Domingo chuvoso, visões aleatórias numa janela.

Sim, minha letra é feia bagaralho, principalmente quando estou com a hiperatividade mental em nível absurdo.
Sim, minha letra é feia bagaralho, principalmente quando estou com a hiperatividade mental em nível absurdo.

Então, vamos lá!Antes que comece este texto, que provavelmente vai ser a coisa mais insana e débil que eu já escrevi nesse humilde espaço, tenho que explicar a situação. No último domingo eu estava numa pizzaria muitíssimo bem acompanhada. Estava com fome, muita fome, o queijo gorgonzola e a pizza de banana nunca tiveram um gosto tão divino. Dias de chuva me inspiram, alguns me deixam cinzenta, mas neste domingo não tinha como e nem porquê de encarnar “Ana, a cinzenta”, afinal, como eu disse, estava bem acompanhada. Em cima da mesa que sentamos tinha um bloco de papel, e nós sentamos ao lado de uma janela panorâmica. Estava chovendo lá fora, e dava pra ter uma visão maravilhosa da rua, dos carros, das pessoas, ou seja, a vida lá no mundo exterior. Nas Tags da postagem, contém as anotações que fiz no restaurante, enquanto olhava lá fora e mastigava um pedaço de pizza de pepperoni, minha pizza favorita. No meio de gravuras de arte, uma conversa agradável e pensamentos aleatórios, pedi uma caneta para o garçom. Espero que gostem, mas digamos que o que vai sair daqui pra baixo, poderá não ter sentido nenhum. Então, se não tiver uma mente, digamos, expandida, por favor, pule o que vêm daqui pra frente e vá ler Cinquenta Tons de Cinza.


1 – Mingau de Aveia

Na mesa da frente, havia uma família sentada com três crianças. Crianças bem alegres, falantes. Uma delas não queria comer a pizza de brocólis. E o pai dessa criança dizia: “Vamos papar, só um pouquinho”. Foi esse o estopim para trazer a tona uma memória perdida. Eu tinha de quatro a seis anos, e lembro-me de meu pai, que fazia mingau de aveia ou mingau com farinha láctea, não me lembro ao certo qual dos dois, mas lembro-me que era por volta das sete horas. Eu não comeria o mingau se não houvesse uma chantagem emocional. Naquela época, eu queria ser bailarina. Meu pai, um dia, me levou para ver uma apresentação de balé, o lago dos cisnes, nunca esqueço. Era o meu sonho, calçar sapatilhas e sair dançando por aí…

No fim, não realizei o meu sonho de ser bailarina. Mas acredito que sei dançar igual o Timão aí...
No fim, não realizei o meu sonho de ser bailarina. Mas acredito que sei dançar igual o Timão aí…

A chantagem emocional ficava por conta de um porta jóias que eu tinha. Quando ele abria, tinha uma bailarina que dançava. A chantagem era a seguinte: “Coma duas colheradas de mingau, e eu te mostro a bailarina”. E eu engolia as duas colheres de mingau, e meu pai colocava a bailarina pra dançar. Eu ficava na pontinha dos pés, e imitava toscamente a bailarina que dançava no espelho. A música que tocava, consigo lembrar-me dela até hoje, até poderia assovia-la, se eu soubesse assoviar, mas como eu, mulher com 25 anos, não sei assoviar, vou deixar a música daquele porta jóias, guardado no confim da minha memória. E eu me lembrei, naquele exato momento, no meio da pizza de marguerita, que meu pai dizia, “Vamos papar, e então eu coloco a bailarina pra dançar”…

2 – Picape Amarela

Naquele tempo chuvoso lá fora, passou uma picape amarela, mas daquelas bem amarelas mesmo, amarelo igual um girassol. E eu lembrei do girassol plantado no quintal da casa dos meus pais. Eu não sei se aquela grande e bela flor ainda existe, ali, plantado naquele lugar que eu amo tanto. E vendo aquela picape amarelo-girassol, eu me lembrei de um quadro do Van Gogh, “Doze girassóis numa jarra”. Enquanto eu estava ali, tinha um girassol pensando no refúgio da arte, em meio de tantas páginas de arte e semiótica. E eu fiz minha analogia ali, aquela picape amarela, o girassol no jardim do meu pai, e o girassol como um refúgio de arte. E ele não estava encolhido, como o girassol do jardim do meu pai, em tempos indecisos. Ali naquele momento, ele estava belo e incógnito.

Girassóis...
Girassóis…Doze girassóis numa jarra…

3 – Luzes Verdes

Na praça de convivência de Campinas tem luzes verdes. Essas luzes verdes combinam muito com toda a variedade de flora que existe naquele local. Dava inclusive um tom psicodélico para as folhas e flores de tons lilás-violeta, que estavam naquele local e com a echarpe verde-musgo que eu trazia no pescoço.

4 – Guarda Chuva discreto, medo da chuva, gente aleatória, gordinho corredor, a mulher com sacola de supermercado na cabeça.

As pessoas passavam naquele local, e havia ali vários perfis delas. Existiam aquelas que não se intimidavam pela chuva. Passavam ali deixando as gotas de chuva limparem seus pecados ou trazer, quem sabe, um pouco de dignidade, ou a simples sensação gostosa de estar na chuva e se molhar. Passou um gordinho correndo, não sabia se ele suava por conta da atividade ou se era a chuva que o deixou molhado, naquela confusão ali, acreditei que fosse os dois. E eu lá fazendo gordisse, mal pensando em exercícios, já estava com o corpo dolorido devido ao exercício daquela manhã de domingo. Eram muitas pessoas, passeando por ali, cada uma com suas manias e atitudes randômicas, inclusive usando guarda-chuvas de cores incomuns, verde-água. Eu vi aquilo e pensei no mar, naquelas praias paradisíacas . Mas a que mais me trouxe um “q” de “inacreditável”, foi uma mulher caminhando na praça com uma sacola de supermercado na cabeça. Nós vimos aquilo e eu tive uma crise de riso. E tentávamos até então entender o que leva uma pessoa num domingo chuvoso, meter uma sacola de supermercado na cabeça e sair pra caminhar. Não é mais válido pegar um guarda-chuva ou simplesmente adotar a frase “Se está na chuva, deixe-se molhar!”. Mas, vai ver que aquilo era uma nova moda. Novidades vivem surgindo por aí, mas aí está uma moda que eu não seguiria. Fazer amor embaixo da chuva é uma coisa que eu quero fazer um dia, mas sem sacolas na cabeça. Isso foi uma frase que eu escrevi no papel. Eu gosto de chuva, mesmo me deixando cinza, tempos de chuva são inspiradores e extremamente sensuais.


5 – Garibaldo e placas amarelas de trânsito.

Isso aqui vai ser curto e sem nexo, talvez tenha um sentido apenas pra mim…Eu lembrei do nome do personagem que eu associei às placas amarelas de aviso de obras, que eu vi na estrada. O pior foi eu falando “Como é mesmo aquele personagem que é um pintão amarelo cheio de penas?”, e eis que no restaurante o Garibaldo apareceu. Vila Sésamo!

Isto é uma placa de advertência de sinalização de trânsito.
Isto é uma placa de advertência de sinalização de trânsito.
Isto é o Garibaldo do Vila Sésamo.
Isto é o Garibaldo do Vila Sésamo.

Resumindo, eu via aquele bando de placas amarelas e pensava no Garibaldo. Cores, sempre me trazendo associações um pouco medonhas. Eu via as placas amarelas e pensava no Garibaldo pedindo carona na estrada. Mas estava chovendo, e ele poderia estar com cheiro de galinha molhada. Não, isto não faz nenhum sentido. Mas pra mim teve, então isso é importante. Quando as coisas da nossa própria cabeça não fazem sentido nenhum para nós, é hora de se internar.

6 – Red Hot Chili Peppers, Blade Runner.

Tocou uma música do Red Hot, ao qual eu gosto muito. Isso me lembrou dos tempos de colegial. Pessoas passavam embaixo da chuva pedalando na praça. Um senhor com um guarda-chuva prateado passou duas vezes por ali. Na primeira, passou de mãos vazias, na segunda, com três sacolas de supermercado cheias. O guarda-chuva prateado dele me fez lembrar de Blade Runner, e num universo onde não teríamos capacidade de distinguir humanos de androides. Talvez aquele senhor ali fosse uma máquina perfeita de forma humana, mas era apenas um senhor de idade de ritmo calmo e cabelos brancos.

Fly away on my Zephyr…

7 – Um milhão e meio de gatos mortos.

Além de desviar os pensamentos para os antigos cachos da minha irmã, eu tenho o costume de pensar em gatos mortos, quando preciso que algo saia da minha casa. Eu fico repetindo na minha cabeça, ‘Um milhão e meio de gatos mortos”. Eu ouvi a frase “Eu sou guloso”. Pra quê??Por quê?E na minha cabeça, um milhão de gatos mortos precisaram entrar em frames por segundo, antes que eu fique ruborizado e mais úmida do que o tempo que estava lá fora. E então no meio do pensamento dos gatos mortos e tentando me concentrar no sabor do suco de melão que estava na minha frente, eu me peguei pensando que não haveria a possibilidade de existir a possibilidade de “um milhão e meio de gatos mortos”, porque simplesmente não existe a possibilidade de um gato estar apenas meio morto. Depois veio um “Ana, como você é besta”. Então eu voltei a pensar em gatos mortos, mas desta vez, apenas em um milhão. A tática dos antigos cachos não funcionava mais. Naquela hora eu fiquei com a aura vermelha, e pensando no teu olhar debaixo da renda da minha blusa. Mas aí eu tive que pensar em gatos atirados da janela do segundo andar. Talvez eles caíssem de pé, mas e se tivesse um pão com manteiga amarrado nas costas? A manteiga sempre cai pra baixo, para a infelicidade de nossas mães. Talvez o gato caísse de costas, e morresse, ou, segundo a tese da gravidade, teríamos um gato que flutua. Quando eu penso em sexo, em lugares indevidos, eu penso em gato morto. Fora isso, eu não me preocupo muito. Dessa vez eu pensei em milhares de gatos mortos com pedaço de pão nas costas, alguns flutuando, outros mortos, outros atirados da janela do segundo andar…

Na idade média, ninguém tinha coragem de olhar nos olhos do rei. Apenas os gatos faziam isso.

Na minha cabeça, gatos flutuavam enquanto algumas cenas inapropriadas para menores teimavam em surgir.
Na minha cabeça, gatos flutuavam enquanto algumas cenas inapropriadas para menores teimavam em surgir.

8 – Clichês

Na frente da pizzaria, tinham cones listrados. Pensei em abelhas africanas. Sim, isso foi um clichê, e por um instante tive vontade de comer panquecas com mel.

Isto é um cone...
Isto é um cone…
{wk3lmrx2gyenv8h834frlguav80vbk}_abelha africana
Isto são lindas abelhas fabricantes de mel, que nada mais é que vômito de abelha. Aprendi isso no “Mundo de Beakman”.


9 – Verbo irregular no presente do indicativo

Presente do Indicativo
tu colores
ele colore
nós colorimos
vós coloris
eles colorem

Cadê o eu aí?Impossível conjugar. Aprendi isso na quinta série e nunca mais esqueci. Quando eu estou em frente de uma beleza desconcertante, eu costumo dizer que tal beleza é como o verbo colorir na primeira pessoa do singular do presente do indicativo…Tal beleza é impossível de ser conjugada. Tuas cores são bonitas, tal como um arco-íris. E quando estiveres cinza e olhando para os pés, continuarás bonito. A vida é feita de cores escuras e vibrantes…O segredo da vida é saber compor uma arte utilizando todas as cores.

10 – Cabelo bom o nosso…

Essa foi a frase aleatória que eu ouvi na mesa ao lado. Haviam duas mulheres loiras de farmácia comentando sobre cabelos e chuva. Elas se sentiam abençoadas por terem o cabelo liso, provavelmente liso por efeito de chapinha. Como se o tipo de cabelo nos trouxesse a sorte ou a falta dela. Vai entender!

11 – Raio

Toda vez que eu vejo um raio, eu conto os segundos para saber se ele caiu por perto ou não. Toda vez que eu vejo o belo clarão e o sinto o cheiro de ozônio que ele libera, eu lembro-me de “O curioso caso de Benjamin Button”.

Já Ihe disse que fui atingido por um raio sete vezes?
Uma vez, eu estava no campo, cuidando das vacas.
Uma vez eu estava sentado no meu caminhão, tranqüilo.
Alguma vez já te contei que fui atingido por um raio 7 vezes?
Uma vez, eu estava passeando com o cachorro.
Sou cego de um olho, ouço muito mal.
Eu tenho tremedeiras de repente, sempre esqueço o que estava dizendo.
Mas sabe de uma coisa?
Deus vive me lembrando que tenho sorte por estar vivo.
Está vindo uma tempestade…

E então quando eu vejo esse diálogo, me faz pensar no trecho de “O velho e o Mar”, que fala sobre a sorte:

(…)Gostaria de comprar um pouco de sorte se houvesse um lugar onde a vendessem. Mas com que eu poderia comprá-la? Poderia comprá-la com um arpão perdido, com a faca partida ou com estas duas mãos em carne viva?Talvez…Você tentou comprá-la com oitenta e quatro dias no mar. Quase que lhe venderam.
Não posso continuar a pensar nestes disparates. A sorte é uma coisa que vem de muitas formas, e quem é que pode reconhecê-la? Por mim aceitaria um bocado de sorte fosse qual fosse a forma como viesse e pagaria o que me pedissem por ela. Gostaria de poder ver o brilho das luzes. Estou sempre desejando coisas. Mas essa é a que mais desejaria agora.

12 – Casal Táxi Lunar

Na praça estava passando um casal, e eles não tinham medo da chuva. A moça, muito bonita por sinal, tinha um longo cabelo vermelho. Quando eu vi aquele casal e aquela mulher do cabelo vermelho, eu lembrei de Zé Ramalho. E comecei a cantarolar baixinho e mentalmente a música Táxi Lunar, enquanto eu umedecia minha boca com suco de caju…

Pela sua cabeleira, vermelha
Pelos raios desse sol, lilás
Pelo fogo do seu corpo, centelha
Belos raios desse sol

13 – Bananas de Juquiá

Chegou a pizza de banana. Então me recordei das viagens com minha família, em direção ao litoral do extremo sul. Sempre passamos por Juquiá, que é uma cidadezinha produtora de bananas. Fica na serra, e os bananais crescem entre corredeiras e casinhas humildes. Eles colocam saco de lixo preto envolvendo o cacho de banana. Querem impedir os pássaros de se alimentarem. Pobre sabiá, terá que voar um pouco mais longe para encontrar um pedaço de amarelo ouro.

14 – A fonte da juventude e Mark Twain

A fonte da juventude, do pintor renascentista Lucas Cranach.
A fonte da juventude, do pintor renascentista Lucas Cranach.

“A vida seria infinitamente mais feliz se pudéssemos nascer aos 80 anos e gradualmente chegar aos 18”

Sem mais…A imagem e a frase falam por si mesmas…

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3 comentários sobre “Domingo chuvoso, visões aleatórias numa janela.

  1. SENSACIONAL! Não consigo achar outra palavra para descrever o que acabei de ler! Lembrei-me de alguns casos parecidos que aconteceram comigo rsrsrsrs. Parabéns!!!! Beijos

  2. ahahhahahaha!Que bom que gostou!De vez em quando permito-me escrever sobre algumas loucuras do cotidiano. Gosto de escrever sobre o dia a dia, sobre observações!É como se eu me sentisse cada vez mais viva!Beijos!

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