tinha tomado um outro sentido, era como se o vento que batia em seu rosto, lhe trouxesse algo que nunca vivenciou.

Horas mais tarde, ao chegar em casa, seus pais estavam na sala, cabisbaixos. Na sala, um cinzeiro lotado, com cheiro de menta. A poltrona onde sua Tia Berenice passava seus instantes lendo ou dormindo, estava vazia. Tia Berenice morreu naquela manhã, próximo do almoço, naquele sofá, segurando uma fotografia de quando era jovem, com cabelos compridos. Na fotografia, Tia Berenice vestia o mesmo vestido de viscose azul indiana que acariciava o corpo de Georgia.

O enterro foi no dia seguinte, pela manhã. Georgia disse à mãe que demoraria alguns minutos, que pegaria depois um táxi até o velório. Foi ao quarto que era de sua Tia Berenice e pegou um maço de seus cigarros mentolados. Acendeu um, passou mal na ´primeira tentativa frustrada de tragar. Em frente à penteadeira,escovou os cabelos, borrifou colônia perfumada, pegou uma tesoura, e cortou os cabelos rentes à nuca. Seus cabelos estavam na altura da cintura, e agora eles não existiam mais. Chegou no enterro, com os cabelos curtos e desalinhados. Carregava consigo uma caixa, e nela continha as madeixas negras que sua Tia Berenice tanto amava. No caixão, vestida com o vestido de viscose indiana da mesma cor de seus olhos já sem vida, Tia Berenice parecia sorrir.

espelho+quebrado[1]

 

 

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