Knockin’ On Heaven’s Door

A vida é muito breve e somos tolos quando a vimos passar apenas olhando o curso do rio.  Na maior parte dela, nós fugimos de tudo o que pode ser novo e diferente. E eu pergunto o “por quê”. Nós estamos sempre querendo fugir daquilo que foge do padrão das nossas vidas. Tudo o que é novo, aquilo que nós nunca sentimos, nos amedronta, e desse modo nós fugimos dela como o diabo foge da cruz. Quando nos deparamos com isso, nós ficamos sem saber como agir, ou quando nós agimos, dá uma ponta de medo das consequências, pois a ponta do iceberg pode ser tão pequena, ou muito grande, e assim gritamos como crianças. Nossos radares não detectam a ponta do iceberg, somos tão modernos não é? Mas nessa questão, seremos sempre como aqueles radares antigos. Temos que seguir o que o coração manda, de olhos vendados. Ou paramos, ou continuamos seguindo com a embarcação. Há aqueles que param no meio do caminho. Eles pegam suas lunetas e ficam procurando por respostas. Eles sabem que tem que seguir em frente, mas o medo os impede de seguir em frente. O barco fica à deriva, em dúvida, sem saber se segue outro rumo ou se segue em frente. A bússola gira loucamente, ela perdeu todos os seus sentidos. Eu fiquei um tempo na deriva, 2 dias, pensando, pensando muito. E sabe o que eu pensei?Não importa o tamanho da ponta do iceberg, porque não há iceberg nenhum. Esses icebergs existiam antes, porque antes eu era uma criança. Hoje sou mulher o suficiente para saber o que eu quero. Eu passei muito tempo da minha vida com medo do que pode haver no oceano. E eu já passei por marés altíssimas, mas nunca, nunca dava o braço a torcer, o rosto pra bater. Nunca me apaixonei antes, nunca senti nada igual a isso, e eu não sei explicar, é forte demais o que eu sinto, é vivo, é diferente. E tudo foi tão de repente que eu me assustei. Foi tudo numa hora que a minha vida estava virando de ponta-cabeça, mas eu lhe digo que foi a melhor coisa que me aconteceu, pois eu consegui sentir-me viva, como nunca antes nos meus 24 anos de existência, quebrou todas as minhas barreiras, me sacudiu, me fez ter sonhos inesquecíveis, me fez ser eu mesma, sem esconder absolutamente nada. Eu sempre ficava na deriva, sempre omiti meus sentimentos, e isso não é legal, pois perdemos muitas coisas na vida. Sabe, aquela oportunidade de dizer: “Você é incrível, simplesmente por existir”. Vivi muito tempo na racionalidade total, na sensatez, no orgulho e no preconceito. Não dei chance para minha sensibilidade, na razão, por mais ambígua, por mais dual que ela seja. Se eu ficar apenas observando o curso do rio, eu vou ser uma grande idiota. Digo isso, porque no final do ano passado, quando eu comecei a enxergar que eu tenho que reconstruir minha vida do zero novamente, eu prometi pra mim mesma que não teria mais medo de ser ousada, de ser mulher, de fazer tudo aquilo que eu sempre quis. Eu antes era imatura e retrógrada, muito na “vibe” da vanguarda preconceituosa. Aquela que diz que a mulher deve guardar seus sentimentos pra si, que deve confessar ao padre quando pensar em coisas sujas. Aquele texto do “Homem do Pêssego” eu adorei, e quando eu o li pela primeira vez, vi na autora Lygia Fagundes Telles uma espécie de pré-libertação. Fui criada em ambiente hostil durante 10 anos, com uma família adotiva. Eu ficava sozinha na maior parte do tempo. Meu pai biológico é militar, fui morar com minha família biológica somente quando tinha 10-11 anos. Fui criada em um ambiente altamente machista, tendo a figura de mulher ousada, como uma vagabunda que fica se curvando nos carros que param. Mulheres que declaram seus desejos mais íntimos, por mais sutil e elegante, sempre serão sempre vistas como cavando sua própria cova.  Se meu pai ler o que eu escrevi, posso ser expulsa de casa. Minha mãe, já é mais moderna, mas quem dita às regras em casa é meu pai. Sofri um bocado porque sempre fui expressiva demais. Já escrevi muito, mas sempre jogava fora com medo de que alguém achasse e me julgasse depois, pois mulher não deveria escrever sobre amor e sexo. A mulher teria sempre que esperar ser cortejada pelo homem, e só então jogar o seu lencinho no chão para que ele pegue. E depois ela deve dar um sorrisinho moroso, corar a cara e se fazer de desentendida. Ela tem que ler “O Homem do pêssego” e se benzer seiscentos e sessenta e seis vezes, e jamais, jamais imaginar homem algum naquele personagem demoníaco. Ela deve sempre esperar que um homem diga-lhe o que sente, enquanto isso não acontecer, ela deve se manter calada, viver um amor platônico às escondidas, sempre correndo junto aos lobos, mas nunca à frente deles. Eu deveria então te amar secretamente. Porque diabos eu faria isso?Eu sou uma mulher madura agora. Quero poder te chamar para tomar um vinho do Porto, falar sobre a vida o universo e tudo mais. Quero poder te dizer olhando nos seus olhos, que vinho do porto de verdade não é conservado em garrafões de plástico, quero ver você rir quando eu te dizer isso. Quero te mostrar que ele também não é doce, é um vinho licoroso seco, cujas uvas são envelhecidas na vodka, pois assim a bebida dura mais, e foi com o vinho do porto que os marujos portugueses enfrentavam grandes viagens mar adentro, contando suas histórias de amor, os duelos, dando risada, conquistando terras, brincando com a morte. Esses marujos já adormeceram nos braços das donzelas. Eles já viveram erroneamente, outros corrigiram seus erros, mas ainda acreditavam no amor. Mesmo que seja apenas para adormecer nos meus braços e eu lhe passe os dedos devagar nos seus cachos, eu não quero ver apenas o rio correr para o mar. Eu quero pegar um barco, colocar você dentro e percorrer o rio. Mesmo que para isso eu tenha que enfrentar monstros, icebergs imaginários. O meu barco já está amarrado na beira rio. Mas ele precisa de reparos, e quando ele estiver bem, com uma marina só pra ele, eu vou lhe mandar uma mensagem, e nela estará escrito: “Komm in mein Boot”. E quando você ler isso saberá que cheguei e que estou batendo em sua porta. Cabe somente a você me deixar entrar ou não, e me perguntar: “Aceita uma xícara de chá?”. Posso parecer uma mulher assustadora, mas eu sou apenas uma mulher que não tem mais vergonha, mas mesmo assim eu às vezes me encolho e me fecho como uma concha, mas isso dura muito pouco, pois todos meus sentimentos por ti,  são como uma alavanca, e essa alavanca exerce uma força para abrir essa concha teimosa. Mesmo que os momentos possam ser breves, eu seria imbecil demais de te deixar lá sentado, como um pagão triste. Ainda quero que me diga pessoalmente, “Ah, che bel vivere, che bel piacere, che bel piacere!”…

Prepare suas navalhas Figaro!Eu estou chegando, meu vestido pode não ser amarelo, mas minha dança da chuva funciona e eu prometi que a traria pra você. Não foi?

“Want you Baby, baby, baby be my friend
I will love you I will love you till the very end

baby, baby, baby, baby be my friend

I will love you
I will love you till the very end.”
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