Cinema, aspirinas e urubus

So can you understand
Why I want a daughter while I’m still young?
I want to hold her hand
And show her some beauty,
before all this damage is done

Neste final de semana prolongado, depois de uma ressaca desgraçada fruto de coca-cola com rum, mas enfim, uma sexta-feira muito divertida. Depois destes dias de boêmios, nada como dar uma relaxada. No domingo, levei meu irmãozinho no cinema, para assistir “Era do Gelo 4”.  E nesta questão quero explorar o meu ponto de vista sobre as crianças hoje em dia. Eu diria que são crianças do subúrbio. O que aconteceu com a infância de hoje?Meu irmão tem 9 anos, mas vive cercado de adultos estressados demais para dar a devida atenção que merecem. É tão cruel isso não é?Quando eu vou pra casa dos meus pais de final de semana, eu mesmo percebo o quanto nós, adultos, estamos cada vez mais rabugentos, e seriamente, comecei a pensar muito nisso. Quando ele, o meu irmão menor, chega pra mim, e me pergunta:

Ana, vamos brincar?

Eu queria imensamente poder dizer, “Sim vamos!”, mas aí entra a rabugice, eu sempre digo que estou cansada, que tenho coisas pra fazer, o que de certa forma, não é uma mentira, realmente, tem finais de semana que eu até evito sair de tão cansada que eu me encontro. Muitas vezes eu me sinto como uma velha coroca sem-graça. Fico deitada embaixo das cobertas, lendo, dormindo ou escrevendo neste humilde blog. Eu brinco com os amigos que cansei de ser certinha e vou ser boêmia, mas na boa, eis uma imagem que não combina muito comigo. O máximo que eu faço é tomar umas a mais e ficar um pouco alegre, mas no mais, não saio pegando ninguém por aí, nem caindo bêbada na sarjeta. Sim, eu sou chata bagaralho. E tenho tendência em gostar de pessoas que também são chatas, o que gera atritos mal compreendidos, mesquinhos, coisa de amor e ódio. Perdi as contas de quantas pessoas se afastaram de mim, simplesmente por me levarem a mal ou por me achar de uma certa forma, assustadora. Pessoas chatas atraem outras pessoas chatas, é como se fossem imã e ferro. Mas isso é assunto para outro post. Se você for um chato, rabugento, seletivo e introspectivo, eu posso gostar de você e você se tornará meu melhor amigo. O que eu quero chegar aqui, é o fato das crianças de hoje estarem rodeadas de adultos chatos, que muitas vezes esquecem que todos merecem ser criança, no seu tempo certo. Se você tem de 0 a 13 anos, sinto muito, você é criança, todos merecem ter uma vida de criança e não serem emulados precocemente para uma vida adulta. Hoje eu vejo que as crianças estão cada vez mais adultas, pois nós, adultos, queremos que elas sejam “O Homenzinho da casa”, “Uma pequena dama”, estamos transformando as crianças em seres adultos de menos de meia estatura. Nós já queremos colocar na cabecinha inocente delas que o mundo é cruel e o mundo é dos espertos. Nós pegamos todas as crenças delas e jogamos no lixo, quase dizendo para crescerem pois o mundo não tem tempo para criancinhas que correm atrás de pipa. Nós já colocamos na cabeça delas, que elas tem que estudar, porque o mundo é cruel e sem estudo nós morremos de fome. E então, nós apontamos o dedo para um lixeiro na rua e já dizemos para a pobre coitada da criança, que se ela não ler a Scientific American desde os nove anos de idade, ela vai passar o resto da vida dela inteira catando lixo e cortando as mãos nos cacos de vidro das garrafas de champanhe de burgueses metidos a besta.  Eu citei a Scientific American, porque um dia meu pai voltou da banca de jornal, dizendo que comprou uma revista para meu irmãozinho. Era uma Scientific American, edição para leigos, cuja capa era sobre a “Teoria das Cordas”. Lembremos que  “O Universo numa casca de noz”, que é física teórica para “leigos”, com ilustrações bem bacanas, foi feito com esse intuito também, mas mesmo assim, é tido como uma leitura desafiadora até para as mentes inteligentes. Agora imaginem a mente da pobre criança. Um dia eu cheguei do trabalho, e meu irmãozinho “mandou”(sim, ele manda!), acessar o YouTube, pois ele encontrou um vídeo de um buraco negro engolindo tudo o que vê pela frente. E ainda soltou:

Ana, você sabia que o fim do mundo pode ser um buraco negro, pois o sol é uma estrela e um dia ela vai perder calor…

Eu digo, que sinto muito orgulho do meu irmão, e acho muito fofo ele dizer que quer ser cientista. Eu vejo muito de mim nele. Mas acho que antes de ele ler e compreender a Teoria das Cordas, ele deve ler a coleção “Cachorrinho Samba”, ou “Sítio do Pica-Pau Amarelo”.  Quando eu era criança, eu morei com uma família adotiva. Digamos que a história de minha vida é digna de escrever um livro dramático sobre ela. Mas, sintetizando, passei boa parte da minha infância, sozinha, em decorrência da separação de meus pais adotivos. Tanto na minha família adotiva, quanto biológica, os livros foram um incentivo desde cedo. Mas digamos que só eu mesmo preservei esse vício e hoje tenho uma biblioteca considerável. Livros, desde a minha infância funcionam como, além de um prazer inigualável, uma válvula de escape. Quando estou triste, ou quero simplesmente esquecer ou afastar algo que me perturba, eu costumo ler, ler bastante, como se isso espantasse todos os meus demônios pessoais…

Digamos que estou numa época que estou possuída não por um demônio, mas por uma legião deles…

Livros a parte, eu amadureci muito cedo, e de uma certa forma, sofri um bocado por conta disso. E eu não gostaria que meu irmão passasse por isso. Muitas vezes queremos que nossos filhos sejam nossa imagem e semelhança. Pais nerds querem enfiar roupas de jedi nos filhos, sem nem ao mesmo se perguntar se eles têm o direito de escolha. Não vou negar que eu acho isso muito fofo, e que provavelmente se eu encontrar algum doido varrido por aí que me aceite do meu jeitinho desvairado de ser, e que me diga quando eu estiver só de camisa de botão pela manhã com uma xícara de chá, cara amassada e um livro no colo, que quer ter um filho comigo, provavelmente vou comprar um enxoval do Star Wars e colocar “Starway to heaven” versão canção de ninar para ele dormir…bom, vamos acordar, a vida não é da forma como gostaríamos que fosse. Talvez eu seja a tia solteirona com um cachorro. A vida é bem cruel com quem não quer viver de amores fáceis…

No natal passado, eu dei toda a coleção dos livros de Harry Potter pra ele. Embrulhei direitinho e ensinei a ele como cuidar de livros. Quando eu levei ele no cinema, ele me acompanhou na livraria, especificamente, a Nobel, no Tivoli Shopping, em Santa Bárbara, minha terra querida. Lá ele me disse que gosta de vampiros. E se interessou por um livro da série “Vampire Diaries”. Então eu já disse pra ele que quando ele crescer ele vai ler histórias de vampiros de qualidade, como Anne Rice, Bram Stocker, assistir Nosferatu, Entrevista com o Vampiro, e ainda disse que aquilo que ele gostava não eram histórias de vampiros de verdade. Mas o que diabos eu estava fazendo?Onde estava a liberdade dele gostar do que quiser?Quando eu era criança eu gostava de Backstreet Boys, e aquilo era um lixo. E então eu me coloquei a pensar e perguntei se ele queria levar o livro. Então ele disse que precisava terminar de ler Harry Potter e os quadrinhos do Snoopy. E então eu senti muita vergonha de mim mesma por interferir nos gostos dele. Eu chamo a atenção dele porque ele gosta de Gustavo Lima e a música do tchê tchê, tcha tcha, sei lá que merda é essa. E eu olho isso tudo, e vejo o quanto queremos nossa imagem e semelhança nas pessoas que gostamos. E neste domingo, eu o levei para se divertir. E ver a alegria dele, estampada no rosto, ver ele correndo para jogar basquete nos brinquedos, pulando na piscina de bolinha, comendo lanche e se sujando todo, foi uma alegria imensa. Tirar ele do mundinho cercado de adultos, foi muito bonito. Eu gostaria que ele saísse mais, aprendesse a empinar pipa, soltar pião, que ele tivesse uma turminha do barulho, igaul eu dos meus 11 aos 13 anos, quando eu jogava bola, descia de carrinho de rolimã, brincava de esconde-esconde, jogava super nintendo nas horas vagas, e não o dia inteiro. Toda criança deveria ter mais brincadeiras ao ar livre, e hoje o que vemos são sorrisos eletrônicos…

Na sexta-feira, saí com os amigos.Fomos no Thunder, um buraco com um bar, banda tocando e apreciadores de rock’n roll. Este bar tem como proprietário, um velho amigo, já quase cego, do meu irmão, o Alemão. Foi a primeira vez que eu fui pra lá. Desde que eu voltei de Porto Alegre, andei meio reclusa de vida social, mas estou voltando à cena novamente. A noite foi bem divertida, uma “festa estranha com gente esquisita”:

Festa estranha com gente esquisita: um mendigo e um zumbi lá atrás…conseguem ver???

Marquei de encontrar meu irmão, minha cunhada e minha amiga black metal. A noite foi de muita conversa, um complô armado para trazer um velho amigo nosso de volta pro rolê, cerveja e um muitas cubas livres, o que me trouxe um fato engraçado. A Tamirys, minha velha amiga companheira de rolês disse que eu desabei na cama quando chegamos. Só sei que eu acordei e eram 10h30…mas eu lembro de tudo!!Lembro de sentir que ela e o Linardo tiraram minhas botas e a jaqueta e me cobriram e ela disse que eu me encaixei no vão da cama e a parede e que eu dizia algo na língua dos wookies…

Segundo a Tamys…eu murmurava algo assim…
Madeiraaaaaaaaaaaa!!!!!

E agora eu entro na segunda parte, ASPIRINAS. É quase insuportável a ressaca que um rum Montilla traz no dia seguinte. Parece que eu tomei uma sussurra, ou um trator de quinhentas ou mais toneladas, passou por cima do meu corpinho singelo. Eu não estava com dor de cabeça, igual ao dia que eu fui forever-alone em um show de Pink Floyd instrumental no Bar do Zé, e passei a noite tomando caipivodka e cerveja irlandesa. O rum me dá moleza e um sono absurdo no dia seguinte, mas dor de cabeça não, ao contrário de qualquer coisa com vodka, seja ela uma Absolut/ Orloff/Natasha/Balalaika(Natasha é a pior que eu já tomei…).  Mas mesmo assim, tomei umas aspirinas para aguentar a dor no corpo. A sorte é que a mãe da Tamys fez uma deliciosa limonada com gengibre que curou a ressaca maravilhosamente bem. Quem me lê acha que eu sou uma bêbada, alcóolatra, que só dá trabalho. Mas eu nunca dei B.O. Quando eu vejo as coisas ficarem levemente embaçadas, eu paro com os recursos etílicos. Vou ser bem careta agora, neste momento, beber é bom, é divertido, desde que você não saia por aí desmaiando na sarjeta, tomando glicose na veia e vomitando no pé do amigo. O máximo que acontece comigo, é eu ficar mais alegre e falar sem parar, mais que o anormal.

Entenda…álcool não é “Embelezol”.
Álcool funciona mais no quesito de ensaiar um passo estranho numa festa estranha com gente esquisita, do que qualquer outra coisa.

Bom, já entrei na questão cinema(para abordar a questão “infância”, aspirina (remédio excelente pós-ressaca-vadia) e agora a questão urubus. No domingo para segunda, fui para a casa de meus papis. A noite de sábado para domingo foi deprimente. Fui numa festa em Itu, mas no geral estava chato. O melhor momento foi assistir a luta “ao vivo” do Anderson Silva contra aquele cretino vadio norte-americano. A comida estava muito boa, o quentão e o vinho quente estavam divinos, mas depois dessa noite, eu compreendo que uma das coisas mais chatas do mundo é ir numa festa onde você só conhece uma pessoa, e tem toda uma panelinha formada. Eu me senti uma total estranha no ninho. Não que não tinha gente legal ali, muito pelo contrário, mas digamos que era uma festa para pessoas que já se conheciam há tempos, e ali, eu realmente era a “amiga de fulana”. Depois de uma noite entediante, fui pra casa no domingo, na hora do almoço e depois saí com meu irmãozinho. Na segunda pela manhã fui fazer uma caminhada. Como podem perceber, eu gosto muito de caminhar. Sempre faço isso, é como se eu tirasse um tempo para refletir. Gosto de fazer caminhadas sozinha, pois assim não tenho interrupções nos fluxos mentais, e posso escutar minhas músicas. Eu nunca esqueço uma frase que uma pessoa que eu não me lembro exatamente quem seja, mas essa pessoa me disse:

Ana, você é intensa demais…

Hoje eu vejo, que na época eu dei risada do comentário acima, e levei na brincadeira, mas ele está certo. Muitas vezes nós somos incompreendidos. Somos incompreendidos porque pessoas que pensam demais, pessoas mentalmente hiperativas,pessoas intensas, muitas vezes falam e agem por impulso, pois pensar e ser intenso demais não é necessariamente em pensar e agir da maneira correta. Nós agimos, depois pensamos nas consequências. Nossa mente é como uma bomba relógio, então nos colocamos a mente para trabalhar, muitas vezes dizemos ou fazemos coisas sem sentido, se estou com um poema ruim na cabeça, eu posso voltar para casa e publicá-lo, e nele pode contar verdades ou meia-verdades disfarçadas em sutilezas do dia-a-dia. Eu acordo de madrugada e escrevo a trama de um sonho, antes que eu me esqueça, e isso costuma acontecer, pelas manhãs. Eu posso dizer exatamente o que eu penso, independente do que as pessoas achem ou não. Se eu estou apaixonada, eu não escondo mais. Pessoas intensas, muitas vezes possuem o mal da sinceridade extrema, algo meio “coruja depressão”, falamos o que nos der na cabeça, e muitas vezes uma brincadeira pode ser levada como verdade absoluta, e então perdemos amigos por aí. Muitas vezes gostaria de poder dissimular e fingir, algo como um ciborgue, emular sentimentos e depois, simplesmente apagá-los como algo sem valor, mas eu tenho todas as minhas entranhas para fora, e isso de uma certa forma é algo assustador para muita gente, pois as pessoas se aproximam, interessadas no algo novo e incomum que você tem a oferecer. E então, depois de um certo tempo, elas se afastam feito crianças assustadas, pois pessoas assim possuem as entranhas expostas. Talvez se minhas entranhas não estivessem tão expostas num prato, servido a molho pardo, talvez, quem sabe, a mágoa seria menor. E o mais engraçado, é que eu não consigo sentir ódio dessas pessoas, tão indefesas frente ao fuzilamento de verdades e meia verdades. Elas preferem um mundo onde todo mundo finge, e o tempo todo são banhadas de elogios. Ninguém gosta de ser visto por dentro, ninguém gosta que metam o dedo na ferida. E então, você que me lê me pergunta,

Tá…e onde entra a porra dos urubus?O título dessa merda não é “Cinema, aspirina e urubus”?

Então…voltando, na minha caminhada perto de casa, como lá é um bairro no meio do mato, animais mortos aparecem sempre por ali. Estava andando na estradinha de terra, e encontrei um cachorro morto, com as entranhas para fora, por isso a analogia “pessoas com entranhas expostas”. Em volta dele, do cachorro, tinham vários urubus. Sempre tive um certo fascínio por essas aves horrendas. Elas tem um modo de viver muito peculiar. Quando eu era criança, eu via esses bichos lá no céu, planando em círculos, e de uma certa forma eu queria entender como eles localizavam sua comida, lá de cima. Eu era criança, e naquela época, internet e Discovery Channel era algo para bem poucos. E então eu pegava uma tarde qualquer, deitava bem no meio de uma quadra de basquete que tem em casa, e me fingia de morta. De vez em quando, eu abria os olhos para ver se algum urubu se aproximava, porque na minha cabeça, eles avistavam algo “deitado” no chão. Então, pela minha lógica infantil, eles se aproximavam para ver se estava morto, se sim…comer!Se a premissa for falsa, os urubus fogem para as colinas e tentam outra vez, planando no céu. Obviamente, eu ficava deitada lá feito uma retardada, e nada acontecia. E então, pouco tempo depois, em um livro sobre pássaros que eu encontrei na Biblioteca Municipal de Santa Bárbara, eu li que essas aves tinham visão e olfato apurado. Talvez se eu me esfregasse em algo morto, eu poderia chamar eles mais pra perto. Bom, isso é um detalhe da minha infância, mas onde eu quero deixar, é que quando eu vi o cachorro com as tripas para fora e os urubus grasnando quase parecidos com corvos…aliás, eles não grasnavam…eles crocitavam, então eu me lembrei desse evento, quando eu era criança. E então, eu continuo sempre afirmando…#DA HORA A VIDA NÃO É?E o corvo que viu minhas entranhas, assim, tão de perto, está crocitando de longe: “never more…never more”…

The welts of your scorn, my love, give me more

Send whips of opinion down my back, give me more…

—————–

Sonzinhos aleatórios inspiradores embaladores desse post madrugador : foram várias!!Hoje teve Blue Oyster Cult, Pink Floyd, Jeff Buckley, Sia, Couer de  Pirate, The Cure, Pain of Salvation.

Anúncios

2 comentários sobre “Cinema, aspirinas e urubus

Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s