Il barbiere di Siviglia

Tomei uma taça de vinho de porto… Desceu quente, aquele elixir de uvas selecionadas curtidas na vodka. Dilacerou minha garganta, meu corpo frio de repente se aquece, sinto calafrios, mas meu corpo queima. Olhei para os lados e vejo as putas rodopiando nas barras de metal que pendem do teto. Eu poderia fazer isso… Rodopiar em volta do poste, mas acho mais sexy a sintonia do tango argentino. Olhos nos olhos, juntos, corpo grudado, respiração ofegante e lábios pedindo para se unir. As putas continuam dançando, abrindo as pernas implorando por dinheiro. Um homem gordo e careca diz: “Dance sua vadia!”, olhei, balancei minha cabeça, dei um riso baixo. Lá do balcão eu observava o quanto as pessoas regrediram para anos e anos de ilusões. Eles acreditam que elas podem dar-lhes amor, mas elas fingem, elas só querem o dinheiro. Paguei minha conta e deixei o troco para a gorjeta do homem que me atendia. Ele tinha os dentes da frente podres, as mãos imensas e tinha uma ratazana cinza de olhos vermelhos em seus ombros… Talvez seja o rato seja o único amigo que ele tenha. Chamei ele de Pink…Mr Pink.

Saí pela porta dos fundos e fui seguindo pelas ruas escuras com as mãos nos bolsos e a cara fechada. Talvez com sorte, poderei encontrar algo inusitado pelas ruas escuras e quem sabe terei algo pra contar?Depois de dias sem novidade nenhuma, tudo parece ficar vazio. Vazio como um sonho, que eu tinha quando jovem: chegava, em minha casa, não havia móveis, não havia nada, apenas eu e as paredes. Nenhum recado de papai e mamãe, ali naquele local era somente eu e a certeza de que ficaria sozinha. Fiquei sentada num canto da sala, abraçando os joelhos, movendo o corpo para frente e pra trás, torcendo para que ao menos tenha um cachorro para lamber minhas lágrimas. Sonhos a parte, segui meu rumo pelos becos, até chegar numa rua larga. Tudo escuro, apenas uma lua esplendorosa no céu. Entro numa ruazinha estreita e depois viro à esquerda numa alameda, tomada por aquelas árvores canadenses cujas folhas são vermelhas. A rua era de paralelepípedo, o salto do meu sapato entrava naqueles vãos e eu ia cambaleando, tentando me equilibrar naqueles caminhos tortuosos. Quando cansei de sofrer, tirei meus sapatos pisei no chão e senti os musgos daquelas pedras, estava úmido, liso, macio, mesmo sendo um paralelepípedo, as folhas das árvores forravam o chão. Rodopiei, abri os braços e comecei a girar loucamente como num passo de valsa. Era tudo mágico, estava sozinha, mas eu queria era dançar. Rodopiei, rodopiei e quando me senti tonta, sentei no chão, no meio da rua, não tinha nada ali!Suspirei e pensei: “Oh Céus! O que mais eu preciso?”, me levantei do chão, dei risada, e continuei seguindo pela rua larga vermelha. A lua estava iluminando o céu, mas algumas nuvens se aproximavam. Eu olhava para cima e via as folhazinhas caindo vagarosamente, iluminadas pelo luar. Ao longe eu escutava os trovões. Seria melhor eu voltar pra casa?Mas havia uma coruja no muro de um casarão, ela olhava pra mim, girava seu pescoço, com graça. Era uma coruja cinzenta, linda, imponente… Ela dizia: “Siga… Siga”. E eu fui em frente, cantando uma canção qualquer, completamente desafinada. Começou a ventar, meus cabelos ficaram bagunçados, não me preocupei em segurar o vestido, que voava, ninguém iria aparecer ali mesmo, e eu gostava disso. Eu escutei então uma canção doce, e senti o cheiro. Aquele cheiro era perigoso, eu sabia, era o desejo que me chamava, gritava “Come Here!Come here!”. Fui seguindo o cheiro e a canção, vi uma casa antiga, com paredes descascando, porta semiaberta e janelas fechadas, mas havia uma luz bem de leve, uma penumbra como aquela ao cair da tarde, pareciam velas que junto com a luz da lua iluminavam por dentro da casa. A coruja continuou com seu pio, eu olhei os caminhos cheios de espinhos, e eu pensei, já entrei por muitos caminhos tortuosos, e consegui me livrar deles, foi difícil, foi como matar um dragão com uma espada quebrada pelo orgulho e vaidade, mas consegui. Eu falei para a coruja, estou muito machucada, conseguirei entrar aí?E ela continuou seu pio: “DO IT!DO IT!”, e a canção estava cada vez mais forte e o cheiro, oh meu deus, aquele cheiro me chamava também…era um cheiro que me tocava, e quando me tocava, eu sentia arrepios, seria o meu medo?Fui seguindo, me desviando dos obstáculos, eu queria entrar naquela casa, algo me chamava ali, eu olhei para o chão e havia um relógio, daqueles antigos. Os ponteiros giravam loucamente, como que se toda uma eternidade tivesse existido. Deste relógio saiu um cuco… O cuco não tinha olhos, ele tinha penas brutalmente arrancadas, mas ele cantava… Era essa a canção que eu ouvia, lá no começo:

“Breathe, breathe in the air.

Don’t be afraid to care.

Leave but don’t leave me.

Look around and choose your own ground.

 

For long you live and high you fly

And smiles you’ll give and tears you’ll cry

And all you touch and all you see

Is all your life will ever be.”

 

Cheguei à porta, pensei comigo: “Do que eu tenho medo? O que poderia estar me esperando? O que há lá dentro? Da onde vem esse cheiro?”.

Bati na porta, esfreguei minhas mãos, uma na outra, estava com frio. Ninguém apareceu, mas eu vi uma sombra… E o cheiro aumentou… Ele era extasiante, soberbo… E assustador… Empurrei a porta com os dedos, e sentado numa cadeira estava um Homem, impecavelmente vestido de gala, camisa social, gravata cinza, que parecia ser de cetim. Ele tinha cabelos pretos curtos, com cachos, daqueles que você pode puxar e eles voltam feitos aspirais. Seus olhos, seus olhos eram castanhos, e neles tinha um brilho que beirava a indecência. Seus lábios pareciam o céu, e no seu queixo, bem abaixo do lábio, havia uma barba sutil, um pequeno retângulo de penugem, e quando ele sorriu o conjunto “covinhas, boca, barba”, era um convite para o pecado. Ao seu lado, havia uma mesa, tinha chá e torradas queimadas de um lado só. Olhei para a janela e tinha três gatos, com olhos grandes e amarelos, com os pelos ouriçados. O Homem olhou pra mim, e sussurrou,

“Ah, che bel vivere, che bel piacere, che bel piacere!”,

E então eu o encarei e comecei a lhe despir com os olhos, sim, a nudez dos olhos, só que naquele momento, não quis disfarçar, não quis olhar e ao ver que me encarava, eu não olharia pra baixo, com vergonha. Fiquei lá parada, totalmente paralisada, apenas olhando para o Homem, e Homem me encarava e eu tremia. O Homem veio na minha direção, o cheiro aumentou, meu corpo parecia um terremoto e tudo em mim queimava. Eu ia sussurrar qualquer coisa, mas o English Man encostou os dedos na minha boca, como se estivesse dizendo “Não diga nada…”, e acariciou o meu rosto como o Barbeiro de Sevilha desliza sua navalha. Suas mãos são suaves, como o vento de uma brisa marítima, o vento de um fim de tarde de chuva, depois de um dia inteiro ensolarado. E olhando nos seus olhos eu disse, “O que quer fazer comigo?”, e o Homem sussurrou em meus ouvidos,

Pronto a far tutto, la notte e il giorno”,

E assim me beijou, e foi ali que tudo parou… Tempo, espaço, velocidade da luz, o pulsar de um quasar, a interação dos quarks com as demais partículas da matéria, a expansão do universo, o vácuo de um buraco negro.

E os gatos ouriçados, abriam a boca e gritavam,

“Ah, bravo Fígaro!
Bravo, bravissimo. Bravo!
La la la la la la la la la la!
Fortunatissimo per verità! Bravo!”

E eu me deixava levar, naquela dança louca dos sentidos. Olfato apurado, aquele era o cheiro do desejo, tocar naquele Homem era como tocar o céu. O Homem sussurrava nos meus ouvidos

“Al mio comando tutto qui sta”

E enquanto o Homem me amava, eu gritava, enquanto cravava minhas unhas nas costas do Homem,

“Figaro, Figaro!
Figaro, Figaro!
Figaro, Figaro!
Figaro, Figaro!”

E ele continuava cantando uma melodia nos meus ouvidos,

“Ahimè, ahimè, che furia!”

Os gatos cada vez mais ouriçados miavam freneticamente:

“Figaro quà, Figaro là!
Figaro quà, Figaro la!
Figaro sù, Figaro giù!
Figaro sù, Figaro giù!”

La la la la la la la la la la!

La la la la la la la la la la!

E foi assim a noite inteira. O tempo parou, naquele momento, e eu estava lúcida demais pra pensar nas consequências, eu queria apenas sentir, e o Homem me mostrou… Assim como nas óperas, o encanto… De amar e ser amado.

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E não importa o quanto isso pode demorar a acontecer… Simplesmente vai acontecer. E enquanto isso não acontece, eu apenas transcrevo meus sonhos…

“Quietly he laughs and shaking his head

Creeps closer now, closer to the foot of the bed

And softer than shadow and quicker than flies

His arms are all around me and his tongue in my eyes”

 

Que o homem aranha esteja sempre com fome…

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