Instantes

No domingo choveu, eu fiquei embaixo da chuva ao caminhar de volta pra casa. Depois de um final de semana com olhos baixos e alma em silêncio, a chuva que caia lá fora limpava minha alma, e eu me senti plena, tal como uma flor após os tímidos raios de sol. Ali no meio da tempestade minh’alma gritava, num silêncio interrompido pelos barulhos dos trovões. E eu pensei no meu amanhã, como seria o trabalho, planos para o futuro, minha calma, minha alma, meu Amor. Pensei na Beleza e no poder do silêncio, e o quanto as almas silenciosas nos ensinam a sermos mais sensatos, o silêncio me cura, e me traz uma saudade galopante nos ponteiros de um relógio de um Tempo não tão distante, mas a ansiedade me torna humana, e eu por horas aflita me coloco a lutar contra minha pressa de encher minha instância metafórica com beijos e um abraço caloroso. E um milhão de violinos inquietos tocam uma canção bela, ensurdecedora, e nos meus instantes de silêncio, eu deito meus pensamentos numa maresia de sons. Eles cantam, e eu escrevo as notas musicais num pedaço de papel ou num editor de texto. E deixo o ardor e a fúria da madrugada tomar conta da minha intensidade ao qual não consigo represar em horas saudáveis de sono. Minha paz, minha calma, meu espírito…Só silencia quando uma ode de verbos conjugados e não conjugados ressoam pelas linhas perdidas de meu espaço onde minha alma grita, onde intensamente eu grito meu canto, minha razão de viver.

E nesta segunda-feira, choveu novamente. Eu me vi tarde da noite voltando do trabalho, e a chuva me pegou no meio do caminho. Os carros passavam, divinamente embaixo da passarela. As gotas de chuva transmutavam na beleza das luzes amarelas dos postes urbanos. E eu ali, encharcada de emoções, lembranças e sonhos. E eu pensei o quanto gostaria de ser beijada embaixo de uma chuva tórrida, o quanto queria que os trovões de minha eloquência perdessem toda a razão de assustar os incautos. Eu queria os instantes do meu amado silêncio, eu gostaria de ter minha metáfora de tons amarelos, aquela flor que estava em um bonito jardim. Hoje eu passo no jardim de minha metáfora e vejo que a flor não existe mais ali. Talvez, uma nova semente surgirá, depois do período de tempestade, a flor imponente aparecerá de novo, renovada depois dos tempos incólumes de fúria. Eu apenas escuto o silêncio em sua alma, e isso me basta. Sigo minha vida ouvindo os sons que me permeiam, as chamas que me queimam o peito. Na passarela de minha razão e intensidade, eu murmuro um soneto sem métrica, eu vou andando contra o vento, e talvez meu guarda-chuva se quebre ou minha alma teimosa sempre será tentada a sair na chuva sem proteção alguma e sofrer as mágoas e dores de um resfriado que somente o Tempo e sua consequente Razão são capazes de curar.

Eu posso estar caminhando para o cruel, insensato e inocente caminho daqueles que amam. Eu posso estar andando embaixo da neve, sem agasalho, mas a cada instante eu tento compreender as imperfeições dos flocos de neve, e mesmo assim, tais flocos que permeiam o chão e nos fazem escorregar, ou tremer de frio, nos fazem querer contemplar a chama de nossa lareira de emoções, por mais breve que as chamas durem. A memória do fogo marcou uma chaga, uma tatuagem colorida na pele, e por vezes eu sinto-me com o poder e beleza de uma criança com um sorriso no rosto.

Eu enfrento águas calmas, eu mergulho numa maré turbulenta, eu não carrego mais guarda-chuvas, antes eu andava com guarda-chuvas até embaixo de marquises. Hoje eu saio nas ruas e deixo-me levar pela fúria do Tempo, que não me permite mais viver sem correr riscos. Se eu dizer “Eu te amo”, qualquer dia desses, é porque já perdi todo o meu medo mesquinho de ser atingida pelo raio da negação e julgamentos alheios. Minha entrega é tão somente minha e da minha metáfora literária, e a Vida me dirá em qualquer tempo verbal, se minha eloquência foi correta ou não. Amar é um verbo, tão irregular  e sem conjugações tal qual a Beleza. Podemos ser traídos por nossas talvez falsas convicções, pela falta de juízo causada pelo desconforto e caos. Em questões de Amor, eu sou como Ícaro. Talvez eu seja sonhadora demais, e ao me aproximar do sol, queimarei minhas asas e cairei em direção ao mar, onde minhas pesadas asas não me deixaram voar mais, em busca de meu juízo e redoma de proteção que deixei na beira da praia, lá, onde as ondas quebram em silêncio e sem desconforto, mas, ali, naquele lugar, eu vivia como uma eremita com fobias e medo do desconhecido. Eu tinha medo de andar descalça sob as pedras, então colocava minhas sandálias de moralidade e bom senso pré-julgado, a síndrome de mocinha de contos de fada.

Sigo minha vida num barco, e talvez eu fique 84 dias sem sorte, perdida no mar, mas sem perder a minha Força. Talvez eu me enfraqueça, talvez eu deite em minha cama de jornais, e então sonharei, com aquilo que há de mais belo em meu nobre coração. Talvez eu seja agraciada pela coerência tão dolorosa de um erro, mas eu me erguerei, e jogarei meu barco ao mar novamente. Nunca é tarde para se pescar um Marlim  Ele aparece sem querer, tão fascinante, intenso e desconcertante, mas ele pode ser devorado por tubarões, mas eu tentei, embaixo de chuva ou sol escaldante, obter minha sorte, que trago aqui por meio de metáforas e permissões literárias e talvez a olhos de outros, uma imoralidade, em muitos, uma coragem que atordoa. E eu sigo com o Tempo me olhando nos olhos, me encarando com seus ponteiros, me trazendo a saudade que eu não consigo por horas deixar de me emocionar, uma saudade que seus olhos me trouxeram, uma saudade em forma de silêncio, uma beleza e inquietude que fala com os olhos, e cujas palavras apenas esperam o Tempo certo para serem ditas, e que talvez muitos anos se passem, e este homem que fala com olhos não consiga dizer tudo o que tem de ser dito, eis a beleza misteriosa de sua alma, a Graça faz-me calar, nas manhãs, nas madrugadas insones, silenciosamente eu lhe carrego em meus mais íntimos e belos instantes.

Com seus olhos pequenos e inquietos a Graça beijou meus ombros,
Deixou-me esperando debaixo de uma chuva gelada, com trovões cantando ao fundo
Mas o raio iluminou a noite e no clarão eu vi a Graça me observando nas sombras,
E quando eu fecho os olhos, nós comungamos o pecado como crianças na Eucaristia.

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