6 Cenas do Subúrbio

Pela janela do quarto
Pela janela do carro
Pela tela, pela janela
Quem é ela? Quem é ela?
Eu vejo tudo enquadrado
Remoto controle…

Cena 1: A menina no espelho

Lydia se despediu da família. Ela mal conseguiu dormir de noite, por causa da despedida. Despedidas são sempre algo muito doloroso, e então ela imaginou o rosto de sua mãe, na soleira da porta, e ela por instantes se perguntou se suportaria tudo isso. Deitada na sua velha cama ao anoitecer,com os olhos arregalados a fixar o teto, ela percebeu o quanto vai sentir saudades dos lençóis lavados, e do café com bolo que sua mãe sempre lhe deixava em cima da mesa. Se pai, ela nunca conheceu, mas ela mesmo assim se pergunta se ele sentiria saudades. Acordou de manhã, sentou-se na beirada da cama. Ao ver o amontoado de malas, colocou-se a chorar, e num desespero quase por silencioso, ela tirou as roupas e observou-se no espelho: estava envelhecendo, suas pernas, antes de menina serelepe que brincava de pular poças após a chuva, ganharam o torno de uma mulher de 25 anos. Então ela pegou uma cadeira e colocou-se a pentear os cabelos, nua em frente do espelho. A cada escovada, lágrimas de perdão escorriam pelo rosto. E então ela não se reconhecia mais.

Cena 2: 29 de julho

As garotas desfilando
Os rapazes a beber
Já não tenho a mesma idade
Não pertenço a ninguém

Antônio têm 24 anos. Daqui a alguns dias ele fará aniversário. Ele finge não se preocupar com isso, “eu não acredito em inferno astral”, ele diz aos amigos, mas lá no fundo ele se sente velho, e um turbilhão de pensamentos o amedrontam, e então ele se recolhe no seu mundo particular. Há um pequeno mural na parede, cheio de fotografias, e ele olha minuciosamente cada uma delas, “estou ficando velho”, ele diz pra si mesmo. Está chovendo lá fora. Ele coloca as velhas fotografias no lugar e se esparrama na cadeira da escrivaninha em frente a janela, apoiando os pés em cima da mesa. Ele olha lá fora e vê pequenas gotas de chuva escorrendo no vidro. E por instantes ele esqueceu todas as preocupações, ele poderia passar horas ali, apenas observando a chuva. Ele poderia adormecer e tentar sonhar com um mundo menos agressivo e mesquinho. Mas ele queria apenas estar ali, naquele momento, observando a chuva escorrendo no vidro do seu quarto. Foi na cozinha, preparou um chá, tirou um livro da estante e colocou-se a ler, pois é isto que ele gosta de fazer nas horas vagas.

Cena 3: Estação de Trem

When I hear the engine pass
I’m kissing you wide
The hissing subsides
I’m in luck

Letícia vai perder o trem, ela ainda corre desajeitadamente em cima de seu salto alto e saia executiva. Na última estação ela espera seu amigo ligar pra ela. “Hoje vai ter festa!”, murmura ela com um sorriso no rosto. Henrique lhe manda um sms: “Le, a festa começa às 21h00, te pego em casa às 20h30 e depois vamos pra sua casa beber aquela vodka”. Ela ainda estava na estação porque teve que ficar até mais tarde no trabalho. “Bernardo eu te mato!Eu te mato!”, murmurava ela, numa raiva quase visível. Bernardo era seu colega de trabalho desengonçado, tímido e antisocial, que vivia fazendo coisas erradas. E sempre para protegê-lo ela apagava as chamas antes que o incêndio se alastrasse. Bernardo era um homem extremamente desastrado e distraído. Um dia ele esqueceu o celular na gaveta do trabalho, e tinha um problema para ele resolver no final de semana. Eles se odiavam, ela porque ele era estranho, mal falava e fazia as coisas pela metade.
“Tomara que Henrique esteja usando aquele perfume gostoso hoje”, pensou ela, enquanto respondia a mensagem. Henrique e Letícia tinham um caso. Eles não namoravam, eles não se amavam para se transformar em namoro. Era apenas tesão. Ele era um chato, burro e fútil, mas pelo menos ele a satisfazia e era deliciosamente engraçado. E então eles fizeram um trato, enquanto não achavam suas respectivas tampas de panela, um satisfazia os desejos do outro. Não era necessário satisfações, perguntas, ciúmes…apenas um pacote de camisinhas e um lugar que desse para transar.
O trem chegou na estação e estava lotado e ela ficou de pé. Olhou pela janela e viu um belo homem correndo apressado, em direção ao trem. Quando ele se aproximou, ela reconheceu, era Bernardo, o desastrado funcionário correndo. Ele estava diferente, sem as habituais roupas de trabalho, sem os óculos desajeitados e o cabelo lambido de gel. Seu cabelo estava docemente bagunçado. Não parecia o mesmo homem. Ele entrou e ficou do seu lado, apenas acenou com os olhos, pois sabia que Letícia o odiava. Ele tinha um cheiro bom, aquele de quando acaba de sair do banho. O trem estava lotando e ele foi se encostando mais nela. Aquilo a deixava perturbada, pois ela não podia ter aquelas sensações com o cara mais comentado, tido como fracassado e estrambelhado do trabalho. Ele era quieto, estranho e desengonçado. E então para quebrar o gelo ela puxou conversa. E no trajeto de 30 minutos parecia que eles se conheciam há anos. Desceram na última estação, tomaram um café juntos. Letícia mandou uma mensagem para Henrique: “Não vou poder sair hoje”. Tomaram um café e ela chamou Bernardo…para tomar uma vodka.

Cena 4: O Homem que lavava louças.

Meu bem querer
Tem um quê de pecado
Acariciado pela emoção…”

Andréa estava estressada. Seu trabalho é sua paixão, mas muitas horas ela tem vontade de jogar tudo para o alto e pedir as contas. E então, após isso, ela pensa em abrir um pousada em algum lugar paradisíaco. Ser dona do próprio negócio, isto é a real, pensa ela, enquanto manda um status no Facebook sobre o quanto está difícil esta nova fase. Ela encontra seu chefe pelo caminho e pede para adiantar a sua pausa vespertina. Ela segue em direção ao refeitório, mas por um momento percebe que esqueceu o crachá em cima da mesa. Ela dá meia volta, meio sorriso para a secretária gostosa porém burra que só atrasa sua vida. Ouviu a última piada ruim de seu companheiro de trabalho, e lhe disse que um dia vai ter coragem o suficiente para expulsá-lo da sala se mais alguma piada infame de pontinhos surgisse. Ela no fundo, adora piadas sem graça. Seguiu em direção ao refeitório com sua maçã e sua bolacha água-e-sal. “Preciso emagrecer”, pensou ela, e então ela acena para Justina, sua amiga revendedora de coisas de mulher. Ela deixava sempre uma boa quantia de dinheiro com ela. Andréa se dirigiu à máquina de café, escolheu um café longo com pouco açúcar sentou na mesa e então sentiu seus dedos latejarem dentro do sapato apertado, e então lembrou o quão difícil é ser mulher. Resolveu olhar os emails pessoais no celular, enquanto mastigava a bolacha. Enjoou daquilo e resolveu observar ao redor. Na terceira mesa tinha um homem. Ele gesticulava quando conversava, tinha os olhos bonitos, castanhos e não muito grandes. Pele branca e cavanhaque. Um homem docemente comum, vestido em roupas de trabalho. Andréa ficou observando aquele homem, enquanto dois companheiros conversavam. Ela concordava com o que eles falavam, mas ela estava longe com seus olhos de lince. O homem levantou da mesa e se dirigiu para a pia. Poderia passar um palhaço numa bicicleta com uma roda só, fazendo malabarismo, mas Andréa não conseguia tirar os olhos…”Ele tem olhos gentis”, pensou ela, e quando ele olhava nos olhos nela, ela abaixava os olhos e observava o café esfriando no copo, e então ela se lembrou do trecho de uma música:

Lilac wine is sweet and heady, like my love
Lilac wine, I feel unsteady, like my love…
E então ela ficou como um vinho lilás, com um amor instável, e naquele momento nada importava, nem os problemas do trabalho. Nos seus momentos de descanso a beleza era algo a se contemplar, como uma tarde chuvosa. Ele se levantou, pegou seus talheres e potes sujos, e se dirigiu a pia. Ele ficou de costas, mas isso não era um fator para ela abandonar seu voyerismo. Ela o observou, e então olhou para suas mãos com unhas pintadas de vermelho, e em seguida olhou para aquele homem de costas. Deu um riso acanhado, e pensou: “Como sou besta, eu mal o conheço para poder arranhar as costas”. E ela observava quase encolhendo na cadeira, enquanto ele esfregava os talheres vagarosamente, numa malícia sem querer. E ele ficou lá, por vários minutos esfregando a louça numa perfeição vagarosa e úmida. Então ele olhou para o lado e sorriu ao cumprimentar um colega de trabalho…e continuou a esfregar a louça.  Depois daquele sorriso, Andréa foi para a cantina: 2 chocolates, por favor!

Cena 5: Amor cego

Eu cuidarei do seu jantar
Do céu e do mar
E de você e de mim…

Paulo chegou correndo na rodoviário. De nada adiantou ele correr, pois o ônibus ele já perdeu. Comprou a passagem, parou em um restaurante, pediu um almoço executivo, leu uma revista comprada numa livraria. No banco de espera em sua frente, havia um casal. Uma mulher de cabelos curtos, com seus 50 anos e um homem. O homem era cego. Então ele começou a observar os dois. Ele pode ver que o homem cego sabia exatamente onde sua amada estava, como se ele pudesse enxergá-la, e ele tocava o rosto dela, e lhe deva beijos. Ela foi em um quiosque buscar uma garrafa de água, e ele soube quando ela estava chegando, e lhe deu um sorriso estendendo a mão para pegar a garrafa de água. O amor entre os dois era muito mais bonito que muito casal com os olhos que enxergam. Então o ônibus de Paulo chegou, e ele não se aguentou de curiosidade. Se dirigiu ao casal cuja beleza muitos olhos não vêem, e perguntou: “Como você sabe quando ela está perto?”, perguntou Paulo. O homem cego então lhe respondeu: “Eu sinto o cheiro e o calor dela quando ela se aproxima.”

Cena 6: Voyeurismo sabor pêssego

Nancy esperava seu amor chegar do trabalho. Já tinha tomado seu banho e vestia uma camiseta e meias 7/8. Sentou na poltrona e começou a ler um livro, enquanto seu Amor não chegava. Talvez ela lhe faria uma massagem após o banho, fariam amor e o veria dormir. Ele chegou, ela pode ouvir o barulho das chaves girando na porta. Ele chegou com sacolas do mercado, deixou-as em cima da mesa e foi em sua direção. Deu-lhe um beijo longo e acariciou os cabelos, e depois os bagunçou para fazer graça. “Gosto de ti, com os cabelos bagunçados”. Ele segue para o balcão da cozinha, para guardar as compras. Ele chegou do trabalho disposto a cozinhar para o jantar, apesar de suas habilidades na cozinha serem praticamente nulas. Nancy o observava da poltrona, rindo das situações cômicas do trabalho que ele estava contando. “Hoje vou fazer um spaghetti querida…acho que aprendi a fazer…Lembra aquela vez que eu joguei o macarrão na água antes de ferver e esqueci de colocar óleo, e ficou tudo unidos venceremos a nação?”, Nancy riu, “E se não bastasse, você simplesmente abriu a lata de molho e jogou em cima sem esquentar…foi tão horrível que nem o cachorro quis!”, então ambos riram e ele jurou que isso não iria acontecer, porque ele finalmente aprendeu. Nancy disse “Veremos”, e riu baixinho. Ele colocou uma panela de água no fogão, e já colocou o óleo e o sal para não se esquecer. Ele comprou pêssegos frescos, grandes e rosados. Pegou um da sacola, lavou na pia, sentou-se num banco em frente ao balcão e abocanhou o pêssego, quase em desespero enquanto folheava uma revista e a água fervia. Nancy observava a cena e a cada mordida naquela fruta e cara de satisfação que seu amado transmitia, ela se encolhia na poltrona com o livro entre as pernas. Ele acabou, limpou os lábios no antebraço e olhou para Nancy. Ela estava estarrecida, derretida no sofá. “Que foi?Você está bem?”. Nancy levantou, tirou o pacote de macarrão das mãos dele e o arrastou para o quarto. Nancy entrou em ebulição, como a água que estava fervendo na panela…

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