Memórias de uma mulher cansada voltando do trabalho lendo Hemingway.

Eu não quero mais mentir, usar espinhos que só causam dor, pois eu não enxergo mais o inferno que me atraiu…Dos cegos do castelo eu me despeço e vou…A pé…Até encontrar…Um caminho…Um lugar, para aquilo que eu sou…Eu cuidarei do seu jantar…Do céu e do mar…E de você e de mim…

Depois de doze horas de trabalho, chegou uma hora que meus olhos não distinguiam mais as linhas de tabelas, parâmetros e tudo mais. Status report concluído e uma sensação de fracasso que me tomou conta, pois eu acreditava que mataria o gargalo do projeto naquela noite. Foi extremamente desmotivante sair da empresa com uma sensação de peso nas costas. Posso parecer uma pessoa totalmente despreocupada, mas sou perfeccionista em meu trabalho, quero que as coisas saiam dentro dos conformes, e não foi o caso de hoje. Segui meu rumo, andando cansada no meio de todas aquelas pessoas que assim como eu, partiam para suas casas. Minha cara, meus olhos, são de cansaço agora. Escrevo aqui apenas para espantar alguns demônios pessoais, para tirar um pouco da tormenta que me acompanha. Cheguei na passarela que corta a rodovia, respirei fundo, aquela passarela, à noite, no meio das luzes amarelas, em tempos de hora extra são como luzes confortantes. Gosto da beleza das luzes amarelas dos postes e os carros passando, na paz, ora no caos, com seus faróis. Coloco uma música e passo a pensar no dia de amanhã, e que talvez eu consiga resolver grande parte dos meus problemas pendentes. E então eu escuto uma música que me traz lembranças, e um certa sensação de saudade me invade, e então um turbilhão de pensamentos e memórias e por vezes, cheiros, invadem esse coração e memória, e eu suspiro, enquanto ouço os carros passando embaixo da passarela. No ponto de ônibus, pessoas com suas cabeças baixas e mesma expressão de cansaço na face, e então não me senti mais tão sozinha naquele universo. E hoje à noite está uma noite fresca, com ventos que me bagunçam o cabelo e teimam em virar a página do livro que terminei de ler esta noite. O ônibus chega, minguado, com pessoas dormindo e uma inclusive, babando de boca aberta. E a música de Tim Buckley, chamada “Love from Room 109 – Strange Feelin” começou a tocar, e nela diz:

O cheiro de sua pele doce faz complicar o meu sonho
Oh posso ficar aqui por algum tempo vivendo o seu sorriso

Ah, como você poderia saber o que você fez
Você aqueceu meu coração quando eu estava tão sozinho
Mas tudo o que tenho para dar
São os meus sonhos de ir e vir para sempre
Dentro dos rios do tempo você vai me encontrar esperando
Para que você possa encontrar paz em sua mente
Assim, podemos amar de novo

E então um sorriso invadiu meu rosto, mas por dentro, aqui neste frágil coração apenas uma lembrança que pode ficar apenas nos baús da minha memória, e por hora, eu até me culpo de ser tão intensa, muitas vezes devo guardar minha sinceridade apenas para mim, não devo abusar da sorte, muitas vezes eu sou assim, como o Velho Santiago do romance de Hemingway, “O velho e o mar”:

"Mas o homem não foi feito para a derrota. Um homem pode ser destruído, mas nunca derrotado"
“Mas o homem não foi feito para a derrota. Um homem pode ser destruído, mas nunca derrotado”

(…)Gostaria de comprar um pouco de sorte se houvesse um lugar onde a vendessem. Mas com que eu poderia comprá-la? Poderia comprá-la com um arpão perdido, com a faca partida ou com estas duas mãos em carne viva?Talvez…Você tentou comprá-la com oitenta e quatro dias no mar. Quase que lhe venderam.
Não posso continuar a pensar nestes disparates. A sorte é uma coisa que vem de muitas formas, e quem é que pode reconhecê-la? Por mim aceitaria um bocado de sorte fosse qual fosse a forma como viesse e pagaria o que me pedissem por ela. Gostaria de poder ver o brilho das luzes. Estou sempre desejando coisas. Mas essa é a que mais desejaria agora.”

E eu estava lá, no ponto de ônibus do terminal de Barão Geraldo, esperando o segundo ônibus que levaria esse corpo cansado para os braços de minha cama. Fiquei lá, no meio do vento, sentada no banco, solitária com meu vestido vermelho e face cansada. O vento teimava em querer virar as últimas páginas do meu livro do Hemingway. Mas eu estava ali, lutando contra o vento e colocando a minha missão de terminar de ler aquele livro tão encantador. É muito incrível o poder e a forma de como uma boa leitura pode nos golpear a face com luvas de pelica. Estava eu ali, amaldiçoando a minha falta de sorte por ser assim, intensa demais, essa minha falta de noção de mostrar minhas ideias, meus sentimentos, aquela coisa de dar as duas faces para bater. Se me batem, eu ofereço outra face. Simples assim, o tempo cicatriza qualquer ferida, é o que minha sábia mãe dizia, que por sua vez, minha avó já dizia a ela. E por mais que minha mãe sempre me diz que nesta nossa vida, se alimentar de ilusões é um erro, eu sou uma errante, e naquele ponto de ônibus eu tomei uma bofetada ao perceber que nenhum ser humano, nem mesmo o magnífico Hemingway pode reconhecer a sorte e até mesmo a falta dela se aproximando. Eu diria o mesmo, sobre ilusões e expectativas, nós fingimos viver embaixo de nossos guarda-chuvas de ceticismo, mas por dentro carregamos aquela esperança boba e pura que a nossa sorte está chegando sorrindo em noite de lua cheia com vento, com os olhos mais bonitos e desconcertantes que já vimos, mas envoltos numa neblina de mistério.
Naquele ônibus das dez horas da noite, tinham duas mulheres que falavam sobre novelas e BBB, e eu que sempre presto atenção nos detalhes ao meu redor, deixei as pérolas de lado. Quem sou eu para julgar aqueles que gostam de coisas ao qual eu não gosto?As coisas são simples, para conversas alheias e desinteressantes, existe o bom e velho fone de ouvido, ou um livro, neste caso, a história do velho Santiago e sua fé perturbadora nas conquistas e força de vontade. E eu, lendo este livro, vejo que nossa fé nas coisas que acreditamos deve ficar ali, forte e decidida. Só devemos soltar nossa linha quando a Morte chega, enquanto isso não acontece, devemos acreditar na nossa força de pescarmos nossos marlins, e por mais que eles sejam devorados pela falta de sorte, sempre sobra algo de nossos sonhos, alguma carcaça, e mais tarde, alguma pessoa pode enxergar a beleza que nossa falta de sorte trouxe, a cauda de nossa fé inabalável naquilo que acreditamos, pode estar chegando, boiando na beira-costa. Talvez alguém veja e diga:

Não sabia que os tubarões tinham caudas tão belas e tão bem formadas”

A nossa fé inabalável, regada por sorte ou a falta dela, aos olhos dos outros pode ser reconhecida como uma beleza, pois nossos atos falhos nos trazem reconhecimentos, pois com nossos erros vangloriamos mais tarde com nossas vitórias, na alegria ou tristeza, sempre levamos uma boa lição ao deitarmos nas nossas camas à noite. O Velho Santiago dormia em sua cama, sua almofada era sua única calça embrulhada, seu colchão consistia apenas de alguns jornais velhos amontoados, mas aquele velho ali, que tanto amava seu amigo Manolin,e enxergava a beleza nas pequenas coisas, quando fechava os olhos, sonhava com leões, praias de areia branca da África. Humbert Humbert, de Nabokov, sonhava com bisões extintos, anjos e pensava no refúgio da arte. Eu deito meu corpo cansado em minha cama agora, que não é feita de jornais, talvez de alguns livros espalhados que durmo junto quando o sono aparece repentino e sem aviso acordo no outro dia…Acontece, muitas vezes, de eu dormir com um livro aberto no peito, e as luzes acesas. Eu estou cansada agora, quero a minha tão preciosa cama. Enquanto Manolin observa seu velho dormindo, ele sonha com Leões…E eu, incorrigivel, com minha fé inabalável, talvez com sorte ou falta de sorte, ando sonhando com um girassol. E ele está lá, em seu jardim, solitário, talvez pensando anjos e bisões antigos, ou em leões…

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