Sereníssima.

Onde o Tempo perdeu-se em instantes não glorificados, já sobressai um canto triste de seus lábios emudecidos pelo frio e o silêncio das palavras. Num acesso de contemplação esperou o Tempo sábio sussurrar canções de razão distantes de emoções. Queria uma vida mais racional, e não apenas um calor irracional no meio das pernas cada vez que visse seus olhos em fotografias, pixels digitais que a envenenam a alma com sentimentos de Amor que talvez nem seja correspondido. Queria talhar uma imagem numa madeira de lei, cansar-me, deixar-me suar por suas emoções esculpidas em pedaços incólumes da natureza. Pedirei perdão por ser tão ingênua nos braços daquele que me fez calar. Pediria perdão, ajoelharia aos pés de meu rei soberano, tal como uma flor se curva perante ao sol. Na fúria do Amor não há espaço para falta de poesia, meus sentimentos cantam estrofes de Petrarca, instantes talvez mal traduzidos na língua dos incautos, aqueles que não foram atingidos pela flecha certeira e destruidora do mito do cupido.

E dizem por aí que o mundo é dos Tolos, aquele que incessantemente divertir o rei, com suas piadas de escárnio, mal sabem os espectadores que o Tolo é sempre o último que ri, e o seu riso é permeado por uma lágrima triste de fracasso. Poderia ser ele um mercador de flores nas ruas de Veneza, ou vender tulipas nos canais da Holanda. Poderia cantar uma canção em um velho alaúde, herança de uma família com caminhos já tracejados pela arte, mas a Arte do Tolo é fazer rir, contanto desgraças, a velha política do pão e circo. O Tolo diverte, chora, mas um dia ele se aposenta, mas ele continua esperando,ele espera, os tolos amam, e aos olhos alheios ele é apenas aquele que faz o soberano rir.

Contra o céu de amanhã, vamos todos padecer de cansaço, eu deito-me sozinha em um gramado macio, vendo as nuvens, e como uma criança em corpo de mulher, posso dar a cada uma delas uma forma de algodão doce, e eu consigo sentir em meus lábios a doçura destas nuvens de figuras abstratas, um beijo sincero de olhos bem abertos abaixo desse céu, um céu de manhã, você está sorrindo com teus olhos. Esse teu sorriso abstrato, aberto na graça das horas, eu amo os ponteiros do relógio do teu pulso, e a forma como os traços de seu rosto ficam melhores com o tempo.

Eu lhe adoro, vejo-me como uma garotinha fugindo para meu esconderijo de emoções, dou-lhe as mãos, venha e fuja comigo, no meio de melancolia úmida, numa meia luz, vamos brincar de sermos adultos, no meio daquilo que chamamos de Amor, ano após ano, aquilo que chamamos de Beleza existirá em um abraço, no nosso sono, no cansaço. Não vou ficar abstraindo sentimentos, sou tão somente feita de emoções que me movem, que me enviam glórias. Num futuro distante olharei minhas mãos enrugadas, meus olhos caídos…Talvez dias vazios, caminhando sem rumo. Um velho cão dormindo aos pés de minha cadeira.

Lembranças que passam na velocidade de um sentimento aflito que nos engole a alma. O que podemos sentir, em nosso julgamento, ora senil, ora débil, somos pobres tolos sem rumo?Quem somos nós, meu doce Amor, tão pequenos, para julgarmos aqueles que se deixam encharcar de orgulho? Vamos beber, esperar no calor de um fogo, enquanto a chuva cai lá fora, serena, molhando carros, pessoas, cães abandonados…Feche os olhos meu lindo e distante Amor. No silêncio da sua alma, as nuvens negras deste céu nunca atingirão o teu chão. O relâmpago nos trará o caos do estrondo de um trovão, fecharemos os olhos e contaremos os segundos, até o barulho do trovão me assustar, e você me abraçar de corpo inteiro.

Seremos crianças serenas, acordadas com medo do escuro. Minha doce criança em corpo de homem feito, quando você fecha sua alma, é como se tivesse arrancado um pedaço de minh’alma tola. Em meus sonhos, você cai aturdido em meus braços, e dá uma gostosa gargalhada. Eu cuidei bem de meu Amor esta noite, e quando eu olho as estrelas, queria lhe contar uma parábola astronômica, enquanto você se aconchega em meus braços, os vestígios de saudade deixariam de queimar dentro do meu peito, e se você me olhar por dentro, seus olhos de incógnita me tornariam uma mulher plena, serena. Eu te amo, minha doce criança mal criada. Eu o amo enquanto ouço os sinos da velha igreja tocarem uma canção triste ao final do entardecer. Eu queria dizer-lhe, “Está tarde querido, vamos descansar”, eu lhe daria um beijo doce de despedida, te beijaria com lábios quentes de conhaque para que não sinta frio nesta noite suave de outono. Não olhe pra trás, eu ainda sinto teus lábios doces no meu rosto, porém agora estão frios. Beleza insólita, aperte-me em seus braços, não se vá pelos confins de um outono indeciso, não me deixe partir, eu, mulher teimosa e distraída, minha doce criança, eu estou andando na contramão, seguindo minha rota de olhos bem fechados. Segure minhas mãos,meus dedos magros…Estou andando sozinha numa velha praça, e quando ver-me, sentada num gramado, com meus tão grandes olhos perdidos no sabiá que colhe um pedaço de grama no bico, perdida nas folhas que estão caídas já mortas ao chão…Apenas lembre-se que eu posso sentir o Tempo escorrendo por entre meus dedos, como areia fina das praias descritas em um livro de Hemingway. Doce criança, seja sempre suave e presente em minha memória. Doce criança dos olhos azuis…Eu te adoro. Lembre-se…Sereníssima beleza de olhos desacostumados.

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