Estação Montauk

 

Um anjo de 60 toneladas cai na terra

Uma pilha do metal velho, uma neblina radiante

Cicatrizes no país, o verão e ela

 

Estava lá a estação triste numa manhã de inverno. Ventos tão frios beijavam-lhe a face. Ela calçava velhas luvas, luvas que remontam desde os seus 15 anos. Suas mãos não cresceram, mas o seu senso crítico sim. Havia pombos urbanos naquela estação. Quando ela era criança, ela gostava de correr atrás deles, mas agora a sua reação era apenas nojo, aquelas aves eram imundas e se alimentavam dos restos deixados pelo homem. No horizonte, um urubu planava calmo, por entre as nuvens cinzentas. Estava bem agasalhada, havia um andarilho dormindo com roupas rasgadas e um velho cobertor. Ela não poderia ajudá-lo, se ela tirasse parte do seu casaco, ela sentiria frio. Foi na cafeteria e pediu um cappucino duplo e dois pães com manteiga e queijo, bem quentes. Dei uma sacudidela no mendigo que dormia, ele acordou, esfregou os olhos e se espreguiçou. A falta de banho dele não a intimidara. Ela lhe deu o café e os pães, e ele agradeceu com um sorriu, e um “Deus te abençoe”. O trem chegou, ela se despediu do andarilho e entrou na fila da locomotiva.

 

Quando era criança, Maria Helena foi visitar os tios numa cidadezinha pacata do interior, foi a primeira vez que viajou de trem. Quando ela era criança, ela dizia que um dia ela andaria naquela “centopeia de ferro”, e que ela queria ir para um lugar bem distante dali. Toda vez que ia para escola, Maria Helena passava em cima de uma passarela, lá embaixo ela via os trilhos, os trens e um rio, os trilhos e o trem, correndo lado a lado, e ela com sua pequena bagagem escolar nas costas. Ela adorava aquilo, e se debruçava na ponte, e perdia ali cinco minutos para olhar a beleza dos trens.

Agora, Maria Helena, aos seus 25 anos, estava dentro de um trem, amaldiçoando talvez o Tempo que a encara nos olhos, tendo saudades de um tempo onde sua única preocupação era tornar-se alguém um dia. E ela, dentro daquele trem, cercada de pessoas com as expressões sérias perdidas em páginas do jornal do dia, mas sabiam elas que a razão de viver estava além de pegar um trem todas as manhãs para ir trabalhar. Elas estavam ocupadas demais para dar um sorriso e contemplar a vida em frames de segundo que passava correndo pela janela da locomotiva.

 

Parou na segunda estação, entrou mais um mundo de gente, assim como aquelas que desceram. A nossa vida é assim, como uma estação. As pessoas entram e saem nas nossas vidas. Entram, sentam ao nosso lado, dizem “Bom dia”, falam sobre as notícias do dia, algumas, ficam por um bom tempo, outras apenas dão um sorriso, e vão embora sem nem ao menos dizer Adeus, sem nem ao menos olhar para trás. E nós seguimos, dentro do nosso trem de emoções, dirigidas pelo nosso senso de ir e vir. De estação em estação, vamos traçando nossa história, como se a nossa frente houvesse um pergaminho e caneta tinteiro. Algumas pessoas mancham suas vidas derramando tinta em seus pergaminhos, outras escrevem via linhas tortas e dissimuladas. Outras não escrevem nada, vivem apenas por viver, logo vive uma vida vazia de emoções, apenas esperando a morte chegar. Existem várias dessas pessoas por aí. Maria Helena encontrou uma pessoa dessas, Roberto era seu nome, e o sopro de vida que existia em seu peito, se foi numa manhã de outono…

 

O conheceu na estação Montauk. O dia estava mais bonito, era outono, e folhas castanhas inundaram o pátio da estação. Aquele rapaz, sempre estava lá, carregando uma sacola de livros, mas sempre com o semblante triste. Era um belo rapaz, mas havia algo ali que a perturbava. Se ela fosse um cão, poderia lamber o seu rosto, pois por mais que ela nunca tenha visto lágrimas em seu rosto, o cão saberia que ali tinham lágrimas retidas. Um cão pode saber quando seu dono poderá ter um ataque cardíaco, logo, crê ela, que um cão sabe prever a tristeza e emoções escondidas.

 

Naquele dia, Maria Helena decidiu comprar um jornal. Ela esqueceu seu livro na pressa de acordar atrasada. O celular caiu no chão enquanto dormiu, a bateria soltou. Então não tinha nada, além do próprio sexto sentido dizendo-lhe que estava na hora de acordar. Foi embora, correndo, e a echarpe em seu pescoço tremulava junto aos seus passos tão apressados. Foi quando chegou a Montauk, que percebeu que seu livro estava em vão, esperando na escrivaninha que ficava na cabeceira da sua cama. Ela se dirigiu à banca, e foi lá a primeira vez, que ela viu os olhos de Roberto, e eles eram de uma beleza indiscutível, triste e sem conjugações. Tinha o rosto já atordoado pela passagem do tempo, e talvez aquela tristeza fosse a que lhe chamou atenção. Ele folheava os jornais, e sempre usava uma touca de lã. Ele olhou pra ela, e apenas abaixou a cabeça. Maria Helena sorriu, na tentativa de ser simpática, mesmo por dentro compartilhando a tristeza que ela via nos olhos daquele rapaz. E de repente, enquanto ela folheava os jornais, sentada no banco da estação, “Meu nome é Roberto, e o teu?”, e ela levantou os olhos, ele não estava sorrindo, mas aqueles olhos pareciam sorrir. E ela respondeu “Maria Helena”. Roberto olhou-a por um tempo, e não disse nenhuma palavra. Sentou ao lado dela, no trem, e em suas mãos estava a mesma sacola de sempre. Cheia de livros. Maria Helena olhava curiosa, e ele apenas disse, “Amo livros, vou todos os dias ler no parque, perto da penúltima estação. Você costuma passar lá, no horário do teu almoço, e senta-se perto do banco de um chafariz, com um bloco de anotações. E sempre sai de lá com uma folha de outono pendurada nos cabelos”. Maria Helena riu num misto de surpresa e certo medo. O silêncio dele permaneceu, e ele desceu na penúltima estação, depois de dizer-lhe Adeus e entregar-lhe uma chave e um endereço. Maria Helena olhou pela janela. Ele sorria e acenava um adeus pra ela pela janela. Foi a primeira e última vez que ela o viu sorrir.

 

Foi trabalhar, foi um dia exausto, e ficou pensando a manhã inteira, na chave e no endereço. Saiu para almoçar, passou pelo parque, no mesmo horário, queria encontrar-se com Roberto, e entender aquele enigma que a perseguia e que a tirou do sério. Embaixo de uma árvore, adiante do chafariz, próximo do banco que costuma sentar após o almoço, havia uma centena de pessoas. Carros de polícia, sirenes, camburão do IML se aproximando. Um aperto no peito, e aos poucos num desespero, ela entrou no meio da multidão, e encontrou ali, deitado no chão, Roberto, morto, com um sorriso no rosto, com um livro de poesias de Rimbaud aberto sobre o peito, ela se abaixou, segurou-lhe as mãos frias, pegou o livro, havia uma rosa dentro, e na página marcada, havia um poema, do qual ela nunca se esqueceu:

 

 

“Pelas tardes azuis do Verão, irei pelas 
sendas, 

Guarnecidas pelo trigal, 
pisando a erva miúda: 

Sonhador, sentirei a 
frescura em meus pés. 

Deixarei o vento banhar 
minha cabeça nua. 

Não falarei mais, não 
pensarei mais: 

Mas um amor infinito me 
invadirá a alma. 

E irei longe, bem longe, 
como um boêmio, 

Pela natureza, – feliz 
como com uma mulher.”

 

Maria Helena chorou naquele momento, nunca havia chorado por um estranho. O policial perguntou se ela o conhecia. Ela mentiu, disse que sim. Acompanhou todo o processo, no laudo de morte, estava suicídio por ingestão de remédios, visto o vidro de barbitúricos jogado ao lado de teu corpo. Viu seu corpo sendo envolvido em um saco preto, e seu sorriso indo embora quando o zíper se fechou. Aqueles olhos já sabiam de sua morte.

Pediu para sair mais cedo do trabalho. Chamou um táxi quando chegou à estação Montauk. Passou ao taxista o endereço. Quando chegou lá, era uma casa pequena, pintada de azul, tinha rosas, tulipas e girassóis no jardim. Colocou a chave na porta, estava apenas fechada com um giro. Ela olhou aquele lugar, tinha perfume de rosas, uma calma perseverante e incomoda. Na sua escrivaninha, havia desenhos, muitos desconexos, alguns em preto e branco, outros coloridos. E no meio deles, havia uma gravura, uma mulher, olhando lá fora, com um livro no colo. Essa mulher tinha uma echarpe vermelha no pescoço, que combinava com os lábios carmim. Era ela, ali, olhando pela janela e sonhando com bisões extintos. Ela era ali, um refúgio da arte. No verso da folha, estava escrito um trecho, era Rimbaud novamente:

 

De manhã, eu tinha o olhar tão perdido e a postura tão morta, que aqueles que encontraram talvez não me vissem.”

 

Maria Helena ajoelhou-se no chão, suas lágrimas caiam naquela gravura. E de mansinho, ela sentiu uma lambida no rosto. Era um cão, um labrador caramelo. Ele deitou-se ao teu lado, depois de secar todas as suas lágrimas e eles adormeceram no chão da sala. Maria Helena ficou com o cão. Ele carregava uma placa na coleira, seu nome era Rimbaud…

 

Tirou umas férias, depois deste acontecimento, ela precisava de um pouco de paz. Passeava com Rimbaud todas as manhãs, e ele a acordava, com lambidas no rosto. Estava tudo bem agora. Ela continua indo todas as manhãs para Montauk, pegando os trens, carregados de desejos e sonhos. A chuva de inverno caia lá fora, encharcando as pessoas de loucura. Ela olha através da janela, ela ainda sonha que é uma criança de cabelos bagunçados, e nesse sonho, ela brinca com locomotivas, e ela pode ouvir a locomotiva apitando, e elas passam apenas por uma estação, e pela janela, ela sempre vê Roberto acenando Adeus…

 

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