Vou me embora…para a Paulicéia Desvairada?

Nesta semana eu ouvi um relato de um homem que estava pedindo dinheiro no ônibus para voltar para sua terra. Ele estava com a mulher e a filha. Naquela idéia de conseguir algo melhor para ele e sua família, ele vendeu tudo o que tinha para tentar a sorte na cidade grande. Primeiramente tentou em São Paulo, e depois mudou para Campinas, onde fez vários serviços de “bico”. Depois de ser expulso duas vezes e não ter condições de viver por aqui, juntou tudo aquilo que lhe restou e estava juntando dinheiro para voltar para Caetité, na Bahia. Sendo assim, por causa disso que escrevi esse texto, na verdade um ensaio, sobre o grande inchaço das cidades e a luta dos imigrantes de outras regiões para uma vida melhor. Como dizem por aí, “não tá fácil pra ninguém!”

Severino e sua família decidem se mudar para a cidade grande. Severino trabalha no campo e decidiu vender tudo e partir para o que ele chamava de “vida melhor”. Essa história se repete todos os dias, com vários e vários Severinos, desde meados dos anos 20, na maioria dos países emergentes, é o que chamamos de urbanização. A realidade é bem triste: sem especialização, semi ou completamente analfabetos. A ilusão de que as grandes cidades possuem o status do “poder”, emprego abundante, qualidade de vida, entre outros fatores, fazem com que essas pessoas abandonem suas cidades em busca de melhores condições. Depois que chegam, abrem os olhos e choram lágrimas de desgosto, em seus barracos na beira de um córrego fétido ou num cortiço de condições e dignidades mínimas, em algum bairro decadente da cidade.  Na favela do Paraisópolis, os Severinos são observados com desdém pelos olhos dos ricaços na sacada do apartamento duplex ou triplex de milhões de reais. Sendo assim, além de tudo pelo o que passam, são marginalizados pelo resto da população.

O inchaço urbano nas cidades europeias, surgiu no final da idade média. Com a queda do Feudalismo e o surgimento do Capitalismo Comercial, os antigos “servos” desprenderam-se da terra e partiram rumo às primeiras cidades europeias denominadas “burgos”, antes comandadas pelos senhores feudais, substituídos pelos comerciantes e banqueiros, a chamada burguesia mercantil e financeira. Os camponeses expulsos da terra e os artesãos arruinados por terem perdido os meios de produção, passam a vender suas forças de trabalho nas manufaturas, que se tornaram no auge do Capitalismo Industrial, fábricas “à pleno vapor”. Enfim, o Capitalismo torna-se financeiro: bancos, cartéis, trustes, multinacionais, cotações, bolsas de valores, especulações, tudo concentrado nas grandes cidades. O Capitalismo, desde os primórdios de sua existência é uma semente que deu origem à uma grande árvore, cujo fruto é o lucro. As raízes, o caule e os galhos são todo o conjunto de uma grande cidade com seus meios de gerar dinheiro. Os trabalhadores compreendem a seiva elaborada. O processo no Brasil é mais demorado, pois o Capitalismo Industrial demorou para fixar suas raízes, logo, a expansão das cidades ainda é visto como algo muito recente.

A segregação espacial dessas grandes cidades é tão cruel quanto o sistema capitalista, e não há como fugir disso, já que os novos habitantes, de terras longínquas, não dispõem de meios para conseguir uma moradia digna. Com o crescimento das cidades, novas áreas vão surgindo, e consequentemente ocorre a desvalorização das áreas mais antigas, que serão ocupadas por pessoas com menor poder aquisitivo, formando os famosos “cortiços”, ocupados por inúmeras famílias, espremidas em pequeno espaço e condições precárias de infraestrutura. Também há a ocupação de terrenos abandonados em áreas de risco, o aumento da violência gerada pela desigualdade social e desemprego, o crescimento do crime organizado, associado ao tráfico de drogas e a ineficácia da polícia e do Poder Judiciário. Não podemos esquecer dos problemas ambientais causados pelo crescimento das cidades: erosão do solo, poluição atmosférica, poluição dos mananciais e o acúmulo de lixo devido a falta de espaço para um aterro sanitário.

E assim, o sonho de muitos Severinos e Severinas ou de qualquer outro indivíduo de qualquer outro lugar do nosso país, que se diz a todo momento ser um “país de todos”, despencam em um abismo da realidade social e estrutural do espaço urbano. O crescimento sem fronteiras dessas cidades e a falta de investimento nessas áreas precárias, faz nós revermos os nossos conceitos de “cidade grande, vida boa”. Se antes, a maioria dos “Severinos” pensavam, “vou-me embora para a Cidade Grande, pois aqui eu não sou feliz”, ao chegar na “Paulicéia Desvairada” de Mário de Andrade, lembram-se tristemente que “na nossa terra tinha palmeiras, onde cantava o sabiá”.

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