A loucura das quatro estações – Parte 1

1 – Muito prazer, meu nome é Verão e eu aqueço sua alma.

Elisa estava na praia, caminhando. Sua família estava embaixo de um guarda-sol observando ao redor. Algumas crianças cavavam buracos, outras construíam castelos, uns pequenos, outros grandes. E as crianças não tinham pressa, ou falta de paciência. Se chegasse alguma onda e destruísse o castelo, elas andavam outros passos à frente e construíam outros, muitas vezes melhor que os primeiros. E as mães as chamavam para reaplicar o protetor solar. Elisa gostava do sol, ela gostava de sentir os raios do soberano sol lhe tocando a pele. Quando chegava na praia, pela manhã, sentia um pouco de frio, mas este logo passava quando ela se colocava a caminhar pela areia, e logo alguns poucos minutos, o primeiro suor escorria-lhe pela testa, e ele tinha um gosto salgado. Elisa queria se enferrujar com a maresia. Estava de saco cheio de uma vida de regras. Ela via os barcos pesqueiros no horizonte, e pensava na liberdade. Ela queria um barco, só pra ela, e sairia por aí, sem rumo, sem destino, talvez escreveria uma mensagem numa garrafa e jogaria no mar. Cada mensagem seria a continuação de uma estória, uma estória com meias verdades de uma história, e uma estória de mentiras mal contadas ou mal interpretadas, mas aquilo ali, não deixaria de desembocar na areia aos pés de um desconhecido, talvez alguns cinquenta anos depois, quando seu corpo já estiver atirado ao mar, devorado por tubarões. Se ela morresse, em terra firme, gostaria de ter o corpo cremado, e que suas cinzas fossem jogadas ao mar. E ela queria que isso fosse feito em dia de chuva. E ela pensava nas pessoas de preto, encharcadas. Seu espírito estaria ali e as lágrimas daquelas pessoas se misturariam com a chuva, e a beleza da dor seria algo tristemente bonito. E o barco pesqueiro tremulava no horizonte. Ela pensou em Santiago e Manolin, personagens de um livro de Hemingway. Seria Elisa, o velho ou Manolin?Sua falta de sorte a perseguia, talvez estivesse mais para o velho Santiago, se ela tivesse um velho barco e um par de remos, colocaria roupas velhas e sairia pra pescar. Talvez pegasse um marlin que mais tarde seria devorado por tubarões, ou ficariam alguns anos sem pegar peixe algum. No seu mundo de delírio, ela faria amizade com uma gaivota, e como um gavião da Mongólia, ela treinaria a gaivota para lhe buscar peixes. E assim, não morreria de fome. E o Sexo, e o Amor, onde estaria?Seu Amor seria unicamente a vida, e o sexo não existiria. Uma mulher ao mar se esqueceria de aquecer o coração em meio de suor, saliva, beijos, deslizes… Ela não veria uma viv’alma, seria ela ali, ela, os deuses e as estrelas guiando-a mar adentro.

"Se vai tentar, Vá em frente. Não há outro sentimento como este Ficará sozinho com os Deuses E as noites serão quentes Levará a vida com um sorriso perfeito É a única coisa que vale a pena." Charles Bukowski
“Se vai tentar,
Vá em frente.
Não há outro sentimento como este
Ficará sozinho com os Deuses
E as noites serão quentes
Levará a vida com um sorriso perfeito
É a única coisa que vale a pena.”
Charles Bukowski

Estava calor e Elisa caminha na orla, as marolas batiam ora tímidas, oras com fúria, em seus pés. Rapazes de corpos atléticos a olhavam, mas não era aquele mundo que a pertencia. A Beleza para Elisa era apenas um ponto a mais. O que a cativava eram pessoas que observavam o mundo tal como o seu, pessoas que ao encontrar uma água viva, parassem no meio do caminho e pensassem na beleza daquele cnidário, passeando pelo mar, e quando o sol bate no corpo, assume a forma de um prisma. Ela apreciava a Beleza, ora mortal das águas vivas, e lembrou-se do dia que sentiu os tentáculos de uma delas chicoteando na perna. Não foi agradável, mas era a forma daquele animal se proteger. Nada mais justo. A natureza tem lógica, complexa, mas tudo nesta vida tem sentido. O sol lhe aquecia a cabeça, estava pegando fogo, precisava de uma boa sombra agora.

“Acorda Elisa… Consegue escutar a minha voz?”Elisa acordou, imobilizada numa cama em um hospital psiquiátrico. “O que sonhava Elisa?”, perguntou a enfermeira jovem mas com primeiros fios brancos querendo surgir. Elisa sonhava com a praia, com o horizonte, e o verão dilatando os seus poros. “Elisa, está na hora de seu banho de sol querida, é verão e o dia lá fora está lindo.”, “Terá águas vivas? Golfinhos e navios pesqueiros?”, “Sim Elisa, no jardim encontrará seu mundo”. E então Elisa, fazia do jardim do hospital, o lugar onde tanto amou nessa vida, um lugar onde a vida da sua família foi ceifada por um naufrágio. Mas ela apenas se lembrava de ter sido socorrida por pescadores de marlins.

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