A semiótica de uma mosca delirante na janela através dos olhos de uma mulher.

Serei eu meu próprio delírio?

Do alto da sacada de seu apartamento, Lola colocou-se a pensar no tempo e em delírios. Havia uma varejeira grande e verde rodeando o vidro da janela. Sorte que a porta está fechada…Aquela mosca nojenta poderia entrar e pousar na sua comida, ou nas suas emoções perdidas durante a noite de sono. Segurava uma xícara de café, sua vida insone clamava por cafeína todas as manhãs. A insônia era uma (in)sanidade que a perseguia de noite, debaixo de cobertas, embaixo das hélices barulhentas de seu ventilador de teto, mas dentro dela, um silêncio devastador, que pode ser escutado na banda de pensamentos tão altos quanto o barulho de uma fanfarra em dia da independência. Era um silêncio, quieto, e muitas vezes inoportuno. Seu grito é uma canção muda, escutado por poucas pessoas. Talvez aquela mosca na janela a compreendesse. Porque não? A mosca oportunista esfregava as patinhas, e talvez, se existisse alguma aranha por perto, com suas teias, talvez aquela mosca poderia ser um lanche matinal. Uma aranha, grande, peluda e misteriosa, chegaria na surdina e nhac!Envolveria a pobre mosca em teias, e a mosca estaria lá, sonhando, com alguns restos de comida em cima da mesa que ela via através do vidro. Ela poderia ser atacada, a vítima do próprio sonho. Somos todos predadores, mas há sempre um caçador à espreita, e no delírio daquela mosca, estavam farelos de comida em cima da mesa. Era algo tão simples, bastava atravessar a janela.

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O vento balançava seus cabelos, do alto daquela sacada a vida era miúda, mas não deixava de ser bonita. Era como suas olheiras no espelho do banheiro. Era fruto de algo tão trágico, mas ela gostava do seu rosto. A insônia não a tornava mais feia, a Beleza é relativa. Noites mal dormidas tinham seu “q” de beleza e importância. Ela poderia tirar o sábado para dormir, deitar um pouco de suas emoções na luz do dia, e acordar de madrugada para fazer uma xícara de chá e sentar-se na sacada do apartamento, para observar as estrelas e imaginar uma cena de um quadro de Salvador Dali, e talvez cantarolar alguma canção oportuna para aquele dia, cantar baixinho, pois sua timidez não permitia barulhos mais altos do que o zunzum da mosca inquieta e gulosa que rodeava o vidro. A mosca estava faminta, se Lola tivesse olhos de microscópio, poderia ver a salivação daquela mosca, suas 4 pupilas dilatadas, lembrou das aulas de Biologia…Uma mosca pode ter de dois a quatro olhos. Era o prazer da fome, esfregando as patinhas umas nas outras, seus pelos eriçados, e aquilo pra ela era como sexo. A fome e o ato de comer quando se está faminta, libera endorfinas tão boas quanto a ocitocina liberada numa noite de prazer. Lola queria ocitocina, mas aquele café já frio por causa dos pensamentos oblíquos e dissimulados, já lhe causava uma dor de estômago. E ela queria ser um farelo, tão desejado nos sonhos de mosca de alguém, ela imaginou aquela mosca ali, passeando sobre a comida, esfregando as pernas, beijando cada parte de seu desejo, os pelos da mosca contra seu pedaço, seu pedaço de emoção. Ohhhh, seria tão bom, pensou ela…E bebeu um gole frio e forte de café. Era aquele último gole, e ele desceu e caiu no estômago, e se juntou as borboletas que dançavam em seu ventre ativadas com a simples imagem de um pensamento, ela, Lola, um farelo de pão em cima da cama, amado e desejado por uma mosca. Ou em cima da mesa, debaixo de um chuveiro, porque sexo, pra ela, era como um slogan dos produtos da Teka…Cama, mesa e banho…Se ela tivesse um namorado, gostaria que ele a chamasse de Teka, e ela seria o lençol macio que deslizaria sobre o corpo, a toalha que envolve o corpo molhado, a toalha de mesa onde a gula poderia ser ignorada como um pecado capital.

Em cima da cama, em cima da mesa, embaixo de um chuveiro de água fria ou quente. Sexo é algo que não deveria ter divisão de cômodos...
Em cima da cama, em cima da mesa, embaixo de um chuveiro de água fria ou quente. Sexo é algo que não deveria ter divisão de cômodos…

E o mundo continuava lá fora, debaixo de sua sacada as pessoas e as coisas eram formigas. Os sonhos lá fora eram minúsculos, ela via o caos de um formigueiro remexido. Pessoas trabalhando para ter um lugar para chamar de seu, carregando o alimento em marmitas, cada dia uma luta, travada entre um chute e outro. Quando Lola era pequena, na esquina de sua casa tinha um formigueiro. Na sua inocência e curiosidade infantil, ela chutava o formigueiro com seus velhos tênis Ked’s, sentava na beira da calçada, e via a dança das formigas, carregando seus ovinhos brancos, carregando grãos de terra. Era preciso colocar as estruturas abaladas de novo no lugar. E quando o caos se instalasse novamente, sempre haveria força para continuar. Ela, Lola, é como uma formiga. Convive no meio do caos, carregando suas emoções e delírios nas costas, e tem horas, que seu formigueiro está quieto e silencioso, em outras horas, um turbilhão de chutes no escuro a traz pra fora.

E agora só ficou os restos de açúcar mal dissolvidos em sua xícara. E o seu olhar perdido no horizonte, e a mosca naquele vidro, excitada e louca para entrar. Lola poderia atiçá-la com o resto de açúcar em sua xícara, poderia deixar a xícara intencionalmente descansando na sacada, seria a mosca então atraída por ela?Não, talvez atrairia um linda abelha, abelhas clichês, amarelas com listras pretas. Aquela mosca não era fácil, era determinada. Ela quer o desafio, e fica ali, pacientemente pousada no vidro, esperando que Lola abra o caminho. Era uma mosca em chamas, o calor da fome a consumia. E ela não desistiria, ela quer o farelo de pão em cima da mesa, e o Tempo para aquela mosca não era um empecilho. Esperaria o tempo que fosse, ela não quer aquele açúcar fácil em cima da sacada. Coisas fáceis não atrai os sonhos daquela varejeira. Estava ali, no vidro, uma mosca…Seria Lola, um delírio dela?

Os homens são delírios das moscas, que não passam de uma ilusão dos homens

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2 comentários sobre “A semiótica de uma mosca delirante na janela através dos olhos de uma mulher.

  1. Eu também não sei assobiar até hoje!Com 25 aninhos nas costas!Estava lendo teu blog, e gostei muito, tanto é que já está no meu reader. Fico muito feliz que tenha gostado. Cada novo leitor é como uma nova linda flor no meu jardim de emoções. Não sou uma escritora famosa, apesar de um dia pretender lançar um livro. Acredito que um dia vou ser escritora, não de best-sellers, mas daqueles livros com poucos e belos leitores cativantes. Seja bem-vinda ao meu mundo, e fique à vontade para comentar. Se tiver facebook, me adicione lá. Tem o link no meu perfil. Abraços!

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