Dois filhos, um banheiro e abacate com especiarias.

Ela chegou na pressa do retorno à morada. Depois de um dia no trabalho, pegou os filhos no colégio. Ela queria descansar, mas as crianças gritavam no carro que queriam biscoitos. Talvez ela desencavasse alguma receita da sua avó, daqueles biscoitos amanteigados. Sua vida sem tempo não permitia ela, mãe solteira, ter a dignidade e o gosto de cozinhar todos os dias para os filhos. Ela era uma mulher moderna, independente, 33 anos e 2 filhos. Amou um homem em um flerte rápido. Ela se apaixonou, ele não, na verdade, ela não sabe, até hoje. O pai das crianças vêm pegá-las todo final de semana. Ela acredita no Amor dele pelos filhos. Pode não amá-la, apesar de todo o respeito e por nunca ter deixado ela na mão, mesmo ela recusando a pensão, ele fez questão de contribuir com os filhos, gerados num momento de descontrole. A vida, é feita de erros e acertos. Ela não acha que errou, ela amou aquele homem desde o primeiro instante que os olhos dela encontraram os dele. Quando soube que estava grávida, de gêmeos, bateu um desespero. Omitiu por três meses, mas chega um tempo que o corpo da mulher muda, e não há mais nada a esconder. Um dia o chamou, depois de várias tentativas fracassadas de dizer o quanto ela gostava dele, naquele momento da fatídica conversa via SMS “Precisamos conversar, sério…”, enviada depois de cerca de dezenas mensagens carinhosas sem resposta alguma, ela finalmente se tocou que era uma trouxa apaixonada. Tola, tola, tola…Pensava ela. Ela foi apenas um alarme de incêndio. Um homem tão bonito, poderia ter quantas mulheres quisesse, num estralar de dedos. Ela se lembra, o quanto as mulheres entortavam o pescoço quando ele passava, seu magnetismo era e ainda é, surreal. Dentro de uma farmácia, ele comprava colírio e era o colírio. As mulheres do balcão o devoravam com os olhos, e ela dava risada assistindo a cena de dentro do carro. Nunca contou isso a ele. Deixou que ele percebesse isso sozinho, ele era desligado, olhos perdidos e distantes em pensamentos que a tanto fascinavam. Ela achava que faria diferença, num mundo de mulheres com a cabeça alienada e afundada em sapatos, esmaltes, roupas, novelas e fofocas de salão, ela observava as coisas que ninguém reparava. Nunca foi uma mulher leviana, em sua vida, poucos homens se atreveram a entrar em seu mundinho, tão fechado, tão pra poucos. Um amigo de colegial, lhe disse uma vez, que ela pensava demais, e isso seria prejudicial pra ela. Às vezes, dizia esse amigo, nós temos que nos entregar falsamente para as convicções clichês desse mundo, pelo menos tentar não soar tão diferente. “Nos faz sofrer menos”, pensa ela. Muitas vezes ela pensa que deveria ser uma vadia, quantas vezes já ouviu que homem gosta mesmo daquelas que pisam em cima, cospem no prato que comem e dão pra meio mundo, sem valor algum. Tratar os homens como objetos, como bibelôs mal feitos de lojas de R$1,99. Usaria eles a seu bel prazer, e assim ouviria um ridículo “Eu te amo” ou outra coisa qualquer, ou um “bom dia vamos transar agora”, sem precisar ser quase misericordiosa. Pobre mulher tola, acredita sempre na boa índole dos homens, e que um dia, quem sabe, alguém a olhe com os olhos nus, e não como uma mulher que dá medo e uma certa ponta de fascínio medroso, cansou de ouvir frases de “se todas as mulheres do mundo fossem como você, teríamos um mundo melhor”, e depois de todo um envolvimento, ouvir que mulher inteligente dá trabalho, pois não é possível moldá-las, elas tem argumento pra tudo, são imbatíveis. Homens tolos, mal sabem eles que a mulher inteligente sabe se calar quando está errada, basta ter argumentos tão bons quanto o delas, o suficiente para os olhos brilharem e se calarem diante da convicção que está na frente de um Homem e não de um ser com um pênis, apenas um pênis. Ela sempre pensou que homens são como o abacate. Quando muito crus, são extremamente sem graça. Um amontoado de pelos, e uma coisa comprida que fica dura de repente no meio das pernas. Nada muito atraente. Mas quando misturado com bastante limão, açúcar, ou batido com leite, com outros ingredientes, se torna algo extraordinariamente divino. Abacates puros não fazem sentir tesão nenhum, apenas repulsa. Aqueles abacates que ficam se olhando no espelho enquanto levantam peso e não sabem pensar em outra coisa a não ser carro, futebol, peitudas anencéfalas siliconadas e o quanto seus tríceps e bíceps aumentaram. Aqueles abacates que nunca leram nada na vida, sem ser legendas de revista Penthouse. Aqueles que dizem que mulher inteligente dá trabalho. Os homens ao qual essa mulher amou, são seres divinos, com ingredientes que a fizeram salivar e desejar mais. Não eram um amontoado de pelos deslizando em cima de seu corpo, não era um objeto estranho invadindo seu ventre, era algo doce, único e que a fazia subir pelas paredes. Pena que a felicidade dura pouco, e homens abacate com especiarias sejam tão raros. No mundo de hoje, temos os abacates, mas falta em muito as especiarias.

Um dia, ela saiu de sua kitnet em bairro universitário, isso numa época antes de ter os dois filhos, uma menina e um menino. Deus não foi tão cruel com ela, deu-lhe ao menos um casal, gêmeos, mas ao qual poderia diferenciar. Ela saiu de sua casa decidida e se divertir e sair com o primeiro homem interessante aos olhos (apenas aos olhos) que a fizesse sorrir. “Vou ser vadia”, pensou ela. Dizem por aí, que a mulher que não é vadia por uma noite não é feliz, porque reza a lenda que toda mulher um dia vai comer na mão de um homem, assim como todo homem um dia se engana, comerá feito um cão nas mãos de uma mulher. Alguns inclusive, segundo histórias ao qual ela já ouviu, levam tapas no rosto da mão que comem feito cachorrinhos famintos de rua. Ela colocou uma roupa atraente, bonita, mas não vulgar. Queria ser uma vadia, mas uma vadia com classe. Transaria na primeira noite com aquele que lhe dissesse que ela é linda e que fosse atraente aos olhos dela. Apenas isso: SEXO, SEXO, SEXO, BELEZA, BELEZA, nada de papos intelectuais de livros e afins. Cansou de fazer as coisas por sentimento. “Gente boazinha e que dá valor ao sentimento alheio só se fode nessa vida”, pensava ela no entorno da primeira taça de vinho chileno que pediu no balcão. Naquela noite teria Pink Floyd cover, uma das suas bandas favoritas. Esperava encontrar alguém ali para transar ao som de “The great gig in the sky”, tocada em repeat contínuo, ou durante o álbum inteiro do “The Dark Side of the moon”. Talvez discutissem algo sobre a velha história de que o álbum é sincronizado com o filme “O Mágico de Oz”, e talvez surgisse uma desculpa esfarrapada de assistirem o filme, num apê bagunçado de cidade universitária. Ela tentaria ser igual ao homem de lata, sem coração, mas no fundo, o sonho dele era ter um coração batendo ali dentro. Ela queria ser uma mulher de lata…Sem coração. Coração só atrapalha, mesmo quando só se quer Sexo. Chegaram ali, naquela embriagada noite, vários homens, mas a bebida a fazia ficar mais sã. Não saiu, não “pegou” ninguém. Ficou lá até o fim do show, divagando sobre um milhão de pensamentos que a bombardeavam durante a flauta lírica em combinação com guitarras e sintetizadores psicodélicos. Voltou pra sua casa, semi-embriagada, sozinha, num táxi que pegou próximo ao Terminal. Chegou, atirou os sapatos para cada canto do quarto, deitou na cama. As hélices do ventilador giravam sem parar, ela estava com calor, o vinho lhe aquecia. Um calor entre as pernas, mas não teve nenhum homem que a satisfizesse. Para entrar em seu ventre, era necessário açúcar e bastante limão. Definitivamente, ser mulher lata não era pra ela. Sentiu nojo de ter tentado ser uma vadia. Na verdade ela não tentou, ela entrou naquele lugar, pediu uma garrafa de vinho, 3 cervejas Irish Red e ficou pensando na morte da bezerra, especificamente na vaca do “Atom Heart Mother”.

Ficou pensando na morte da bezerra, cuja mãe era a capa do disco "Atom Heart Mother"
Ficou pensando na morte da bezerra, cuja mãe era a capa do disco “Atom Heart Mother”

Ficou assim, pensando na sua tolice, e decidiu que nunca mais tentaria vestir a máscara da mulher “Like a Valeska Popozuda”. A vontade de dar seria controlada consigo mesma e num próximo homem que a fizesse sorrir por dentro e por fora. E que ela fosse, aquelas mulheres com uma casa e um cão, ela não tinha o dom de ser leviana. Ela poderia fazer sexo sem qualquer resposta de sentimento do outro lado, mas alguma forma de Amor ela têm de sentir por aquele que deita em seu peito e a devora. E foi assim com o pai de seus dois filhos. A reação dele ao “Estou grávida”, foi um misto de surpresa. Ela, 30 anos nas costas, sabia que ele não assumiria, se ele gostasse dela, teria dado algum sinal de vida. Conversaram, eles se vêem, trocam confidências, mas não por tempo suficiente para terem flertes. As crianças choravam e queriam o peito, ou queriam insistentemente subir em cima da mesa, ou brigarem pelo controle da casa. Ela recebia propostas, declarações, de tudo, sexo casual, amor eterno, mas o pai daquelas crianças enchia o mundo dela de cores. E cada vez que ela transava com um homem, era nele que ela pensava ao gozar. Hipocrisia, pensava ela, mas ela tinha que fazer o outro lado feliz, e ela se deixava enganar pela sensação induzida de prazer causada pela mente. HumildeMENTE, ela sentia orgasmos…

Num sábado ensolarado, seu Amor bateu à porta para buscar as crianças. Elas deram muito trabalho na noite de sexta, foram dormir tarde e incrivelmente estavam dormindo. Estavam dormindo todos em sua cama, e ela passou o dia insone, no sofá da sala lendo um livro. Adormeceu algumas horas com o livro no peito. Permitiu-se chorar com a estória ali, ela sempre chorava com Hemingway, pois foi ele que apresentou a metáfora da sorte lançada ao oceano, o céu de gaivotas, e a derrota em forma de tubarões. Naquele sofá, ela sonhou, como o velho Santiago em sua cama de jornais. Ela queria seu Manolim, ela cuidaria dele, e ele dela. Acordou num susto, seu celular tocava, seu velho Amor estava na porta, gritou “Já vou”, foi até o banheiro, escovou os dentes, deu uma ajeitada nos cabelos. Não podia fazer mais nada, pra ficar bonita demandaria um certo tempo e ele apenas buscaria as crianças. Ele não a amava mais, pode nunca ter amado, então, o que importava a Beleza?Abriu a porta, descalça, cabelo em desalinho, camisetão branco, calcinha de algodão por baixo, óculos de leitura, meio tortos na cara. Apenas um cheiro natural, sem perfume, mas o rosto todo iluminado, boca natural, sem traços escuros nos olhos, ela estava ali, de roupa, mas nua e crua. E lá estavam os velhos olhos azuis, e a saudade invasora. Deu-lhe um beijo no rosto, e disse que as crianças dormiam. Ele esperaria elas acordarem e foram pra cozinha, ela lhe fez uma xícara de café, fez a brincadeira de Dona Florinda e Professor Girafales, “Gostaria de entrar e tomar uma xícara de café?”, ele respondeu que não seria muito incomodo. Ela lhe ofereceria um copo de ovomaltine com leite bem gelado, mas as crianças tomavam aquilo como água. Puxaram tal qual o pai e a mãe, disse ela, e eles riram, baixinho na cozinha. Ela estendeu a xícara de café fumegante pra ele, e foram pra sala. Ele viu o livro “O velho e o Mar” num canto do sofá. Deu um sorriso de canto de boca, pegou o livro e viu onde estava o marcador de página, estava na parte sobre a sorte e a vontade do velho Santiago de querer poder comprá-la.

(…)Gostaria de comprar um pouco de sorte se houvesse um lugar onde a vendessem. Mas com que eu poderia comprá-la? Poderia comprá-la com um arpão perdido, com a faca partida ou com estas duas mãos em carne viva?Talvez…Você tentou comprá-la com oitenta e quatro dias no mar. Quase que lhe venderam.
Não posso continuar a pensar nestes disparates. A sorte é uma coisa que vem de muitas formas, e quem é que pode reconhecê-la? Por mim aceitaria um bocado de sorte fosse qual fosse a forma como viesse e pagaria o que me pedissem por ela. Gostaria de poder ver o brilho das luzes. Estou sempre desejando coisas. Mas essa é a que mais desejaria agora.

Ele perguntou a ela se ela dormiu com o livro sobre o peito, enquanto ele esperava que ela respondesse o SMS que ele enviou sete e meia da manhã, ela disse que sim, e que já perdeu as contas de quantas vezes já leu aquele livro. Ele perguntou, quanto tempo ela estava jogada ao mar, sem pegar nenhum peixe. Ela disse: Três anos…três anos esperando a sorte, e essa era a única coisa que eu queria agora. Se pegaram, no sofá, as crianças poderiam acordar, ele queria deitar aquela mulher de cabelos bagunçados na cama do quarto, mas as crianças dormiam lá. Ela era uma mulher, com dois filhos e um banheiro…Transaram embaixo do chuveiro.

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Um comentário sobre “Dois filhos, um banheiro e abacate com especiarias.

  1. Super escritora!!!

    …Teu estilo literário é inovador!!!
    Escreves sem cortes, o que poderia desagradar a muitos…

    Mas tens um estilo agradabilíssimo!!!

    …Embora que, pelo pudor, alguém conteste; mas amam!!! rs

    MAGNÍFICO!!!

    P
    A
    R
    A
    B
    É
    N
    S…

    Muito obrigado; amada amiga escritora Ana Idris!!!

    Deus seja contigo!!!
    Bom Dia; querida!!!

    Beijinhos…

    Loritz Sanvi
    (Poeta)

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