Anamorfose

1 – A ansiedade, Carpe Diem e a necessidade bucólica.

Ela andava pelo quarto, para um lado e para outro. Quando não, deitava na cama com as luzes apagadas e ficava olhando para as hélices do ventilador girarem com uma paciência quase insana. Levantou-se então da cama e foi ao banheiro, viu seu rosto no espelho do banheiro, os cabelos castanhos desbotados, e a face branca com os olhos de jabuticaba, arregalados. Um amigo lhe escreveu pelo chat, que ela tinha os olhos tristes. E então ela viu sua fotos na rede social, ela sempre achou que tinha olhos grandes, de coruja, ela adora corujas, é o tipo de pessoinha que pára na estrada para admirar as corujas buraqueiras, aquelas que fazem um buraco nos barrancos e ficam com seus olhões arregalados em cima da cerca, geralmente em lugares ermos. Ela gosta de coruja, pois se acha muito parecida com elas, fica na espreita, escondida, observando, é uma vouyer, não no quesito sexual da palavra, mas ela gosta de observar, os pequenos detalhes, as pequena coisas, ela é detalhista, percebe as coisas antes que lhe falem algo. Ela gosta de lugares afastados e misteriosos, nesses lugares ela cava seu buraco e fica apenas na espreita. Ela sente saudades disso, de fugir para algum lugar em que possa meditar em paz, sem a fúria e o desassossego da cidade grande. Campinas é um lugar legal, pensa ela, mas tem dias que ela quer simplesmente fugir da cidade de pedra, talvez ir para uma praia deserta e construir castelos de areia, sentir a areia fina passar por entre os dedos, dar um mergulho num mar de águas calmas, caminhar pela areia molhada na orla, lá onde as marolinhas quebram. Ela não espera que joguem água nela, como uma brincadeira de criança, ela quer estar sozinha, sua alma atormentada e cheia de anseios, por mais que clame por um pouco de amor sincero, ela não tem ilusões nesta vida, quando o assunto é Amor, ela tem os dois pés bem fincados no chão, com raízes grossas, firmes e profundas. Talvez o fato dela trabalhar com homens, 8 horas do seu dia, isso a faz pensar de maneira mais racional. AS coisas são para acontecer na hora certa, sua querida mãe sempre lhe disse isso, porque nos precipitarmos num desespero taciturno? Quando a onda chega, ela nos acerta em cheio, vêm sem pedir permissão, nos molhando por completo, e depois vêm o frio, o corpo treme, e depois pode ser aquecido pelo calor de um Amor de verão, ou de todas as outras estações, caso tenha sorte.

2 – Caminhada noturna

Na frente da pia, ela fitou seu rosto no espelho, ligou as torneiras e observou a água fria correr, fez uma concha com as mãos, tremeu de frio ao colocar suas mãos embaixo d’água, sentiu seus dedos ficarem duros e frios feito pedra. Levou as mãos com água em direção do rosto, lavou o rosto, como uma carícia gélida, um carinho como um término de namoro, uma despedida de alguém que não ama mais. Secou o rosto com a toalha felpuda que tem ao lado da pia, passou um batom nos lábios para hidratar. Calçou uma sapatilha, vestiu um casaco longo. Pegou o celular e ligou para um amigo. “Vamos comer pizza?”, esperou ele ligar, mas não deu em nada. Estava cansado demais. Jogou o celular em cima da cama, pegou o cartão de débito, o bilhete único e saiu pra fora. A lua estava cheia e bonita, cercada de nuvenzinhas ralas ao redor, e o vento soprava frio, vento em plena primavera. Fechou o portão, colocou as chaves nos bolsos e colocou-se a caminhar. Pensou, antes de sair de casa em pegar o Ipod e colocar alguma música, mas ela queria o som natural e sensual da noite nos ouvidos, os carros passando, os grilos, o pio da coruja, os cachorros a ladrar quando passa na calçada, os gatos a namorar nos muros e nos telhados. E então ela seguiu em frente, chegou na Avenida Santa Isabel e seguiu sem rumo específico. Seu coração estava batendo rápido, e os pensamentos a martelar um ritmo constante na cabeça, a ansiedade tomava conta, e a tentativa de caminhar exaustivamente era nada mais que uma forma em movimento para aquietar a alma. E os carros passando na larga avenida, as inúmeras barracas de cachorro quente, com os estudantes sorridentes falando sobre provas e coisas triviais. Ela pensou que poderia passar no mercado, comprar algumas frutas, mas ao passar ao lado, viu que estava fechado. Continuou seguindo pelas ruas amareladas, onde os carros passam às vezes com um som alto, onde os bêbados na mesa de um bar, a chamam para tomar uma cerveja, as calçadas ora cheias ora vazias. Ela caminha pela calçada olhando a programação dos bares, pára numa vitrine para olhar sapatos e outras coisas de mulherzinha. O vento continua soprando gelado, e então ela coloca as mãos de pianista dentro dos bolsos, sua mãe sempre lhe disse: “Minha filha, você tem mãos de pianista, dedos longos e compridos”, e então ela lembra de sua mãe, que nessas horas ela poderia lhe dizer que estava muito frio e tarde para sair para uma caminhada. Ela poderia pegar uma friagem, e uma dor de cabeça lhe afligir na calada na madrugada, quando se deitasse para dormir. Nada que um comprimido de Neosaldina resolvesse, pensou ela, rindo talvez da própria desgraça que em sã consciência sabia que poderia acontecer, e que de nada poderia chorar, ela é e sempre será teimosa, afinal a teimosia é sua marca registrada.

3 – Voyerismo

Ela passou ao lado de um restaurante chamado “Açaizeiro”, e então ela passou reto, pensando que não estava com fome e poderia passar lá outro dia. Parou no meio do caminho, olhou pra trás e mudou de ideia. Deu meia volta e abriu a porta do simpático restaurante pintado em tons de um verde claro simpático. O restaurante tinha um ar todo natureba, inclusive tinha uma prateleira feita de caixotes de frutas, desses que você encontra pelas feiras. Ela pensou, “é disto que eu preciso agora, algo bem leve para acalmar o nervosismo de véspera de prova”, sentou-se em uma mesa, e veio uma simpática atendente com o cardápio. Escolheu tomar um suco anti-stress, composto de banana, pêra, morango e leveduras de cerveja. Pediu um misto quente e uma tapioca de leite condensado com coco. Isso lhe daria ainda mais ânimo durante a caminhada pela larga avenida daquele simpático bairro universitário. Observou ao redor, na mesa ao lado tinha um lindo rapaz com traços da Irlanda. Ela olhou rapidamente para o rosto dele e viu que ele lhe lembrava muito o Damien Rice. E então ela começou a cantarolar na cabeça “The animals were gone”, sua música preferida. Ele estava sentado com uma moça de estatura baixa, de feições bem bonitas. Talvez fossem amigos colocando o assunto em dia. Na mesa da frente havia um grupo de amigos tomando sopa. Sopa, ela deveria ter tomado uma sopa. Aparentemente pela descrição do prato seria uma boa pedida, mas eles muito provavelmente já devem ter começado a preparar o pedido.” Tudo bem, o restaurante sempre estaria lá”,ela pensou. Ela adoraria parar nele novamente durante sua caminhada solitária e experimentar novos pratos e sabores, afinal, ela precisava levar a vida de uma maneira mais saudável, e o restaurante era uma boa pedida ao invés de um fast-food norte-americano carregado de gordura, mas que ela adorava, mesmo com sua consciência teimosa sabendo que aquilo era uma bomba para o seu corpo. Pagou a conta e continuou a caminhada. Ficou pensando no suco que tomou e resolveu que compraria morangos, banana e pêra, e no próximo pagamento, tomaria esse suco todas as manhãs, antes de ir ao trabalho. Melhor do que comer pão de queijo ou misto quente e Toddy toda manhã.

4 – No meio do caminho…Tinha uma banca de jornais.

Na avenida tem uma banca que vende aqueles livros de bolso, entre outros, sendo a maioria de autoajuda ou esotéricos. Ela entrou na banca e começou a olhar os livros de bolsos dispostos na vitrine. Ela poderia levar vários deles, mas acabou apenas mentalmente guardando o nome daqueles que planeja comprar, eventualmente fazendo uma careta engraçada para os livros de auto-ajuda que ela tanto odeia. Então, em uma prateleira ela viu um exemplar de “Dom Casmurro”. Lembrou então que precisaria trocar seu exemplar, tendo em vista que o seu velho exemplar estava sendo devorado pelo tempo. Levou “Dom Casmurro” e um livro da coleção Folha, sobre escritores latino-americanos. Escolheu um livro de contos, do Juan Carlos Onetti. Pagou a conta e caminhou mais um pouco. Queria mudar o visual, sim, queria mudar o visual plena onze horas da noite. Achou que sua aparência física estava desbotada assim como o castanho indefinido do seu cabelo. Eram onze da noite e então ela entrou numa dessas redes grandes de farmácias que oferecem uma vasta gama de cosméticos. Ficou namorando uma coloração vermelha e outra mais radical, um preto azulado. “O preto valoriza meu rosto”, dará mais contraste e dura muito mais que o vermelho. Comprou então shampoo, condicionador e leave-in para cabelos tingidos. Comprou também um delicioso creme hidratante de amora. “Cheiros”, ela pensou, é algo que lhe dá sensações vivas, lhe traz lembranças, uma sensação de bem estar. Cheiros e toque. Incrível a experiência de um toque, a questão da pele. A coisa mais maravilhosa no sexo, na opinião dela, é a questão do toque, o cheiro. Ela ama o cheiro natural do corpo. Talvez por isso não aprecie homens que fumam. Para ela , o cigarro apaga as doces evidências do cheiro natural da pessoa, o hálito, o suor.

5 – E assim dizia sua mãe: não aceite carona de estranhos…

Dias atrás, ela estava saindo do trabalho, um rapaz belíssimo, de pele branquinha, loiro e dono de grandes olhos azuis lhe ofereceu carona. Ela estava de costas trancando o portão e não viu de onde o carro vinha. Hipnotizou-se pelos belos olhos claros, mas uma ponta de medo invadiu. Então ela recusou a carona lhe dizendo que não se importava de esperar o ônibus, e então o educado rapaz de traços irlandeses subiu a rua no carro branco. E então ela ficou pensando naqueles bonitos olhos o dia inteiro. De onde viria, de onde surgiu?E nesta caminhada noturna, ficou pensando no rapaz simpático que lhe ofereceu carona. Mamãe sempre lhe dizia para não aceitar caronas de estranhos, mesmo que seja um estranho de beleza sublime, e então ela seguiu o conselho de sua mãe, já não era mais uma garota tão teimosa para tudo. Dias depois reconheceu o carro na garagem da casa vizinha. Ok, ele era seu vizinho, então logo não seria mais um estranho, e pensou se teria sido grossa demais ao recusar a carona. E então, em plena fila da farmácia, apagou os pensamentos “fator vizinho bonitão” da cabeça, quando a atendente gritou “Próximo”. Pagou a conta da farmácia e se dirigiu para o terminal de ônibus, para seguir seu caminho de volta pra casa. Estava esfriando cada vez mais e a caminhada foi suficiente para lhe aquietar a alma e colocar a vida em ordem. Pensou em todos os seus amores, mal sucedidos e o quanto se apaixona fácil ao mesmo tempo que perde facilmente as ilusões. Lembrou do amigo que propôs uma amizade colorida. Ela gostava dele, até se ver apaixonada e tomar consciência que se sairia machucada de tudo aquilo, o sexo era bom, selvagem, coisa de toque, pele, cheiro agradável e prazeres em comum. Só não existia a paixão em comum. Ela era apenas uma diversão para o domingo dele e uma amizade mais íntima. Ela não chegou a dizer nada, apenas disse que se afastaria pois estava cheia de coisas pra fazer e que precisava colocar a vida em ordem. Ela acreditou que para meio entendedor, uma palavra basta, como dizia aquela propaganda de cerveja, as verdades não são ditas para não criar mágoas e afastamentos. Ela poderia simplesmente apenas encarar a situação como um amigo que estaria disposto apenas a transar, mas ela simplesmente não consegue enxergar a vida deste modo, sexo é contato, é pele, cheiros e sensações, na cabeça dela, ela não consegue levar apenas como uma brincadeira. Então sutilmente, a desculpa do “consertar a vida”, foi uma desculpa para não falar que ela foi a trouxa que se apaixonou. O orgulho de mostrar que não se abalou, que não se deixou emocionar pelas pragas do coração que não deixa o cérebro funcionar. Talvez se ele correspondesse, se fosse mais atencioso ou tivesse mais consideração. Depois do último domingo com tarde de sexo, ela voltou pra casa dentro de um ônibus, com as luzes apagadas e com a cabeça voando. Com um nervosismo nato e aquele pensamento, de “que porra é essa que estou fazendo?”, e então viu que não necessitava de tudo aquilo, ficou tão bem todo esse tempo sozinha, somente ela e os pensamentos a atormentar, amores não correspondidos e não vivenciados, tão logo esquecidos e tidos apenas como um momento de fraqueza e tolices, a sua vida amorosa é como aquela música do Ira:

6 – São tolices…Eu sei!

São tolices
Que penso sobre você
Você não pensa em mim…
É tolice eu sei
Você não sente os meus passos
Mas eu imagino

Ninguém imagina os passos dela, ela tem os olhos que tudo vê, as pessoas a vêem desligada, como os olhos grandes difusos na multidão, mas ela está analisando, e pode ver todo e qualquer detalhe. Se ela fosse um verbo, ela seria toda “Eu analiso”, analisar, muitas vezes ela enxerga coisas que não queria, ela vê a beleza nas pequenas coisas, a beleza de uma pequena flor nascendo em pleno asfalto. Ela gosta da beleza da noite, de ver os carros passando, a confusão das luzes do poste com as luzes do farol, as pessoas correndo, estudantes voltando pra casa, cachorros com seus donos, o cheiro fresco da noite, a escuridão nas ruas, apenas a lua cheia e brincalhona no céu e ela solitária, nas ruas, andando sem rumo, apenas para acalmar a alma…

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