O homem do pêssego laranja.

O “Ana Clara contou que tinha um namorado que endoidava quando ela tirava os cílios postiços, a cena do biquini não tinha a menor importância mas assim que começava a tirar os cílios, era a glória. Os olhos nus. Em verdade vos digo que chegará o dia em que a nudez dos olhos será mais excitante do que a do sexo. Pura convenção achar o sexo obsceno. E a boca? Inquietante a boca mordendo, mastigando, mordendo. Mordendo um pêssego, lembra? Se eu escrevesse, começaria uma história com esse nome, ‘O Homem do Pêssego’. Assisti de uma esquina enquanto tomava um copo de leite: um homem completamente banal com um pêssego na mão. Fiquei olhando o pêssego maduro que ele rodava e apalpava entre os dedos, fechando um pouco os olhos como se quisesse decorar-lhe o contorno. Tinha traços duros e a barba por fazer acentuava seus vincos como riscos de carvão mas toda a dureza se diluia quando cheirava o pêssego. Fiquei fascinada. Alisou a penugem da casca com os lábios e com os lábios ainda foi percorrendo toda sua superfície como fizera com as pontas dos dedos. As narinas dilatadas, os olhos estrábicos. Eu queria que tudo acabasse de uma vez mas ele parecia não ter nenhuma pressa: com raiva quase, esfregou o pêssego no queixo enquanto com a ponta da língua, rodando-o nos dedos, procurou o bico. Achou? Eu estava encarapitada no balcão do café mas via como num telescópio: achou o bico rosado e começou a acariciá-lo com a ponta da língua num movimento circular, intenso. Pude ver que a ponta da língua era do mesmo rosado do bico do pêssego, pude ver que passou a lambê-lo com uma expressão que já era sofrimento. Quando abriu o bocão e deu o bote, que fez espirrar longe o sumo, quase engasguei no meu leite. Ainda me contraio inteira quando lembro, oh, Lorena Vaz Leme, não tem vergonha?”
Lygia Fagundes Telles, em “As meninas”.

Oh Ana Idris, não tens vergonha?Volte a pensar, em centenas de gatos mortos ou os cabelos antes cacheados da sua irmã. Mas eu só penso em linhas de pescoço lânguidas no baixo ventre. Eu pensei em ser um pêssego, a noite toda…Um pêssego na sua mesa de jantar, um doce ao qual a criança não pode pegar, mas a saliva se acumula na boca e teimosia vence. Queria ver você salivar. O que eu estou pensando agora é imoral, mas toda arte é imoral. Enquanto estavas lá, folheando livros de arte, nuances coloridas num papel, eu pensava no refúgio de sua arte, eu queria guiar suas mãos, queria ser teu pêssego, ou se preferir, uma laranja, para poder pegar, apalpar, despir-me da casca e devorar sem pressa. E hoje o dia foi lindo, e a umidade do dia também me atingiu. E assim eu vou dormir agora, em clima de dia chuvoso, um prazer tímido porém intenso, como o sumo da laranja que teima em escorrer dos lábios e descer pela linha do pescoço. E foi isso que eu pensei enquanto eu te olhava, na metáfora de uma linda linha de rosto…

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