O olhar de Beatriz

Era verão e as crianças saiam nas ruas com suas bexigas cheias de água. Numa rua sem saída perto de casa, as crianças andavam em paz com seus patins, bicicletas e carrinhos de rolimã. Havia torneios de queimada, e Beatriz sempre era campeã invicta. Seu reflexo era tão bom quanto o de uma mosca varejeira descansando na parede da cozinha.

Beatriz tinha uma bicicleta amarela enferrujada. Deslizava com ela nas ruas com pequenos buracos. Ela adorava a vida infantil do subúrbio. Encontrava ali uma infância que imaginava que de uma certa forma, quando adulta, seria uma infância memorável. Quando fosse adulta, Beatriz queria ser pediatra. Sua mãe contou-lhe que o médico que cuida de crianças doentes chama-se pediatra. Beatriz queria salvar todas as crianças da rua, todas as crianças da cidade, todas as crianças do mundo que se arrebentavam com seus carrinhos de rolimã nas ladeiras. Braços, pernas, narizes quebrados. Um dia contou para a mãe que queria consertar ossos quebrados. Então sua mãe disse que o médico que consertava ossos quebrados era o ortopedista. Beatriz ficou pensativa por alguns minutos, enquanto comia seu mingau de aveia, e na audácia de seus oito anos de idades, disse à mãe que não queria ser apenas pediatra, queria ser ortopediatra. Sua mãe riu, e sentiu-se feliz com o raciocínio e lógica da filha, por mais que seja tão prematuro. “Por quê Beatriz? Porque mudou de ideia meu bem?”, enquanto lhe estendia o copo de ovomaltine gelado com gemada, receita antiga de família e que Beatriz adorava. A menina, de olhos grandes e indagadores disse que mudou de ideia porque as crianças ao redor dela estavam constantemente se quebrando. Com um bigode de leite no canto dos lábios, Beatriz disse: “Karina quebrou uma perna ontem andando de patins na rua de cima, Guto quebrou o nariz quando recebeu uma bolada do Luizinho bem no meio da cara. E a Clara, Clara está sempre quebrada, ela é estranha mamãe…”Por que Clarinha é estranha querida, ela parece ser tão legal!, Beatriz olhou nos olhos da mãe com uma expressão de surpresa, como se a mãe fosse ingênua o bastante perto dela. “Porque Clarinha está sempre triste, como se ela estivesse quebrada, por dentro, e eu queria poder consertá-la”. O silêncio tomou conta da cozinha, a mãe de Beatriz não lhe fez mais perguntas. Enquanto lavava o copo sujo deixado pela filha, percebeu que o olhar nu de uma criança é tudo aquilo que muitos adultos perderam com o passar dos anos.

"Eu era uma criança, esse monstro que os adultos fabricam com as suas mágoas." Jean-Paul Sartre
“Eu era uma criança, esse monstro que os adultos fabricam com as suas mágoas.”
Jean-Paul Sartre
Anúncios

Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s