Nas praças de maio ainda tem carrinhos com algodão doce,

Algodão doce rosa, azul, verde e branco.

Há crianças extasiadas na fila, com olhos brilhantes,

Constantemente molhando os lábios e batendo os pézinhos no chão,

Todas elas querem sujar os dedos com açúcar, para que se preocupar?

Quando eu era criança, bem, até hoje, para dizer a verdade,

Eu era uma criança apaixonada e serelepe, com minhas perninhas finas.

Apaixonada por algodão doce azul, macios e doces.

Meu pai me dava as moedas do troco de pão todos os dias pela manhã,

E em uma caixinha eu guardava essas moedas, e contava os dias,

Porque nas sextas-feiras era para a praça de maio que eu me divertia.

Correndo feliz pela praça, suando na minha alegria infantil, e então vinha o Sossego…

Sentada no banco daquela praça, eu balançava as perninhas recuperando o fôlego.

E então eu comprava algodão doce, algodão doce azul, porque eu gostava de azul.

Quando acabava o algodão doce,  ao final eu lambia os dedos e eu não me importava,

Com toda a minha cor azul Eu era uma criança sem modos…e então eu seguia!

Minha mãe me entregava saco de pão velho. Aqueles que sobram e ninguém quer.

E então eu jogava pedaços de pão para os pássaros que moravam lá.

E naquela época eu gostava de pombos urbanos, eu não conhecia nada,

Daqueles ratos voadores de praça, eles me encantavam, aqueles olhos vermelhos

E então como toda criança, eu corria atrás deles, pois quando somos crianças,

Nada nos importa, tudo é bonito, não importa o que dizem, tudo era bonito.

A ignorância pode ser Bela, e a ignorância das crianças é algo que deve se respeitar.

Há alguns meses atrás eu estava em uma cidade, daquelas bem pacatas,

Uma cidade pequena lá no Rio Grande do Sul, de inverno longo e rigoroso,

E de festivais de cerveja e cultura alemã no mês de outubro.

Eu estava lá brincando de gente grande, e de certa forma, me sentia importante,

Hospedada em hotel de cinco estrelas, com suíte chique e banheira hidro.

Tomava vinho todas as noites, e lia um livro imersa na banheira, e isso era bom.

Eu brincava de mulherzinha sofisticada, assoprando a espuma em minhas mãos.

Eu me lembro bem, eu me lembro bem do dia que deixei de ser mulher por instantes.

Naquela suíte de hotel sofisticado, deixei minhas roupas sociais em cima da cama,

E os sapatos elegantes de salto alto, encostados num canto perto do armário,

E tinha um espelho bem grande ali, e eu me cansei…de ver, aquela imagem adulta.

Cansada da mulher séria e elegante que ri de tudo o que vê ao redor, descontrolada.

Eu olhava aquilo, minha imagem produzida, e aquilo era uma grande piada de mal gosto,

Eu tinha 23 anos, mas naquele momento, eu queria esquecer a mulher séria.

Tirei meu ar de adulta e voltei a ser uma criança. Queria comer algodão doce!

E naquela cidadezinha de descendência alemã, pessoas brancas e altas desfilavam,

No primeiro final de semana de cada mês, havia uma espécie de quermesse na praça.

Nesta praça, existe uma igreja de arquitetura gótica, e eu amava aquilo demais.

As pessoas assistiam a missa no domingo, e se encontravam na praça.

E naquelas barraquinhas, havia de tudo um pouco, emoções, alegrias, memórias.

Coisas antigas, barracas de chimarrão, baús europeus, bordados, quadros,

E também tinha uma imensa tenda de algodão doce, doces e macios.

E então eu visitei cada barraca, naquele lugar fio, calçando meus tênis,

Blusas grossas, calça jeans e meia calça por baixo, e casacos pesados.

No pescoço, um cachecol que minha mãe me fez, e ela dizia: “Proteja a garganta.”

A minha face de mulher, eu deixei lá no hotel, junto com maquilagem e batom carmim.

Eu andava naquele lugar com a cara lavada e sem nenhum resquício de mulher,

Mas meus cabelos continuavam rebeldes e bagunçados, sem formato definido.

E eu ouvia as pessoas falando outros idiomas, alemão, italiano e inglês.

Naquele local, senhores elegantes e italianas gordas falavam gesticulando.

Nas mãos havia sempre o chimarrão, e no rosto um sorriso estrangeiro,

Muitos deles com dentes feios ou amarelados, mas um sorriso é importante!

Tinha uma senhora matrona italiana vendendo palha,

Palhas italianas é um doce muito tradicional por lá,

E a matrona italiana falava rápido, e eu não entendia,

Mas eu sei que ela me convenceu a levar três doces.

E então, continuando minhas andanças naquele lugar,

Eu via as crianças brincando nas escadarias da igreja.

Subindo e descendo as escadas, e depois correndo sem parar,

E quando chegavam na fonte central da praça, elas retomam o fôlego,

E então voltam a correr em círculos em volta da fonte, rindo e sorrindo.

O riso e o sorriso daquelas crianças me encanta.

E neste dia eu aprendi a preparar um chimarrão,

E então com minha cuia cuidadosamente pronta e cheia,

Eu continuava vagando pela praça, pensando na vida

Ou apenas observando a graça e a beleza das pessoas no domingo.

E naquele momento eu esqueci o meu lado mulher de lado, eu era uma criança,

Apenas uma garotinha calçando tênis, uma criança que tinha medo de palhaço.

E o dia estava se tornando cada vez mais frio, as pessoas se encolhiam,

Estava na hora de deixar aquele lugar, mas antes eu fui comer algodão doce.

E não havia nada tão grande quanto o algodão doce azul e macio que eu escolhi.

Mal dava para ver meu rosto feliz atrás dele. Meus olhos brilhavam…

E então, como uma criança, eu sujei todos os meus dedos, sem medo,

A minha língua estava azul, meus dentes estavam azuis, minha felicidade…também era azul.

E então, depois de minha aventura pela praça de março, e uma última visita na igreja gótica,

Eu voltei para o hotel e atirei meu cachecol na cama. Liguei meu celular e não havia mensagens.

Comecei a encher a banheira com água bem quente, e era divertido soprar o vapor que se formava.

E então eu vi meus sapatos de mulher no canto do armário, eles eram bonitos, mas me doíam os pés,

As roupas de mulher continuavam em cima da cama, me lembrando que eu não sou mais criança.

E então eu enchi uma taça de vinho tinto seco, e eu olhava ao redor rindo, brincando de fazer espuma.

E como uma criança, eu fazia desenhos rupestres no espelho embaçado.

Entre um gole e outro de vinho, emoções a flor da pele me surgiam a todo instante,

Naquele momento ali, eu relembrava minha infância, quando não sabia nadar!

Eu me lembro…eu me lembro quando aprendi a nadar, e então perdi o medo de me afogar.

E desse jeito eu me vejo, metade menina, metade mulher, e  eu queria, se pudesse,

Poder comer algodão doce todos os dias, sentada em um banco, sem preocupações.

Eu gostaria que você me dissesse que eu pareço uma criança feliz me sujando toda de azul.

Poderia me dizer que meus lábios estavam azuis, meus dedos também.

Poderia me dizer que eu sou sua linda criança manchada de azul, uma criança bonita,

Uma doce criança calçando tênis numa tarde de domingo, enquanto os sinos tocam

Enquanto os sinos tocam, eu estou lambendo meus dedos, e tornando a vida doce.

Enquanto carrego meu vinho rubro e seco em uma mão, a outra está manchada de azul.

E nessa minha vida adulta, cheia de erros e acertos, problemas e desafios,

Linhas tortas e mal escritas, sinceras e verdadeiras, sem falsas metáforas,

E sem paciência para edições de texto e correções minuciosas,

Eu sou uma criança brincando com cartas de baralho fadadas a memória.

E no topo há sempre o rei e a rainha se tocando, e eles são do estigma mais forte.

Quando estou incerta de tudo, eu assopro meu castelo e me recolho no canto escuro.

E na minha fúria adulta, eu me anulo perante todas as minhas falsas expectativas,

Mas a minha criança me diz que tudo que é verdadeiro é bonito, tudo aquilo que cremos!

Pombos urbanos de olhos vermelhos…eles eram bonitos para mim,

Mas a convicção dos adultos os tornaram horríveis e insalubres.

E então eu penso… Eu penso e reconstruo o meu castelo, dia após dia, noite após noite.

Pelas manhãs, eu acordo triste e atiro balas de canhão em meu castelo,

Mas ao longo do dia eu ergo seus pilares e faço nuvens ao redor.

Nuvens azuis, que se parecem tanto com algodão doce, e eu me lembro,

Eu me lembro quando estive constantemente dentro de um avião, a trabalho,

As nuvens que eu via lá fora, pela janela, me davam fome.

E hoje eu sinto Amor, doce e macio como algodão doce,

Ele começa a derreter, mas é difícil de tirar, as manchas azuis denunciam o crime.

O crime é forte e enebriante como um vinho carmim, e eu estou toda azul agora,

E então minha Felicidade de Bobo da Corte tem um “q” de orgulho nobre, porque meu Amor é azul,

E a minha falta de sensatez e juízo é totalmente vermelha,

Como a chama do dragão que eu tenho que vencer,

Mas talvez, esse dragão, seja apenas um moinho de vento.

E o medo seja apenas a brisa avassaladora do moinho,

Movido pelo clima de outono, enquanto as folhas caem…

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