Memórias de um homem no espelho do banheiro.

E não havia mais nada o que se pudesse fazer. Seu velho rosto misturado nos vincos do lençol, cobrindo-lhe o corpo, protegendo do medo indigesto de acordar todas as manhãs, sair daquele canto quente e aconchegante, escorregar os ímpetos do dia, emoções à dentro, represadas no meio do caos do trânsito. Sua beleza de frente do espelho está desmistificada por um par de olhos que lhe encaram. Sozinho naquele apartamento, as revistas jogadas ao chão, pares de meias, perdidas uns dos outros, mal sabia ele onde estava seu tênis. Estava cansado, não queria amarrar cadarços naquele dia, queria apenas amarrar o tempo, dar um nó nos ponteiros, e não deixar eles se movimentarem. Queria ele que o fogo tivesse as chamas extinguidas, mas sabia ele, que quando o inverno chegasse a eloquência das chamas o aqueceriam, de uma forma que ele não saberia como substituir. “Comprarei uma manta térmica”, pensou ele, mas então ele se lembrou de sua estadia no Canadá, onde sua vizinha, uma senhora idosa, foi morta, viu seu corpo carbonizado ser retirado da casa. A manta térmica que tanto protegia do frio, lhe trouxe calor inesperado. Sendo assim, descartou a compra da manta térmica.

Estava ele ali, na frente do espelho, com toda sua beleza britânica e a cama vazia. Onde estaria a sua força agora, por trás das olheiras de noites mal dormidas?A única coisa que queria naquele momento, era a sensação grandiosa de poder tomar um café apenas observando a vida lá fora da sacada do apartamento. Não queria ver ninguém, nem homens engravatados de orgulhos, nem mulheres de saia executiva cruzando as pernas como se tivessem pudor de algo. Esses dias, uma executiva de vendas transava com ele no banheiro, ela era casada, com filhos, fotos nas colunas sociais ao lado do marido. Se naquele banheiro tivesse câmeras, elas iriam flagrar as pernas que ela cruzava na reunião executiva, abertas, desnudas e com a cabeça dele no meio delas. Ela, tão educada, uma mulher, uma dama, condenava aos gritos as celebridades e as traições delas: “Ahhh você viu fulana de tal? Foi flagrada traindo o marido. Essa gente não presta!”, dizia isto com cara de desdém, no spa onde sua máscara de mulher correta da alta sociedade era lapidada por design de sobrancelhas, aplicações de colágeno nos lábios e botox na testa, pagos pelo marido ao qual ela amava tanto. Hipócrita, hipócrita, hipócrita, dizia ele no espelho do banheiro. Já não via mais a sua imagem, era só vapor.

Tomou um banho revigorante, esfregou as costas, sozinho, queria ali uma mulher, ao qual amasse, brigasse, sofresse, e não uma prostituta ou mulheres interesseiras que ele passava o telefone. Uma vez, num jantar executivo, conheceu Juliete, loira, linda, rosto de modelo. Por instantes quase se apaixonou. Mas ela era burra, feito uma porta, era daquelas mulheres doutrinadas que a beleza física era a única coisa que as tornariam reconhecidas no mundo. Gostava de transar com ela, desde que ela fosse como o vinho. Ele usava um termo, existem mulheres, que são como o vinho: devem estar sempre mantidas na horizontal, e com uma rolha na boca. Quando ela se atrevia a falar algo, ele mantinha a boca dela ocupada. Simples, mas chegou uma hora que ele se cansou. Nem só de sexo oral vive-se uma relação de homem e mulher. Despediu-se dela, quando a deixou na porta da casa dela, deu-lhe um beijo no rosto e um sórdido: “Te vejo por aí”. Nunca mais foi no restaurante, nunca mais a procurou. Dizem os amigos, que ela ficou desolada, por alguns dias. Semanas depois, era o vinho de outro homem.
Saiu do banho, enxugou o espelho com a toalha felpuda. Queria ver de relance, no reflexo do espelho, uma mulher real deitada em sua cama, com celulites, estrias, e um lindo rosto amassado. Que andasse de chinelos colocasse a camisa dele, e que permitisse ele bagunçar os cabelos, que tomasse sorvete no parque e que aceitasse comer cachorro quente na rua. Que passe alguns dias com o esmalte descascando.

Seu rosto no espelho, semi-embaçado, de homem de traços britânicos, beleza imensurável. Queria ele ser visto como um homem, um bicho, uma coisa. Tinha sentimentos, ímpetos de raiva, tristeza, vontade de jogar celulares, tablets e outros gadgets na parede. Ele se sente como Sansão. Teve toda a sua força extinguida, como se Danila tivesse cortado-lhe as madeixas que lhe davam força, e como um sopro doce, ela lhe disse adeus, e esta Dalila, ele nunca conheceu, talvez ela o encare no espelho do banheiro, talvez ela já estivesse por lá antes, em tempos remotos, ela reconhecesse seus passos, tímidos e cansados depois de uma noite de trabalho. Ele queria uma mulher, uma mulher que lhe fizesse perder o rumo, e que após o sexo, sem forças, pudesse contemplá-la sentado no sofá, que pudesse ver seu rosto ao amanhecer, com os olhos miúdos, cabelos sem escova, camisetão de algodão. A perfeição em detalhes imperfeitos, como um espelho quebrado. Estava ali, um homem despedaçado.

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