Cenas e pensamentos avulsos

1 – O mundo é um moinho?

Na madrugada a rolar pela cama. Entre uma coceira de ansiedade e outra, a cabeça martelando 1 milhão de pensamentos após uma sessão de terapia. Tentou ouvir uma música, para relaxar, acendeu seu incenso favorito, ficou deitada na cama olhando para o teto. Acendeu a luz, eis que então uma barata atrevida entrou quando abriu a porta pra tomar um ar. Matou a barata, com uma frieza atípica, ao invés de um escândalo típico de mulheres. Sentou-se na escadinha na porta de casa, a rua vazia, com suas teimosas luzes amarelas. O ventinho da madrugada chegou, como uma carícia no seu rosto, e então abraçou os joelhos e se colocou a chorar, um choro quieto, silencioso e isento de lágrimas, como um poço que secou, vazio mas com aquele cheiro úmido da umidade das paredes. Nenhuma viva alma nas ruas às quatro da manhã, contemplou mais um pouco o silêncio e beleza da madrugada solitária. Entrou pra dentro, tirou as roupas, ligou o chuveiro e tomou um longo banho. Ela gosta de água, ajuda a colocar as idéias no lugar, inclusive a pensar que se continuar com as crises de insônia misturadas à doença autoimune que atormenta sua noite. E então ela pensa no trabalho, será que conseguirá realizar todas as suas tarefas tendo virado a noite?Os minutos vão passando, como gotas de chuvas, minuto a minuto…E a manhã chega, ela toma mais um banho, umas gotas de perfume atrás da orelha, e sai de volta a vida. Há milhares de moinhos lá fora, e ela acredita que todos eles são dragões.

Ouça-me bem, amor
Preste atenção, o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos, tão mesquinhos.
Vai reduzir as ilusões a pó

Preste atenção, querida
De cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estás à beira do abismo
Abismo que cavaste com os teus pés

2- Madrugada

Mostrando sua face, pouco a pouco, o mundo girando atordoado. Ela largada em sua velha poltrona, com suas crenças, mágoas, amores e desamores. Na madrugada quente, silenciosa, sem brisa, apenas o pio da coruja contando o tempo, os minutos e segundos se passando, as lues apagadas no vizinho, e uma lua cheia e solitária lá fora. É tênue a linha do sofrimento, na pele, o desespero. Os pios da coruja continuam ecoando na madrugada, como os passos desesperados da consciência, sincronizados com as danças atordoadas de um mente perturbada. Daqui a pouco amanhece, o sol irá sair e o mundo estará lá fora, esperando mais uma sucessão de erros ou acertos.

3 – Apenas um copo de sakê

Chegou cansada do trabalho, jogou os sapatos para o canto, perto da cama, ligou o ventilador, pois sentia o corpo todo derretendo, como um sorvete. Estava feliz, apesar do calor quase que insuportável e a falta de dinheiro devido ao final de mês. Acessou a página de notícias e viu que este fatídico dia era o mais quente do ano, marcando trinta e sete graus nos termômetros e que um ciclone extratropical de nome enfadonho “Sandy”, estava causando problemas nos States.
Um banho gelado lhe cairia bem. Deixou as roupas caírem no meio do caminho, mudou a chave do chuveiro, colocou um Coltrane para relaxar, e começou a cantar, pois cantar lhe fazia bem, apesar de sua voz não ser tão agradável, mas pra ela, isto era apenas um detalhe do qual não havia o porquê se preocupar, pois dizem por aí que o importante é ser feliz, e ela é feliz assim, deste jeito, cantando desafinadamente enquanto as gotas calmas e geladas caem calmamente no corpo, enquanto fecha os olhos e pensa no passado, presente e futuro. O que será daqui pra frente, quais os planos, será que um dia irá casar, ter filhos, fazer um doutorado?Irá estar presente no fim do mundo?Com esses pensamentos martelando na cabeça, ao final ela apenas ri, pois ela vai apenas vivendo, dia após dia, com as tristezas e alegrias, uma nova estória a contar, um sorriso, uma fúria. Assim é a vida, pensa ela, passando como uma folha arrastada pelos ventos de inverno, ou apenas como um copo de sake, bebido lento e aquecendo-lhe a alma.

4 – Philander

And I’m always gonna love you
And I’m always gonna stay
Here with my Philander
Up here on this platter
And I’m laid out for Philander

Havia um casal em um restaurante. Não era um restaurante popular, era um desses requintados, bem arrumados, com bom gosto, mas não exorbitantemente caro. Era algo que era possível de ir mais que uma vez no mês. Havia uma moça, sentado no canto, estava bonita, com lábios pintados, olhos marcados e uma roupa sensual, não beirando a vulgaridade. Estava nervosa, contorcendo as mãos e olhando constantemente o relógio no celular. Ela havia pedido uma água, um copo com bastante gelo e 2 rodelas de limão. Quando entornava o copo para beber, era possível observar suas mãos tremularem, e o esmalte vermelho nas unhas. Ficou desta forma, transbordando sua ansiedade, as mãos tremulas, os pés batendo freneticamente no chão. E em um momento um sorriso abriu-lhe na face. Pela porta do restaurante entrou um rapaz, de altura mediana, não era belo, daquela beleza de se encher o olhos, mas era belo, uma beleza simples, comum, um homem com barba a fazer e bem vestido. Ela se levantou para cumprimentá-lo. Ele beijou a face segurando o rosto dela com uma das mãos, algo que aparentemente ela não esperava. Havia ali, naquela mesa, uma tensão, quase sexual, olhos nos olhos, os pés dele apontando pra ela, ambos com o corpo inclinado na direção um do outro. Ela sempre molhando os lábios, e ele sempre conversando tocando nela, de leve. E a cada toque dele parecia que ela iria morrer, de desejo, paixão, pois seu rosto incendiava com o rubor. Talvez ele soubesse disso, pois talvez ele tenha visto os pelinhos do braço dela arrepiar. Era o flerte…Philander…

Vou estrelar você no meu filme
Eu sou a criação agora
Então vamos lá, o ator que pouco
Não me decepcione, flerte

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