Tal como o vinho, parte II.

Eu simplesmente não consigo mais ignorar a zona incauta de prazer que me invade a alma a cada gole de vinho tinto seco. Seria muita insensibilidade de minha parte se eu ignorasse todo o poder quase insano, enlouquecedor, de teus lábios manchados, sua saliva, nossa saliva etílica, aquele cheiro teu tão próximo, eu devorei teu cheiro em um longo percurso, e ainda não levemente embriagada, eu já sabia muito antes que eu estava já fora da minha toca, apenas tentei em vão ignorar tão sagaz e ensurdecedor insight de razão emocionada. Eu não pretendia beijar-lhe e nem ser beijada, mas eis aí que a vida nos engana. Quando nós achamos que temos todo o controle da situação, eis que os ventos de tempestade chegam e balançam nossas roupas de orgulho penduradas no varal. E a camisa branca impecável, seca no varal, ficou úmida de prazer, marcada por vincos de um abraço de saudade. Meu vestido ficou um tempo separado num balaio de roupas, longe das outras, porque ali estava algo especial, uma gota de vinho derramado e seu cheiro esparramado. Joguei o vestido na máquina de lavar, mas só fiz isso quando gravei tuas marcas olfativas em minha memória, e ela está longe de ser jogada no sóton de minhas memórias cognitivas. Está num acesso dinâmico, rápido, bizarro e sem frescura, sem tempos ruins para negar memórias entorpecidas. Pode estar uma tempestade de pedra lá fora, a chuva será linda, pesada, e eu vou contemplar da minha janela. Lamberei uma pedra de gelo, um pedaço do céu em minha boca, eis que me lembrarei de ti novamente, não estou dizendo que és um homem frio, mas sim porque como o gelo, você derrete em minha boca e num acesso de lembranças boas, as borboletas dançam todas descontroladas no jardim de meu estômago.

E eu saí daquele bar numa sexta-feira ameaçadora de chuva. Com meu casaco amarelo eu suava, e o vento de prenúncio de chuva bagunçou meus cabelos, acalmou minha face avermelhada. Subi para o ônibus sobre o efeito do fogo. Algo em mim queimava, se eu pudesse lhe chamaria para um sexo improvisado, como uma dança, num salão, onde ritmos variados nos convidam a passos desajeitados. Neste palco eu meu arrisco, a vida toda é um palco, penso eu, pois temos de dançar conforme o ritmo dela, portanto, se nos sentirmos envergonhados e desajeitados durante os passos de tango argentino, vamos cair, e rir de nosso tombo. Daremos as mãos e dançaremos novamente, até a que a Morte chegue. Se o céu, o paraíso e outras metáforas semelhantes existirem, vamos continuar dançando no paraíso. Se o inferno existe, vamos dançar nus, sem pudor algum, queimando em chamas, um ritmo caliente de música caribenha. Usarei meu espanhol desajeitado, sem vergonha. Aliás, vergonha é algo que não me pertence. Deixei-a abandonada e guardada numa caixa, na mesma caixa onde guardava meus textos proibidos de 15 anos, antes de serem atirados ao fogo.

Tal como o vinho, bebo-te em goles de saudade, e ele desce, quente, aquecendo minh’alma e coração, numa sexta-feira de emoções violentas em forma de pensamentos. Queria eu ser agora como uma garrafa, um vinho, um licor de uvas, envelhecido de emoções. Deite-me em sua taça e me beba, sem pressa. DEGUSTE, sem moderação.

Anúncios

Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s