Alice.

Cale-se, disse Alice pra si mesma, diante do rosto maquiado de ressaca no espelho. Com as pernas cansadas, corpo dolorido, ainda tinha de tirar os traços de purpurina do corpo, o cheiro de homens bêbados e aquele cheiro de cigarro de quinta categoria. Cansada de rebolar no colo de estranhos, esperando quem sabe um pau endurecido e 200 reais num programa de uma hora, programa que rezava para não ter beijos na boca. Mas precisava do dinheiro insistente colocado por entre os seios ou na dobra da calcinha. Estava cansada de mostrar-se de peito aberto, de dizer à mãe que trabalhava num hospital no outro lado da cidade. Sua mãe, já caducando na flor da idade, só queria saber da sua criação quase doentia de gatos. Dias atrás, descobriu que o mal cheiro da casa vinha de um gato morto que sua mãe velava numa caixa de sapatos embaixo da cama. Mas não brigava com ela, ela encontrava a felicidade na flor da idade, sob forma de gatos abandonados na rua. Ela era feliz, daquele jeito, comendo apenas suas bolachas de maisena com leite quente, e eventualmente uma canja. Às vezes, ela dá uma gargalhada, assim, do nada, e conta sempre a mesma velha piada, aquela que seu falecido marido contou no primeiro encontro. Depois da risada, um silêncio, uma lágrima tímida nos olhos, e um afago de desespero no gato que estiver em seu colo. Ele talvez, o gato, nem tenha nome, ou se tem, ela não se lembra mais.

Alice afogava suas mágoas no conhaque com limão, e entre um cliente e outro cheirava uma carreira de cocaína. Tudo para se tornar mais suportável, talvez sua dança erótica lhe traga sentido, e não apenas dor ao esfregar suas partes num poste de pole dance. Arreganhar as pernas para estranhos, que a tratam como um animal no cio. No meio de gemidos magistralmente fingidos, ela tentava acreditar que ao menos fazia alguém feliz, mesmo que seja um homem com esposa e filhos. A hipocrisia também faz sorrir. Talvez o homem que lhe fez sexo oral, beije a boca da esposa e ela nem perceba que estava antes no meio das pernas de outra. Ela já transou com mulheres, uma tem sabor e cheiro diferente da outra, impossível saber se o bafo e sabor de um beijo seja de um beijo entre as pernas de uma prostituta de um bordel de bairro decadente.

Um dia, se apaixonou por um cliente. Ele a tratava como uma rainha. Dançar nua no colo dele em meio de olhos de desejo de centenas de homens, era algo que não a incomodava. Ela imaginava que em breves instantes, questão de minutos para que ele não se segure mais, ele lhe estenderia a mão e a levaria para o melhor quarto privativo, aquele onde os lençóis eram trocados. Para se ter o luxo de transar em lençóis limpos, pagava-se 100 reais a mais. Muitas vezes demoravam a transar, ele só queria conversar. Mas não resistia, ligava dali e se encontravam em um hotel qualquer, apenas pra transar. Sabia ela que aquilo era apenas uma conveniência para ele, uma forma dela realizar os desejos que ele tinha com a mulher, segundo ele, frígida, e levada pelas morais e bons costumes da igreja. Ele queria que um dia ela o visse transar com a esposa, iria entender o quanto ele sofre, pois ama uma mulher que não permite ser tocada. Nas raras noites que transam, ele e sua esposa ficam em um entediante papai e mamãe. Ele contou-lhe, que um dia tentou pegá-la de quatro, e ela o amaldiçoou, dizendo que não era uma cadela no cio. Pensou em muitas vezes largar dela. Um dia foram a uma festa de casamento. Ela encheu a cara e ficou enebriada e tarada, e ele conseguiu que ela fizesse os seus desejos, mas depois, no dia seguinte, ela não se lembrava de nada. Nunca conseguia deixar em sua memória o orgasmo que ela não tinha em sexo sóbrio. “Ela só sente prazer quando está embriagada…É como se ela derrubasse sua máscara de dona de casa, dama na sociedade”, dizia ele muitas vezes com olhos marejados. Nunca contou à esposa que se encontrava com uma prostituta, amava-a tanto que não queria perdê-la e ele não se achava hipócrita por isso.

Independente de alguns cheirarem a peixe, cigarros, charutos e cachaça, cada cliente que se aventurava por entre as pernas dela, tinha uma história para contar. Ela não pensa em ser uma prostituta clichê, aquelas que escrevem livros sobre a rotina. Sexo vende, a história pode ser uma porcaria, tal como “Cinquenta Tons de cinza”. Ela não queria mais viver de sexo. Tirando seu cliente que ela ama, aquele que sofre na falta de mãos e boca da esposa frígida, não consegue sentir orgasmos reais, é como se o sexo fosse banal, pura questão de rotina. Queria apaixonar-se por um homem, um cliente frustrado que se apaixonasse por ela e que a tirasse daquela vida. Mas a vida não é um conto de fadas, ela era uma gata borralheira, e a única coisa que era limpava era sua cara suja de sêmen após um programa.

Natalie Portman em "Closer, perto demais". Qunado penso em algum conto sobre prostitutas, penso nela como personagem. Adoro esse filme. É um tapa na cara com luvas de pelica.
Natalie Portman em “Closer, perto demais”. Qunado penso em algum conto sobre prostitutas, penso nela como personagem. Adoro esse filme. É um tapa na cara com luvas de pelica.
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