Dez minicontos de 150 palavras.

1 – A Garota no espelho

É de madrugada, neste domingo chuvoso a dor no peito tomou conta. No sábado passado dormiu o dia inteiro, por oras perdeu os instantes digerindo um livro e contando suas angústias para aquele que lhe cura sem falar muito. Ela pensa: “interessante a vida”, e faz isso olhando seu corpo preso em um vestido preto de malha amarrotado. Seus cabelos em desalinho, por um dia inteiro rolando na cama, e se ao menos fosse sexo, mas a única coisa que ela tinha era fazer amor consigo mesma.

Diante daquele espelho em sua pequena casa, aquela forma de mulher ali exposta eram suas entranhas, todas elas dispostas numa tábua, com cebolas, tempero. Mais tarde, seria gratinada com manteiga ou azeite, e servida em linhas insones, linhas gourmet. Tomou um banho e deitou-se, nua, olhou lá fora, a brisa da tempestade saudava seu corpo como um amante. Sorriu.

2 – O Homem Girassol

Acordou de manhã, arrastou seu corpo cansado até o chuveiro. Embaçou suas emoções no espelho do banheiro. Sonhou com teu amor massageando-lhe as costas durante o banho. E ela disse que amava todos os vincos do rosto dele e quando ele acordava com os olhos azuis comprimidos e cheios de sono. E o sol que entrava pela janela iluminava o rosto dele, e aquilo era de uma beleza tal como um verbo irregular, ela não conseguia conjugar. Quando chovia, gotas tímidas, aquele tempo indeciso de chove não chove, seu amor era como um girassol em um jardim, ele se encolhia, tímido, e colocava-se a olhar os pés, mas quando o sol imponente se erguia no céu, ele se tornava um rei soberano, e naquele sorriso de homem silencioso, ela não conseguia exprimir em palavras o seu encanto. No canto esquerdo de uma rua, um girassol sorria no jardim.

3 – Maresia de Hemingway

Caminhou pelas areias fofas da praia durante várias horas. Deixou com que as marolas serenas lhe molhassem os pés. Quando seu corpo suava, ela dava um mergulho no mar, e ficou lá, meditando sobre seu eu salgado. Queria ela ter a doçura de todos os dias, mas as horas do tempo lhe trazem sabores e dissabores. Por vezes, sua natureza é amarga, outras horas ardente, nos braços daquele que a chama pra fora de sua redoma de ego e proteção.

As gaivotas se reuniam no céu, um barco pesqueiro balançava no horizonte. E ela se colocava a pensar se era a sorte ou falta dela que acompanhava aquele barco no horizonte. Depois de banhar-se e enrugar todos os vincos da pele, ela sentou-se placidamente na areia, observando a vida ao redor, crianças brincando na areia. O barco pesqueiro chegou à orla, e ele transbordava sorte e cansaço.

4 – Refúgio

Nos papéis perdidos na escrivaninha, em meio de livros, pequenos papéis com meias verdades, com mentiras de fundo vago, cantou uma canção de melodia desconexa. Estava ali lhe fitando nos olhos, um inseto na parede, esfregando as patinhas, ela deveria matá-lo, mas apenas ligou seu ventilador de teto. E quando as hélices começaram a girar numa simplicidade complexa, ela deitou-se na cama, tinha o louvor e o desejo de um Amor não incontido, verborrágico e jogado na sorte, algo ao qual ela não poderia comprar. Os ponteiros de seu relógio de parede pararam. Tinha ela, de comprar pilhas novas?Não, ela queria ali, poder voltar no tempo, e ficar apenas naquele instante que ela tentou em vão manter sua eloquência de raciocínio, antes de ser tomada por um beijo doce e inesperado no seio direito, e mãos tão maliciosas na graça de um anjo diabólico passeando em sua virilha. Desejo.

5 – Domingo à tarde.

Enquanto algumas pessoas rezam indo à missa ou contam piadas na mesa de família, a tarde pedia um banho. Ela negava que naquele momento, as gotas que  caiam no corpo, trouxeram-lhe a doce lembrança de um pequeno rio de vinho correndo nas costas, e uma língua languida. E os dois, talvez, levados pela sensação de uma leve embriaguez, cravou em seu peito e armário de memórias, um momento inesquecível e único. E naquele momento, enquanto as gotas mornas tiravam-lhe a eloquência de raciocínio, ela queria que ele estivesse ali, com seus beijos em sua pele nua. Cada momento, que ela sentia algo escorrer-lhe nas costas, ela sentia o cheiro dele aproximando-se.  Seu toque, ora doce, ora selvagem, uma sinestesia violenta, uma vontade de amar-lhe imoralmente na frente de uma multidão. E o som de piano tomou espaço n’alma. Ela enxugou seu desejo com uma toalha felpuda.

6 – Inverno

Perdeu a beleza dos instantes. Adormeceu no metrô, não viu o título do livro nas mãos do homem que estava sentado ao teu lado. Apenas gravou seu cheiro de água de banho. Em seu sonho de preguiça  numa manhã de uma metrô lotado, ela estava abraçando o tempo e seus ponteiros, e não largava, o enchia de beijos e deixava-lhe  invadir seu ventre numa fúria inconstante. Estava chovendo, e havia neblina lá fora. Nos túneis tristes do metrô há apenas a escuridão, e o monstro de ferro a toda velocidade carregando pessoas encharcadas de sonhos, esperando um pouco de atenção, uma alma de cores entrando em seus mundinhos de tons tempestuosos. Ela continuou ali sonhando, amando a frieza do inverno, e a eloquência de se proteger por debaixo de dezenas de roupas. O inverno silencioso calava sua alma, e diante de  tal beleza, ela se contorcia por dentro.

7 – Delírio

Do alto da sacada de seu apartamento, Lola colocou-se a pensar no tempo e em delírios. Havia uma varejeira grande e verde rodeando o vidro da janela, desejando as migalhas de comida da mesa. Sorte que a porta está fechada. Aquela mosca nojenta poderia entrar e pousar na sua comida, ou nas suas emoções perdidas durante a noite de sono. Segurava uma xícara de café, sua vida insone clamava por cafeína todas as manhãs. A insônia era uma (in)sanidade que a perseguia de noite, debaixo de cobertas, embaixo das hélices barulhentas de seu ventilador de teto, mas dentro dela, um silêncio devastador, que pode ser escutado na banda de pensamentos tão altos quanto o barulho de uma fanfarra em dia da independência. Era um silêncio, quieto, e muitas vezes inoportuno. Seu grito é uma canção muda, escutado por poucas pessoas. Talvez aquela mosca na janela a compreendesse. Porque não?

8 – Mosca

O vento balançava seus cabelos, do alto daquela sacada a vida era miúda, mas não deixava de ser bonita. Era como suas olheiras. Era um fruto trágico, mas ela gostava. A insônia não a tornava mais feia, a Beleza é relativa. Noites mal dormidas tinham seu “q” de beleza. Ela poderia tirar o sábado para dormir, deitar um pouco de suas emoções na luz do dia, e acordar de madrugada para fazer uma xícara de chá e sentar-se na sacada do apartamento, observar estrelas e imaginar uma cena de um quadro surrealista, e talvez cantarolar alguma canção oportuna para aquele dia, cantar baixinho, como o zunzum da mosca inquieta e gulosa que rodeava o vidro. A mosca estava faminta. Se Lola tivesse olhos de microscópio, enxergaria a salivação daquela mosca, suas 4 pupilas dilatadas, lembrou das aulas de Biologia.  Uma mosca pode ter de dois a quatro olhos.

9 – Isabela

Isabela sonhava que estava voando por cima de um campo cheio de lírios, leve como uma borboleta, e o desabrochar de um milhão de flores tímidas encharcadas de lirismo enalteciam sua alma. Ela já estivera ali antes, em tempos remotos, andando em uma velha bicicleta amarela, já enferrujada pela umidade do tempo. E ela corria naquele campo. Nem os urubus na arvorezinha de galhos retorcidos e secos, tiravam a beleza daquele lugar. Naquele sonho, naquele lugar que ela poderia chamar de seu, amanhecia um dia de cores multicoloridas, e seu desejo incontido de ser a nuance principal daquele jardim de delícias e prazeres angelicais, se diluíam quando ela escutou o despertador a chamar para a realidade. Ela que estava tão confortável embaixo de suas cobertas protetoras, acordou com o som do carro de gás que passava na rua e com o latido incontrolável do seu cão. Sentou e chorou.

10 – Irregular

A Beleza é um verbo irregular ao qual não se conjuga. Renata escreveu no guardanapo de papel que seu pai colocou em cima da mesa do café. Embrulhou o papel e meteu ele num cantinho da bolsa. Iria para a faculdade naquela manhã, e estava entediada. Dias de tédio a fazem escrever momentos e lapsos de razão ou a falta dela, em meio de linhas tortas e sonolentas. Ela estava ali, presente de corpo físico, mas ali, nas aulas inúteis, ela pensava apenas em anjos e bisões extintos.  Pensando em seu esconderijo no refúgio da arte, que poderia ter tanto sentido para ela e Humbert Humbert de Vladimir Nabokov e sua Lolita imortalizada. Pensou na imortalidade de seu Amor, ele era como o cântico das baleias, teria de navegar longe para poder ouvi-lo, desamarrar seu barco de beira mar, e navegar em direção da beleza irregular dos olhos dele.

 

Miniconto extra. Presente para os meus leitores.

11 – Trânsito

Lançava-se nos passos na pressa incalculável. De repente, o tempo parou, seus passos diminuíram. Ficaram tímidos, como os olhos dos súditos ao soberano. Na floricultura, da esquina um lindo rapaz com um vaso de lírios. Ele saiu e foi em sua direção com um sorriso. E naquele instante, ela mirou a Beleza sem baixar os olhos. Encarou o verbo irregular, Beleza era teu nome. Estava ali o refúgio da arte que ela tão timidamente não acreditava que pudesse existir. Ela suspirou e perdeu a respiração. Seus olhos de ressaca fecharam-se, e seu corpo padecia no asfalto com pessoas ao redor feito urubus. O rapaz dos lírios foi quem atirou o lençol em seu corpo esmagado pela linha 331. A Beleza a encarou, tirando-lhe toda a razão. O tempo pra ela não tinha mais conjugações e a Beleza com lírios nas mãos exclamou: “Ela não olhou a rua ao atravessar.”

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