Escritos de terminal de ônibus.

Saí hoje de meu trabalho com meus velhos fones de ouvido, viajando nos instantes das notas musicais. Gosto de atravessar a passarela da rodovia, depois de um dia cheio de trabalho. É uma forma de paz, de missão cumprida, não importando o tempo de mais ou tempo de menos que eu passei no meu trabalho. O simples fato de ter atravessado aquela passarela, significa que foi mais um dia de labuta. É uma forma de gratidão incontida, o vento batendo-me no rosto, os carros passando lá embaixo em velocidades variadas. Às vezes eu paro e fico olhando a movimentação, as luzes amareladas, a cidade no horizonte, e coloco-me a pensar no meu dia, nas minhas vitórias, meus fracassos, meu Amor, e também, nos dias que virão. Esses dias futuros, eu os encaro como uma probabilidade. Uma probabilidade que possa acontecer ou não, pois os dias futuros, na maioria das vezes é focalizado em nossas mentes pensativas, como um sonho a se realizar, e nós não temos controle nenhum no nosso destino, pois se fosse assim, acredito que ninguém teria dificuldades nessa vida, pois nós controlamos nosso destino. Ninguém quer ter o destino de morrer atropelado por um caminhão desgovernado. Essa coisa de destino, faz-me lembrar de minha avó, que está internada e em coma num quarto de UTI. Ela sempre nos dizia que passaria dos cem anos, porque ela vivia a base de feijão, farinha, banana, pinga e cigarros. E quando ela fosse morrer, ela não sentiria dor, pois ela morreria dormindo. Quem vai poder nos dizer, que ela sofreu?Depois de um AVC, pneumonia e infarte, logo levada inconsciente para o hospital, sem ter o poder de dizer o que sentiu…Teria ela, mulher de 75 anos, que nunca foi internada em uma hospital, realmente não sentido dor?

Confesso que tomo consciência, de que alguns dias nunca virão me saudar com o amanhecer na janela. São aqueles dias de utopia, aqueles sonhos que nós almejamos,. O que sabemos nós, meros mortais, meras incógnitas que não é compreendida nem por nós mesmos, o que nós temos controle do nosso destino?Mesmo que ele seja onírico, os sonhos que carregamos conosco nem sempre é realizado, ou quando são, não são iguais aos contos de fada. Sim, podemos nos surpreender? Pode ser algo que não imaginamos, ou algo melhor ainda do que achávamos que fosse, mas sempre, SEMPRE ficará a dúvida…Minha mãe sempre diz, que na dúvida, fique sempre com o benefício dela. Sejamos otimistas, mas um pouco de pessimismo é ter os pés fincados no chão. Temos que nos permitir delirar em sonhos, mas lembramos que para um sonho se realizar, temos que ter as raízes bem plantadas no solo, mas, árvores também morrem, mesmo aquelas que são regadas todos os dias. Talvez nossa luta, seja cega, surda e muda, nossos sonhos sejam apenas um escopo de projeto que chegou em deadline. Lutamos, lutamos, lutamos, mas a luta chegou ao fim. Vamos enterrar nossas espadas na pedra. Talvez vamos voltar mais tarde, retomar nossa luta, ou esperaremos que alguém retire a espada cravada na pedra da derrota, vamos esperar, tem pessoas que esperam, de braços cruzados, sem mover a bunda da cadeira. Vivem na comodidade de não fazerem porra nenhuma e se aproveitar do sonho dos outros. Enfim, é apenas mais um desabafo escrito à mão, num terminal de ônibus num bairro universitário suburbano.

Quando minha pele estiver enrugada, todos os meus fios de cabelo estiverem brancos, meus olhos, tão grandes e arregalados, estiverem miúdos e caídos, ainda lembrarei dos meus sonhos que eu tive em minha vida inteira, a não ser que eu esteja debilitada demais mentalmente. Eu penso que quando eu envelhecer, no fim dos meus dias aqui nesse universo, eu vou perder a senilidade, e não saberei mais o que escrever num editor de textos, minhas mãos talvez irão tremer, e eu mal conseguirei segurar minha caneta. Eu terei um mundo esquizofrênico ou um mundo sem memórias, não reconhecerei os olhos das pessoas que eu amei ou amarei em vida. Uma vez eu ouvi uma frase, que dizia que a Morte, quando se aproxima, nos priva primeiro daquilo que mais amamos. Eu amo escrever…Talvez eu perca isso um dia, algo me privará daquilo que eu amo tanto. Penso que um dia, não terei mais a eloquência suficiente para escrever o que eu penso. É uma sensação que levo comigo, pois eu gasto tanto minha mente com minha hiperatividade, que por instantes é acalmada com um comprimido de Rivotril de meio miligrama, e mesmo com ele, nas noites que eu não consigo desligar-me de minha tempestade de ideias e indagações, ele me dá sono, e no sono meus pensamentos são transmutados para os sonhos, nas minhas poucas horas de sonhos, eu, inconscientemente ainda não atingi a minha paz.

Eu sou intensa demais para deixar uma palavra ou várias delas, passarem batido, despercebidas. Eu sou mulher demais para confessar que eu amo mesmo não tendo certeza sobre o outro lado da moeda. Isso não me mata, pelo contrário, me fortalece. Aquele que se cala perante meu turbilhão de indagações, tagarelices, loucuras e momentos de “sensatez insensata”, é aquele que me cativa. Eu gosto daquilo que me é contrário, pois me completa no sentido de me ensinar aquilo que eu não tenho. Não costumo ser silenciosa, logo uma alma silenciosa faz-me aprender a ser mais contida e menos verborrágica, no sentido não de escrever menos, mas de conversar com os olhos, sem ter que cuspir um milhão de palavras. “Dê tempo ao tempo “, sempre diz a minha amável e sábia mãe. Eu tento, desengonçadamente, não contar as horas, minutos e segundos para o alvorecer de um sorriso. A Vida ensinou-me a Amar tudo aquilo que eu carrego nela. Se a solidão e o silêncio andam comigo, de mãos dadas, eu abraço a decisão de que não poderia ser melhor, mas tenho sã consciência que a Vida é uma caixinha de surpresas, e muitas vezes nossas convicções são traídas com um belo tapa na cara, e uma cara de surpresa. A vida é uma incógnita, um sistema escalonado sem solução…Ela é bipolar, nos abraça com suas maravilhas de instantes, mas nos dá chicotadas nas costas, e elas podem ser cruéis, muito cruéis, somente o Tempo e sua Sabedoria poderão curar nossas feridas.

Eu seria muito imbecil se eu acreditasse que poderíamos ser felizes o tempo inteiro, que o Amor sempre será mútuo, que teremos um Amor para a vida toda. Nós vivemos num mundinho que instalou a cultura de que tudo é descartável. Eu acho lindo, aqueles casais de idosos que estão juntos desde a mocidade, um acompanhando as derrapadas e vitórias durante tantos anos. Minha avó diz, que o segredo das pessoas que vivem juntas por muitos anos, é que elas não tratam as pessoas como coisas descartáveis. Se há uma briga no casal, a primeira coisa a se fazer não é pedir divórcio, é sentar e conversar, e não jogar fora como um brinquedinho de plástico. Em falar em divórcio, via a dois e tudo mais, eu sou uma mulher que não tem o sonho tão clichê e simbólico de casar numa igreja e fazer uma mega festa. Hoje, o casamento é uma instituição falida. Sou partidária que não há problema algum, juntar as escovas sem casamento. Se um dia, eu for casar, se isso for realmente necessário, será uma cerimônia bonita em um cartório, e depois um churrasco para os mais chegados. Não quero gastar com festas e tudo mais. Prefiro guardar a grana que gastaria para um casamento, para usar numa lua de mel. Prefiro gastar meu dinheiro em noites tórridas de sexo na Europa, do que encher a pança de pessoas que sairão reclamando da festa, e depois eu terei boletos e boletos pra pagar. Desculpem-me as mulheres sonhadoras de véu e grinalda, isso apenas é uma opinião minha, e confesso que muitas vezes eu gostaria de ser mais “normal”, ter aquela coisa de casar na igreja, agradar meus pais, avós católicos, mas não é meu ideal de vida. Eu faço aquilo que é melhor, se meu parceiro, aquele que me acompanhará não faz questão de casamento, ótimo. Eu sempre digo que conheço casais que não são casados, mas que possuem mais sinceridade e amor mútuo do que muito casal com aliança grossa no dedo. A hipocrisia impera neste mundo, aquele que lhe diz que você errou por não ter casado, tem um casamento infeliz.  Pode apostar que o divórcio está chegando em galopadas de guerra.

Antes só do que mal-acompanhada. Eu sempre acreditei neste ditado. Acostumei meus olhos e instintos que viver sozinha é uma forma de aprendizado e auto-conhecimento. Mas eu digo, que quando eu amo alguém, eu não a trato como uma coisa de plástico. Não é como na música “Fake Plastic Trees”, do Radiohead. Eu não amo um homem de plástico. Pessoas possuem sentimentos, não gosto de brincar com eles, e eu também não sou uma mulher de plástico. Sou feita de emoções, sensibilidade, Amor, ódio, raiva, tristeza. Toda mulher carrega com ela todos os sentimentos do mundo, o homem também. Somos feitos de um conjunto de sentimentos, e alguns nunca sentiremos na vida, se não houver um estopim, um tiro, um ponto de partida, um insight…

Enquanto eu caminhava pelo terminal de ônibus, eu estava pensando em meus projetos para o futuro. Eu gostaria de ter uma casinha simples e linda, com um quintal agradável, com flores, árvores e bichos correndo pelo quintal. Eu amo os animais, sua pureza de espírito e seu amor incondicional. Se for um apartamento, pode ter um dormitório só, mas que tenha uma sacada para que eu possa escrever sentada numa cadeira confortável, e quando me erguer e parar com a cabeça apoiada nas mãos, observando a vida miúda e interessante lá de baixo, que eu possa divagar sobre a vida e os acontecimentos daquilo que eu vejo. E terá somente o silêncio de meus pensamentos, que serão também daquele que estender-me a mão algum dia.

Quero eu, ao envelhecer, ter meu velho Amor ao lado, com um sorriso talvez banguela, de bengala, ou com uma dor nas costas típica daqueles que levaram as dores do mundo nos ombros, durante a juventude. Este meu velho, nos meus sonhos de velhice, estará ao meu lado, na alegria, na tristeza, na raiva, na pobreza, na riqueza, na vida e na morte. E ele olhará para os meus olhos, tão calejados perante as surpresas agradáveis ou não que a vida nos proporciona, ele olhará pra mim, teremos um cachorro cego, surdo, velho e gordo deitado aos nossos pés, as folhas cairão tímidas lá fora…Ele olhará em meus olhos, me dará um sorriso de velho, e me dirá: “Você se lembra quando…”

Quando a velhice chegar, aceita-a, ama-a . Ela é abundante em prazeres se souberes amá-la. Os anos que vão gradualmente declinando estão entre os mais doces da vida de um homem, Mesmo quando tenhas alcançado o limite extremo dos aos, estes ainda reservam prazeres. Sêneca
Quando a velhice chegar, aceita-a, ama-a . Ela é abundante em prazeres se souberes amá-la. Os anos que vão gradualmente declinando estão entre os mais doces da vida de um homem, Mesmo quando tenhas alcançado o limite extremo dos aos, estes ainda reservam prazeres. Sêneca
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