Um conto em três atos: O Sonho, A Beleza e a Razão

E de uma vez eu soube que não era magnífico
Perdido acima do corredor da estrada
(Vagas irregulares, cheias de gelo)
Eu poderia ver por milhas, milhas, milhas

Ato 1: O sonho

Isabela sonhava. Sonhava que estava voando por cima de um campo cheio de lírios. Ela se sentia leve como uma borboleta, e o desabrochar de um milhão de flores tímidas encharcadas de lirismo enalteciam sua alma. Ela já estivera ali antes, em tempos remotos, andando com sua velha bicicleta amarela, já enferrujada pela umidade do tempo. E ela corria naquele campo, quando seus pés preparavam seu pouso, por vezes desengonçado. Nem os urubus na arvorezinha de galhos retorcidos e secos, tiravam a beleza daquele lugar. Naquele sonho, naquele lugar que ela poderia chamar de seu, amanhecia um dia de cores multicoloridas, e seu desejo incontido de ser a nuance principal daquele jardim de delícias e prazeres angelicais, se diluíam quando ela escutou o despertador a chamar para a realidade. Ela que estava tão confortável embaixo de suas cobertas protetoras, acordou com o som do carro de gás que passava na rua e com o latido incontrolável do seu cão.
Abriu os olhos, timidamente, ela queria acreditar que ainda estava sonhando, mas o cheiro de café e pão na chapa que seu pai fazia todas as manhãs, a chamou para fora da toca. Sonolenta, mas com um sorriso preguiçoso nos lábios, deixou as roupas irem caindo pelo chão e foi para o banho. Ligou o chuveiro, esperou o primeiro vapor embaçar a sua face amassada refletida no espelho do banheiro. Ela tinha ali, olhos de ressaca, tal como Capitu, de Machado de Assis, uma incoerência coerente surgiam no brilho de seu olhar. E os cabelos vermelhos desbotados e bagunçados, ficaram úmidos com o vapor que emanava da ducha. Entrou no banho, usou um sabonete de lavanda e se colocou a pensar no seu sonho. Algo ali poderia ser real. Talvez ela poderia ganhar um lírio, tal como viu no seu sonho, ou ela poderia trombar com borboletas multicoloridas quando cruzasse o jardim da sua casa. E ela ficou ali, de cabeça baixa, deixando que aquele banho morno trouxesse suas emoções oníricas em forma de relaxamento. E ela se sentiu bem, em paz, ali naquele mundo real, ora tão cheio de ódio e tristeza, naquela manhã ela se permitiu olhar o mundo com mais Amor e Esperança. Nem tudo está perdido, pensou ela, ainda há esperança de existirem pessoas com nuances de um arco-íris, que nasce num horizonte infinito e acaba em seu coração, tão desajeitado e maltratado pelas areias do tempo.

2 – A Beleza

A Beleza é um verbo irregular ao qual não se conjuga. Isabela anotou isso no guardanapo de papel que seu pai colocou em cima da mesa. Embrulhou o papel e meteu ele num cantinho da bolsa. Ela estava empolgada, iria para faculdade naquela manhã, sem se sentir entediada com as aulas de “Blá blá blá”, nome que ela dava para aquelas matérias que eram apenas pura encheção de linguiça. Aulas que a faziam escrever momentos e lapsos de razão ou a falta dela, em meio de linhas tortas e sonolentas. Perdeu seu fone de ouvido em algum lugar, ela não conseguiria, até arrumar dinheiro para um novo fone, fingir que estava tendo uma aula agradável. Ela estava ali, presente de corpo físico, mas ali, nas aulas de “Blá blá blás”, ela pensava apenas em anjos e bisões extintos, e que deveria estar fazendo Artes Visuais ao invés de Sistemas de Informação. Talvez assim, seu esconderijo no refúgio da arte, tivesse tanto sentido quanto Humbert Humbert de Nabokov.
Isabela abraçou o pai, e partiu em direção à rua que seguiria durante meia hora até chegar no campus da faculdade. Ela queria poder ler um livro e andar ao mesmo tempo, sem que isso a fizesse esbarrar nas pessoas, sem que essas pessoas tão ranzinzas a encarassem como uma louca fora do ninho. Ninho de proteção…Ela criava sua própria redoma de vidro, quando se sentia ameaçada. Não ousava olhar nos olhos de um rei, não era como um gato. Dizem por aí que somente gatos tinham coragem e loucura suficiente para olharem fixamente nos olhos de um soberano. Quando ela via um par de olhos que a chamava para fora da toca, ela mirava o chão ou a mesa de madeira da sua sala, ou qualquer outro ponto fixo que a tirasse da sensação de se deixar seduzir. A Beleza, segundo a definição de Isabela numa tarde de domingo depois de se embriagar na solidão de seu quarto, enquanto observava os cães copulando desenfreadamente no jardim, era como os ponteiros de um relógio invertido, com ponteiros tortos, que contavam os segundos em direção contrária. A Beleza, pensava ela, atrasava a razão e a eloquência de raciocínio. A Beleza deveria ser evitada, pois a beleza vicia, e nos tira toda a noção da realidade. Ela pensou na beleza de seu sonho, e o quanto este fato fez o tempo correr mais devagar, pois a Beleza nos faz perder o rumo, e os segundos passam devagar como o desabrochar de uma flor. Pétala a pétala, a Beleza nos embriaga com seu perfume. Isabela chegou na sala de aula e desembrulhou o guardanapo de papel que trazia na bolsa, e quando começou o blá blá blá, traiu suas convicções e pensou numa Beleza que não se conjuga…E a sala se encheu de lírios.

3 – A Razão

As aulas acabaram naquele dia. Ela saiu da faculdade apressada, pois seu pai a esperava para visitar os avós. Ela, de início, lançava-se nos passos com uma pressa incalculável. De repente, o tempo parou, seus passos diminuíram. Ficaram tímidos, como os olhos dos súditos ao soberano. Na floricultura, da esquina um lindo rapaz estava comprando um vaso de lírios. Ele saiu pela porta e foi em direção à ela. E ele tinha o sorriso e os olhos mais belos que ela já viu na vida. E naquele instante, ela mirou a Beleza sem baixar os olhos. Ela permitiu-se encarar o verbo irregular com os olhos de ressaca. Estava ali o refúgio da arte que ela tão timidamente não acreditava que pudesse existir. E ele segurava um lírio, tão lindo quanto aqueles que ela via desabrochar em seu sonho…Ela suspirou e perdeu a respiração. Seus olhos fecharam-se, e seu corpo padecia no asfalto. O guardanapo manchado de sangue, pessoas ao redor feito urubus. O Belo rapaz dos lírios foi o que atirou o lençol em seu corpo esmagado pela linha 331. A Beleza a encarou, e o tempo ali passou a ser irregular. O tempo parou pra ela. A Beleza tirou-lhe toda a razão…O tempo pra ela não tinha mais conjugações.

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