Ainda…

(…) que eu falasse
A língua dos homens
E falasse a língua dos anjos
Sem Amor…Eu nada seria.

 

José Saramago em “O Ensaio sobre a Cegueira” não deu nome para os seus personagens, porque ele dizia que somos uma coisa que não tem nome:

Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos.

Começo aqui o texto deste dia, não dando nome aos personagens. Segue abaixo um fluxo de pensamentos, uma criação por hora, um flash, palavras esparsas, eu poderia ainda não dar nome para este texto, mas achei válido…Eu não falo a língua dos anjos, e muitas vezes, nem as língua dos homens…

——————————————————————————————————————————————————————–

Ela, está deitada embaixo de uma árvore. Uma sombra fresca num dia qualquer. Não importa o dia aqui, apenas os momentos, e naquele momento ela está sendo invadida por pensamentos que a corroem por hora, outros, um belo sorriso sai sem querer. São tantos pensamentos naquela cabeça, que ela pode escutar o eco deles por horas e horas. As pessoas passam por ela, e ela apenas observa. O silêncio dela é uma incógnita, uma equação mal resolvida. Mas ela ali, tagarela com ela mesmo, e aquilo é bom, como um presente inesperado. Precisamos de um tempo sozinhos, ela pensa. A solidão não é tão ruim assim, solidão e um pouco de silêncio, todos nós precisamos disso um pouco, o barulho de milhão de passos e palavras expelidas pelos outros muitas vezes nos dá vontade de sumir e desaparecer, talvez pela nossa incrível sensação de não poder ser feliz o tempo inteiro. E debaixo daquela árvore, ela está deitada observando os galhos das árvores balançando, e folhas tímidas caindo em seu cabelo. O outono está chegando, e com ele, um vento tímido que por vezes a faz arrepiar os pelos dos braços, mas ali, naquele local, tal arrepio era bem vindo. Lhe traz lembranças doces, não tão distantes, mas pra Ela, parece que a saudade é maior do que sua capacidade de julgar quanto tempo duram alguns dias, poucos dias.

Tempo, Ela pensou, Ela gosta de pensar sobre o tempo.  Esses dias ela viu a foto de um relógio em Praga, e achou aquilo tão sublime, que ela já imaginava-se de frente pra aquele relógio, parada, contemplando aquela engenharia de horas, minutos e segundos, os ponteiros que jamais voltariam pra trás. Ela quer um relógio de pulso. Nos tempos modernos, muitas pessoas esqueceram a engenharia tão minimalista e simbólica, e carregam o comodismo de sempre olhar as horas no celular. Relógios de pulso lhe dá uma sensação efêmera e gostosa que o Tempo passa mais devagar, e lhe traz lembranças de seu velho pai, e sua coleção de relógios na parede, e um dos inúmeros sonhos dela é um dia ter um relógio de cuco na parede. Quando for oito horas da manhã e o cuco lhe avisar oito vezes em seu linguajar tão clichê, ela irá levantar-se da cama, e o cheiro de café fresco e pão na chapa com manteiga a tiraria o sono, assim como o perfume das damas da noite que florescem na morada de seus pais. Saudades daquele tempo distante da selva de pedra, de céus estrelados e galo cantando. Ela fez download de um som de cuco no seu celular de última geração, mas aquilo pra ela soava falso. Ela prefere um cuco ou um galo cantando na janela. Ela quer um relógio de pulso, colocou isso naquela cabecinha tão nebulosa, talvez compre um ainda naquela semana. Um relógio deixa os pulsos mais bonitos…Ahhhh as linhas de braço, pensou ela.

Ela gosta disso…Linhas de braços, veias e tendões aparentes. Muitas vezes os homens pensam que nós mulheres só vemos as coisas óbvias, assim como dizem por aí que todo homem primeiro olha a bunda, os peitos e só depois a cara. Ela gosta de linhas de pescoço, as veias fazendo um rio azul nobre, subindo braço acima, os tendões sutilmente aparentes que partem do pulso, surgem dos dedos. E a linha do pescoço, um pescoço branco, poderia ver a veias aparentes também, e sentir um cheiro natural atrás dos lóbulos da orelha. Ela aprecia ver os braços dele ao volante, ou quando carregam algo que faz os tendões ou veias aparecerem mais, ou quando lhe estende a mão, aparecendo o dorso do braço. Melhor que ver, com todo o disfarce por vezes desajeitado, os olhos baixos e um certo rubor na face, borboletas no estômago, um contorcionismo por dentro, era sentir os braços e suas trilhas pecaminosas. Escorregar vagarosamente as mãos, os dedos, subir da linha de pulso até os ombros, por vezes as mãos entrando por baixo das mangas de camiseta. Esquentar os braços dele, trêmulos e pelos arrepiados, numa noite gelada. Ela tão acostumada com os ventos minuanos do sul, não poderia deixar aqueles braços nus arrepiarem-se de frio. Ela acredita no poder dos centros energéticos, e é uma forma de carinho e gratidão esfregar os braços um do outro. Não há nada melhor que o calor humano. Ela queria estar ali, embaixo daquela árvore, deitada em seu peito, ele com os braços envolvendo-a, e ela delicadamente percorrendo os braços nus dele, ela poderia beijar cada trilha desenhada ali, anatomicamente perfeitas, o corpo humano pra ela, é uma maravilha ainda muito mal compreendida. E quando a noite caiu, as luzes noturnas e tímidas dos postes de uma rua do subúrbio, iluminou uma trilha de pecado, que vai da nuca até os ombros…Ombros que ela daria um reino por um beijo ou vários beijos que começam tímidos e por vezes desajeitados, com o medo de marcar a pele, o cheiro dele era tão profundo que ela tinha inconscientemente uma necessidade sinestésica de devorar o cheiro dele com seu beijo, mas ela se controlou. E por momentos, efêmeros, fitou bem de perto aquela trilha de pecado, e ela queria que ele devorasse seu pescoço ali, que a mordesse com uma selvageria dócil, descarada. Ela tem lenços e cabelos compridos para esconder as marcas, que cada vez que ela olhasse seu corpo desnudo e manchado no espelho, uma lembrança imoral com tons carmim invadiria os pensamentos, e enquanto o espelho fosse embaçando, a última coisa que desaparecia naquele espelho, seria seu sorriso, fruto de uma lembrança, que lhe pinta a memória como um quadro ou poema inacabado,” um pornô aristocrático”, um gozo perdido entre linha de pescoço e trilhas nobres de veias e tendões…

Anúncios

2 comentários sobre “Ainda…

Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s